Foi no dia 5 de julho de 1946, uma sexta-feira no verão parisiense, à beira da piscina Molitor, que o engenheiro e estilista francês Louis Réard apresentou ao mundo duas peças que alavancariam a emancipação feminina: o biquíni. Micheline Bernardini, versão francesa das nossas vedetes do Teatro de Revista, foi a única que topou vestir um sutiã e uma calcinha com estampa que imitava as páginas de um jornal. “O menor maiô do mundo”, como foi chamado, deixava o umbigo à mostra. Sabe-se que o traje de duas peças já tinha pintado e bordado em outras eras e culturas, como na Roma Antiga, mas coube a Réard o mérito de transformá-la no artigo de moda que, neste domingo, completa 80 anos sem perder o vigor da juventude. A jornalista Lilian Pacce, autora do livro “O biquíni made in Brazil”, analisa: “A história da moda praia está diretamente associada às conquistas da mulher ocidental ao longo do século XX, sendo o biquíni o turning point”.
Louis Réard apresentou o biquiní como artigo de moda
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A gênese revolucionária foi detectada pela lendária editora de moda Diana Vreeland, que definiu o biquíni como “a invenção mais impactante desde a bomba atômica”. Mas, diferentemente do efeito nuclear, a dupla formada por minúsculos pedaços de tecido enfrentou, ao longo das décadas, ondas conservadoras em busca do sol. A pesquisadora e analista de moda Paula Acioli ressalta: “A primeira versão moderna, criada pelo francês Jacques Heim, foi batizada de Atome, em alusão ao átomo. Porém, ainda cobria o umbigo. Semanas depois, Réard lançou a novidade. Escolheu o nome Bikini em referência ao Atol de Bikini, onde os Estados Unidos haviam realizado testes nucleares”.
Micheline Bernardini topou usar vestir um top e uma calcinha com estampa que imitava as páginas de um jornal
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Original de Paris, a peça encontrou a mais perfeita tradução no Rio, reinventada com lacinhos o por David Azulay, que fundou a Blueman em 1972. Seu sobrinho, o diretor criativo Thomaz Azulay, observa: “Aconteceu algo mágico ali. Um big bang de identidade mesmo. Um biquíni experimental de jeans desenvolvido pelo meu pai, Simão, teve valor comercial percebido pelo meu tio, David, que vendeu milhares numa tarde”, conta. “Porém, por ser de jeans sem elastano, não passou pelas coxas das ‘cocotas’. Assim, surgiu a ideia de cortar a lateral e colocar tiras para amarrar”, emenda. Agora, o modelo de lacinho está às vias de se tornar patrimônio cultural e imaterial da cidade do Rio. “O projeto foi protocolado na Câmara. Será votado em agosto”, revela Thomaz.
A modelo Rose di Primo com o primeiro modelo de lacinho da Blueman
Acervo da marca
Olhando em retrospecto, vale pontuar o motivo de o umbigo ser decisivo na trajetória do biquíni. De acordo com a historiadora de moda francesa Audrey Millet, autora do livro “Les dessous du maillot de bain: Une autre histoire du corps” (Os bastidores do maiô: uma outra história do corpo), “ o umbigo é o símbolo do cordão umbilical e, portanto, da maternidade. Naquela época, a maternidade deveria permanecer na esfera privada”. Não à toa a alemã Miriam Etz fez história na Praia do Arpoador, nos anos 1940. Ela é considerada a primeira mulher a usar biquíni em areias cariocas. A artista plástica Ira Etz, sua filha, lembra: “Minha mãe achava que tomar sol no umbigo fazia bem à saúde”.
Miriam Etz, alemã pioneira a usar o biquíni no Rio de Janeiro
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Em 1971, Leila Diniz foi além. Grávida de Janaína, dispensou a bata da época e colocou a barriga ao vento em plena Praia de Ipanema. A antropóloga Mirian Goldenberg, autora do livro “Toda mulher é meio Leila Diniz”, comenta a importância daquele gesto. “Foi uma revolução simbólica e virou inspiração de liberdade para outras mulheres. Para Leila, que tinha apenas 26 anos, não era uma militância e, sim, reflexo da sua filosofia inconsciente”, avalia. A antropóloga faz questão de lembrar das consequências sofridas pela atriz. “Ela foi massacrada, perdeu todos os empregos e virou sinônimo de mau exemplo.”
Leila Diniz, grávida de Janaína, na Praia de Ipanema
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Miriam e Leila se uniram a outras mulheres ao redor do mundo, como Brigitte Bardot e Marilyn Monroe, na divulgação do biquíni, que ganhou mais popularidade a partir da década de 1960. “Quando a pílula anticoncepcional garantiu liberdade sexual para a mulher e ela passa a assumir seus direitos na sociedade”, diz Lilian Pacce.
Marilyn Monroe de biquiní
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Se os anos 1960 foram de experimentações — o austríaco Rudi Gernreich chegou a criar o monoquíni
( primeiro maiô feminino sem a parte de cima), em 1964 —, na década seguinte, o beachwear ganhou sotaque carioca. A contracultura movia a juventude ocidental, e o biquíni pegou emprestado referências do movimento hippie. No Rio, em plena ditadura militar, David Azulay, presença assídua do Píer de Ipanema, mergulhou no beachwear nacional. Na estrada aberta por ele vieram nomes como os de Cidinho Pereira, da Bumbum, Jaqueline De Biase, da Salinas, e Lenny Niemeyer, e um sem números de estilistas de moda praia em todo o país. Na década de 1980, pelas mãos de Cidinho, os ousados fio dental e asa-delta deixaram as areias do Brasil e de outras partes do mundo ainda mais escaldantes. A partir de 1990, as modelagens se tornaram múltiplas. “Hoje são tantas versões de modelos. Gostaria de acreditar que isso reflete uma diversidade de corpos”, torce Lilian Pacce.
O biquíni, quase um século depois, é símbolo de liberdade feminina, que segue sendo conquistada. “É também ícone mundial graças aos criadores brasileiros de moda praia. Duas pequenas peças responsáveis por uma grande revolução”, finaliza Paula Acioli.
