A expansão de um resort de alto luxo do grupo JHSF Fasano na ilha da Sardenha, na Itália, considerado um dos destinos mais exclusivos do mundo, tem colocado ambientalistas e moradores locais numa batalha contra a empresa. Até mesmo o governo federal entrou num embate com a administração local e, após pressão popular, houve revogação da legislação que dava suporte à liberação da expansão.
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A Tavolara Bay, empresa administradora do Fasano Al Mare Beach Club, requisitou em 2025 uma autorização inicial para expandir o empreendimento através da instalação de módulos removíveis no terreno, com 18 m² cada.
O modelo se assemelha à contêineres, que serviriam de quartos. Foram requisitados ainda abertura de passagens através de deques por um bosque dentro do terreno, além de instalação de rede de saneamento e eletricidade para estes novos quartos. A propriedade do hotel fica situada em Cala Finanza, um pequeno vilarejo em Porto San Paolo, no nordeste da ilha italiana, e é composta por uma construção dos anos 1960.
Em imagens disponibilizadas no portal do Fasano, as fotos mostram a residência, além de praia e deque privativos, piscina, quadra de tênis e a conexão com a mata às margens do mar.
De acordo com manifestantes, a JHSF Fasano possui o controle da sociedade do empreendimento, com 44% do capital. O restante da sociedade é dividido entre empresários italianos e uma holding de Luxemburgo.
O pedido de expansão veio através de um pedido de autorização de Zona Econômica Especial, as ZEEs, criado em 2024 e que visa desburocratizar iniciativas de desenvolvimento na Itália.
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Em entrevista ao jornal italiano L’Unione Sarda, o CEO da BD Capital, um dos investidores do empreendimento, afirmou que a escolha pela ZEE tinha como vantagem, diante do projeto que considera complexo, “a possibilidade de concentrar toda a análise técnica e administrativa em uma única Conferência de Serviços, garantindo maior clareza tanto nos prazos quanto na interlocução entre os órgãos públicos envolvidos”. Em resumo, a inscrição no modelo garantiria coordenação no tratamento do projeto, disse ele.
Liberação foi revogada após pressão popular
Associações da sociedade civil da região contestaram o pedido, afirmando que há três décadas, a legislação da região, como o chamado Plano Paisagístico Regional, não permite a construção de edificações a menos de 300 metros da costa, enquanto o empreendimento do Fasano fica à beira do mar. As entidades afirmam ainda que a preservação da flora local também é imprescindível para a manutenção da identidade da Sardenha, e as construções poderiam impactar o ecossistema.
Um abaixo assinado na plataforma Change.org contrária à expansão do projeto reuniu 105 mil assinaturas.
Mesmo com pareceres contrários, incluindo da região da Sardenha, o empreendimento recebeu o aval do governo italiano para dar seguimento à expansão em fevereiro. No entanto, após intensa cobertura da imprensa e manifestações da população local, a administração da ilha apresentou oposição à decisão nacional, e a autorização foi suspensa.
Em junho, o governo nacional voltou a dar o aval à obra. Mas, no fim do mês passado, a prefeitura do balneário italiano revogou a legislação que dava sustentação à liberação nacional, e o caso foi levado ao Conselho de Ministros.
A instância máxima do executivo italiano decidiu, no último dia 1° de julho, revogar a autorização concedida ao empreendimento. Uma audiência entre o governo local e o nacional estava marcada para a próxima quarta-feira, 8 de julho, para tentar resolver o impasse.
“Trata-se de uma grande vitória da legalidade ambiental e do bom senso, embora seja difícil acreditar que a disputa termine aqui”, disse Stefano Deliperi, em um blog que reúne pautas da causa local. Deliperi chefia uma entidade da sociedade civil contrária à expansão do empreendimento e a manutenção da originalidade local.
Alessandra Todde, presidente da Região da Sardenha, comemorou o veredito, afirmando que “o governo tentou decidir em nosso lugar, mas teve de se render aos fatos e dar um passo atrás”.
Profundamente perplexa
A decisão representa uma derrota para a JHSF, que deseja construir no local um empreendimento com 60 quartos e suítes, como informou em comunicado ao mercado brasileiro, onde a companhia é listada, em agosto de 2024. Além disso, a previsão para o complexo era criar cerca de 30 terrenos com vilas exclusivas, além de centro esportivo, restaurantes especiais e um “charmoso e elegante centrinho comercial” com marcas locais e exclusivas estaria presente no local, diz o documento.
Em nota, a JHSF informou que a revogação da Autorização Única n. 74/2026 pelo Chefe do Departamento para o Sul da Presidência do Conselho de Ministros deixa Tavolara Bay Srl profundamente perplexa.
“Desde o início, a empresa agiu de forma totalmente de acordo com as disposições do processo legislativo do procedimento ao qual se dirigiu, a ZES.Como investidores privados, limitamo-nos agora a expressar um grande espanto e profunda preocupação com a incerteza do quadro legislativo”, diz o texto.
No momento, a empresa disse que está analisando a situação junto a advogados para entender quais serão os próximos passos e “honrar nossos compromissos de longo prazo”.
No Brasil, a empresa é dona de diversos hotéis voltados ao alto luxo. Em Angra dos Reis, no litoral sul do Rio, o Fasano possui uma ilha exclusiva para hóspedes, anexa ao seu golf resort.
Na B3, a companhia vale R$ 7,3 bilhõese acumula valorização nos papéis de 40% em 2026. A JHSF é proprietária do Complexo Boa Vista, situada a uma hora de São Paulo, na cidade de Porto Feliz. No complexo estão a Fazenda Boa Vista, condomínio exclusivo para milionários, e um surf resort da marca Fasano. Perto dali está o Aeroporto São Paulo Catarina, único aeroporto executivo internacional do país, também de propriedade da JHSF.
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