Uma Copa em que a bola passa mais tempo rolando – e “morre” antes do esperado quando viaja pelo alto – tornou-se uma das edições com maior média de gols da História. O Mundial de 2026 vem superando, com folga, o poderio ofensivo de todas as Copas desde 1970. A sensação de alguns analistas, corroborada por números levantados pelo GLOBO, é de que a explicação para isso começa pela própria bola. Mas vai muito além.
Nesta edição, a primeira com 48 seleções, o marco simbólico de cem gols foi atingido após 33 partidas, ritmo só superado pelas Copas de 1954 e de 1958. Se naquela época o caminhão de gols vinha dos pés de craques como Puskas e Pelé, a safra de 2026 reúne artilheiros como Messi, Mbappé e Vini Jr., cuja eficiência acima da média vem ajudando a inflar os números deste Mundial.
As Copas que menos demoraram a atingir 100 gols
| Edição | Nº de jogos |
| 1954 | 19 |
| 1958 | 32 |
| 2026 | 33 |
| 2014 | 35 |
| 1982 | 36 |
Até sexta-feira, quando Uruguai e Espanha completaram o 64º jogo da Copa (mesmo número dos Mundiais de 32 seleções), a média de gols nesta edição beirava três por partida. É o melhor índice desde 1970, quando a média foi de 2,97 gols a cada jogo.
Em 2026, houve 141 gols até a segunda rodada da fase de grupos. Segundo dados fornecidos pela Opta, isso é 16% acima dos “gols esperados” — métrica conhecida pela sigla “xG”, e que mede a qualidade das chances criadas. A série histórica das Copas, divulgada pelo portal The Athletic, mostra que, até 2018, o mais comum era que os gols marcados ficassem abaixo dos gols esperados. Em 2022, ficou só 1% acima.
Os números traduzem a sensação, em 2026, de que Messi e Mbappé marcam a cada toque na bola. Cada um deles havia marcado, até a segunda rodada, dois gols a mais do que o xG das chances que tiveram, segundo a Opta.
— A bola desta Copa facilita, para os atacantes, algumas ações com batida seca. Mas a análise tem que levar em conta outros elementos do jogo, como a técnica desses atacantes – avalia o professor Israel Teoldo, coordenador do Núcleo de Pesquisa e Estudos em Futebol da Universidade Federal de Viçosa (UFV).
A relação entre os chutes e a Trionda, como se chama a bola da Copa de 2026, foi destrinchada em um artigo publicado em março pelo físico John Eric Goff, da University of Puget Sound (EUA). Ele apontou que a Trionda gera maior resistência do ar do que suas antecessoras quando atinge velocidades a partir de 50 km/h, e que essa resistência ocorre de forma mais estável.
Com um túnel de vento na Universidade de Tsukuba, Goff mediu como todas as bolas da Copa desde 2010 se comportam ao receberem uma batida seca com a mesma força, sem curva, no ângulo correspondente um passe aéreo ou um lançamento. Numa velocidade em que o “coeficiente de arrasto” — que mede o atrito com ar – da Trionda é de 0,24, a Brazuca, bola da Copa de 2014, era de 0,17.
A conclusão de Goff foi que a Trionda alcança “distâncias ligeiramente mais curtas” nesse tipo de batida. O estudo mostra ainda que a temida Jabulani, da Copa de 2010, se destacava por ter trajetória e aceleração mais imprevisíveis: seu coeficiente de arrasto despencava de 0,5, a 50 km/h, para 0,1 a 80 km/h.
Já a Trionda, para os analistas, pode gerar outro tipo de desafio: como ela “morre” antes do esperado, pode tanto facilitar que a batida chegue no alvo, sem subir demais, quanto complicar o tempo de bola dos goleiros.
— A Jabulani era mais macia, mas era assustadora. Já a atual tem muito mais calombos e protuberâncias — comparou o ex-goleiro Joe Hart à BBC.
Quando se trata de bola rolando, porém, nenhuma das antecessoras passava tanto tempo em atividade quanto a Trionda. Na primeira rodada da Copa de 2026, conforme dados da Opta compilados pela BBC, o “tempo efetivo de bola em jogo” correspondeu, na média, a 59,3% do tempo das partidas — índice muito próximo à meta da Fifa, que é de 60%.
Na rodada inaugural das Copas de 2018 e 2022, por sua vez, a bola rolou por cerca de 56% do tempo nas partidas. No restante do tempo, enquanto o cronômetro rodava, a bola estava parada em situações como cobranças de lateral, de falta ou tiro de meta, ou para atendimentos médicos.
Nesta edição, a Fifa introduziu regras que limitam o tempo gasto em laterais e tiros de meta, além de induzir os jogadores a evitarem atendimentos desnecessários, sob risco de ficarem um minuto fora de campo. Para o professor Israel Teoldo, os jogos ganharam “intensidade” neste Mundial.
— Isso também é impactado pelo maior número de substituições, cinco, como já havia no Catar. E, com mais seleções, embora isso nem sempre gere vantagens grandes no placar, tende a haver uma maior diferença de qualidade entre as equipes – apontou.

