“O sertão é dentro da gente”, escreveu João Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas” ao se referir à essência humana. Mas o “lugar sertão” que inspirou Rosa segue vivo. Pulsa nas pessoas, na cultura e na natureza, como há 70 anos, quando esta obra-prima da literatura brasileira foi publicada pela primeira vez, em julho de 1956. E ele emerge nos registros de uma expedição que, de 16 de maio a 18 de junho, percorreu 1.453 quilômetros entre 21 cidades, de Minas Gerais e Goiás.
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Em vez dos cavalos dos jagunços da obra de Guimarães Rosa, bicicletas, para ganhar as distâncias sem perder o contato com a terra e a gente. É um sertão das paisagens humanas e naturais que se mantém fiel às descrições roseanas, a despeito de IA, mudança climática, redes sociais, desmatamento do Cerrado, polarização política e Starlink.
Ao percorrer muitos dos lugares citados ou que teriam servido de inspiração para “Grande Sertão: Veredas”, a expedição “Caminhos de Rosa” evidenciou a perenidade de uma obra considerada difícil por alguns, mas que se perpetua no modo simples do sertanejo mineiro contemporâneo.
Registro da expedição “Caminhos de Rosa”, que percorre os cenários de “Grande sertão: veredas”
Divulgação/ André Ferreira
Isolamento é regra
Celulares, por vezes conectados por Starlink, convivem com quase absoluta falta de transporte público e estradas de terra. Isolamento é regra, num sertão que faz real no cotidiano, como disse Guimarães Rosa, que “o que a vida quer da gente é coragem”.
Muitos dos atuais habitantes desta terra onde reina o Sol já moraram fora, em cidades grandes como Belo Horizonte e São Paulo. Mas voltaram. Pois, como disse Guimarães Rosa, “Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam”. Mas mudam para permanecer iguais em seu espírito sertanejo, dizem os integrantes da expedição.
A expedição percorreu basicamente cidades do norte de Minas Gerais. Exceções foram Formosa (GO), citada na obra, e Brasília. A capital federal não tem ligação com o livro, mas foi incluída por logística.
Registro da expedição “Caminhos de Rosa”, que percorre os cenários de “Grande sertão: veredas”
Divulgação/ André Ferreira
Estudos já identificaram mais de 400 localidades reais, entre cidades, arraiais, fazendas e acidentes geográficos citados por Guimarães Rosa no livro.
Nem tudo é consenso. Mas os rios Urucuia e São Francisco são unanimidades. Assim como, por exemplo, as cidades de Morro da Garça, Três Marias, Curvelo, Lassance, Pirapora, São Francisco, Januária e Cordisburgo (terra natal do autor).
Há ainda lugares como a Serra das Araras (Chapada Gaúcha) e Paredão de Minas (distrito de Buritizeiro), este último onde teria ocorrido a batalha final do livro. Não poderia faltar o mítico Liso do Sussuarão, o areal desértico, quase intransponível e temido pelos jagunços, situado por alguns estudiosos nas imediações do Parque Nacional Grande Sertão Veredas.
A obra continua a romper as fronteiras do mundo acadêmico e a habitar o gosto e o imaginário popular. Permanece jovem nas “brenhas”, no dizer de Guimarães Rosa, por estar enraizada nas profundezas do Brasil.
A expedição “Caminhos de Rosa” nasceu longe de meios literários. Seu embrião foi uma ultramaratona, uma corrida com percursos superiores a 50 quilômetros, realizada em Cordisburgo (MG) e arredores. A esta se somaram competições de ciclismo.
Registro da expedição “Caminhos de Rosa”, que percorre os cenários de “Grande sertão: veredas”
Divulgação/ André Ferreira
À frente de tudo, André Ferreira, de 41 anos, veterinário e agrônomo que se tornou atleta de resistência (ultramaratona e ciclismo) e, depois, empreendedor cultural. O mineiro Ferreira nem se reconhece mais pelo sobrenome. Por suas andanças, é conhecido pelo sertão roseano afora como André Zumzum.
Movido pela paixão pelo sertão e pela obra de Guimarães Rosa, Zumzum reuniu outros quatro ciclistas para percorrer os territórios roseanos. Em alguns momentos, foram nove os participantes.
— O que encanta no sertão é a comunhão das pessoas com a terra. É gente que se funde com a paisagem. E que não permanece nesses cantos tão ermos por falta de opção, mas porque quer. Não espere grandes atrativos. Muito pelo contrário. Tudo é simples. O que realmente importa são as crianças correndo pelas ruas, as pessoas conversando nos portões, e aquela coisa parada. É gente que nunca te viu e te recebe com um sorriso e literalmente de portas abertas só porque você veio visitar — diz Zumzum.
“Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador”, diz Riobaldo, o protagonista de “Grande Sertão”.
— A coisa é tão erma, que as referências, quando existem, costumam ser apenas um trevo com a indicação de uma fazenda. E depois se passa quilômetros sem se ver nada, além da porteira da dita fazenda — diz Zumzum.
Onde Rosa pernoitou
É um universo ainda habitado por violeiros, bordadeiras, carranqueiros, boiadeiros, doceiras, rezadores, poetas, pintores; o povo do sertão, gente das roças. A expedição se iniciou em Cordisburgo ao som do berrante da Rita bordadeira, da Associação Estrela do Sertão.
“O real não está no início nem no fim, ele se mostra pra gente é no meio da travessia”, escreveu Rosa. E nesta Zumzum frisa que nada é monótono. “As estradas cantam. E ele achava muitas coisas bonitas, e tudo era mesmo bonito, como são todas as coisas, nos caminhos do sertão”, em trecho de “A hora e a vez de Augusto Matraga”, outra das obras maestrais de Rosa.
Se encontra gente que ainda viaja uma semana de carro de boi ou em comitivas a cavalo para chegar à Serra das Araras para festejar Santo Antônio, em 13 de junho. Vão movidos pela fé, a tradição e porque “o que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza!”, como disse Guimarães Rosa.
O distrito vê sua população de cerca de mil almas, momentaneamente, se multiplicar para 60 mil visitantes.
— É nesse sertão roseano que encontramos uma identidade muito profunda do Brasil. Ele é vasto, mas não necessariamente grande. A vastidão está na paisagem que não têm limites nem referências, criada pelo Cerrado e os chapadões — afirma Theo Kieckbusch, sociólogo de 38 anos, que participou da expedição.
Zumzum vive na Fazenda Paulista, que pertence a sua família há quase três décadas, e é o único lugar onde Guimarães Rosa comprovadamente pernoitou numa cama durante sua longa travessia pelo sertão, em 1952. Oficialmente, a fazenda está em Curvelo, mas fica mais próxima da área urbana de Cordisburgo, onde o autor nasceu em 27 de junho de 1908.
A expedição faz parte do projeto do Museu do Território e também do estabelecimento de uma trilha de longo curso pelos caminhos de Rosa, com o apoio do Ministério do Meio Ambiente e das Mudanças Climáticas. O museu, virtual, reunirá as tradições do território roseano.
Coisas como as receitas de rapadura que “mata a sede” citadas por Paulo Poeta, morador de Morro da Garça.
— Você come rapadura para matar a sede por quatro, cinco léguas, nesses caminhos onde não se vê ninguém — diz Paulo Poeta.
E explica: a rapadura, de tão doce, faz salivar e alivia a sede por um tempo. Quanto às léguas, tão usadas no livro e esquecidas em outros cantos, são incertas. Cada um que faça as próprias contas, diz Zumzum. Uma légua pode ter cerca de quatro ou cinco quilômetros, dependendo de quem calcula.
— É tudo tão longe e ermo, que qualquer lugar a poucas léguas é “logo ali” — acrescenta Zumzum, usando outra das expressões mineiras.
Há as bordadeiras que sabem o ponto certo para retratar os ipês que colorem o sertão. Ou ainda a arte de fazer carrancas na hora de Dim da Cacarranca, figura conhecida em São Romão. Isto porque “carranca não pode ser copiada, tem que se dar na hora da inspiração”.
E sobram tradições como a da Fazenda Marcha Lenta, em Morro da Garça, onde ainda se fabrica cachaça “de antigamente”, com fermento de fubá.
As delicadezas do sertão vivem nas senhorinhas que se reúnem para rezar em latim em São Francisco, mesmo que quase ninguém entenda mais, afirma Kieckbusch.
Também transpiram nos marinheiros aposentados que mantêm em plena forma o “Benjamim Guimarães”, o último vapor do Rio São Francisco, ancorado em Pirapora. Ou ainda em Sagarana (vilarejo de Arinos, batizado em homenagem a outra obra do autor), onde moças ainda quebram o baru como o martelo, como seus ancestrais, às margens do Urucuia.
— De bicicleta é diferente de carro. É um passar mais em contato com a natureza e as pessoas. Mais rápido que a pé e mais prático do que a cavalo. Mas dá para fazer esse caminho de toda forma — explica Kieckbusch.
Os jagunços se foram. Violência existe, mas não mais de jagunçagem nem tampouco como a das cidades grandes.
— As portas das casas ficam destrancadas e as porteiras sem fecho. Tem morador que nem sabe onde colocou as chaves porque nunca as usou. É um tipo de liberdade que perdemos nas cidades. Criança do sertão tem autonomia, explora as ruas, os matos. As pessoas têm celular, mas não são escravas das telas e isso tem tudo a ver com essa liberdade — diz Zumzum.
“Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera”, ensinou Guimarães Rosa.
E o que menos esperavam os expedicionários era encontrar tantos chapadões e uma infinitude de nascentes quase intocados de Uruana de Minas, a “cidade das cachoeiras”. Das nascentes se perde a conta, mas os habitantes mal passam de três mil espalhados por cerca de 600 km².
— É a essência do Vale do Urucuia, rio tão fundamental para Guimarães Rosa. Ali tradição é como o ar que se respira. Fiandeiras tecem o algodão para vestir os habitantes, comida é o que se planta e cria em casa. Festa é Folia de Reis e Congado. São pessoas que vivem isoladas e escolheram não sair dali. Resume muito a essência do sertão de raízes que parecem sem fim — destaca Zumzum.
Ele elabora um guia para que qualquer pessoa possa percorrer os caminhos das paisagens e do espírito da obra de Guimarães Rosa. A ideia é democratizar o que se pensa erudito.
— Além de tudo, é barato. Com R$ 150 por dia você pernoita e come com fartura sabores que não encontra na cidade grande. É uma viagem literária às profundezas do nosso país, na beleza da paisagem, na riqueza da fauna e flora, e na força de uma cultura única em sua diversidade — destaca Zumzum.
Para Kieckbusch, o sertão roseano é bem mais que uma viagem literária. Mais que utopia feita de gente e Cerrado.
— Sinto como um antídoto para a urbanidade tóxica, na qual muitos de nós vivemos. Mas também é Brasil na veia, uma zona de encontro de entre urbano e rural. Um perto que se faz longe e resiste — ressalta Kieckbusch.

