Na última partida da Argentina nesta Copa do Mundo, diante da aguerrida seleção cabo-verdiana, muitas coisas chamaram atenção, como o vigésimo gol de Lionel Messi em Mundiais e o lindo gol de Sidny Lopes Cabral que, num arco de plasticidade invejável, venceu Emiliano Martínez. Esses, talvez, sejam os grandes destaques daquele jogo, mas um detalhe no segundo tempo da partida também saltou aos olhos dos espectadores mais atentos. A transmissão captou uma bandeira de uma torcida organizada do Banfield, clube argentino, posicionada atrás do goleiro Vozinha, com os rostos de Maradona, Messi… e Índio Solari.
O ícone do rock argentino, fundador da banda Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota — e que depois de 2001 seguiu a carreira com o grupo Los Fundamentalistas Del Aire Acondicionado —, faleceu há pouco mais de um mês, no dia 5 de junho. A despedida marcada pelos fãs da banda — e admiradores de toda a obra de Solari — aconteceu nquele mesmo dia e tomou o bairro do Parque Leloir e a Praça de Maio, com uma estimativa de um milhão de pessoas presentes.
Segundo o jornalista argentino Pablo Perantuono, editor da revista La Agenda e escritor do livro “Fuimos Reyes” — que conta a a história de “Los Redondos”, como é conhecida a primeira banda de Solari — a bandeira é um recado ao mundo: “había un Dios más”.
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Indio Solari não é exatamente a figura mais conhecida (e reconhecida) do rock latino-americano. Pablo explica que a influência dos “Redondos” fica restrita à Argentina e ao Uruguai pela própria natureza da banda. — É uma mescla muito particular. É difícil, inclusive, de vincular a banda de Solari a qualquer outro grupo argentino. Eles sempre se comportaram como uma espécie de ilha, mas, sem dúvidas, conquistaram os maiores níveis de identificação no país — afirmou.
As letras complicadas, recheadas de metáforas, flertes com a finitude e muita paixão, no entanto, entraram na alma da população argentina. — O público acolheu as letras e as transformou em algo seu. Mais do que isso: encontrou nelas uma voz que parecia falar diretamente com cada um — completou o jornalista.
Identificação e vínculo com o futebol
A razão dessa identificação tão forte é simples. Solari falava diretamente com a população desfavorecida da argentina. Era a banda das periferias, eram as letras que falavam diretamente com os desfavorecidos, que entre 1976 e 2001 sentiam que tinham uma relação direta com o vocalista. E, justamente esse vínculo com os “desfavorecidos”, une Solari às torcidas organizadas argentinas. Historicamente, as “barra bravas”, compostas por pessoas distantes das classes abastadas, formavam o grupo que melhor se relacionava com Solari.
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— Embora a banda e as letras do Indio não façam referências ao futebol, o público do Indio era profundamente ligado ao futebol. Na verdade, os Redondos foram a primeira banda cujo público passou a se comportar como uma torcida de futebol. As pessoas levavam bandeiras para os shows, cantavam o tempo todo e criavam uma atmosfera típica das arquibancadas — disse o jornalista.
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Declaradamente torcedor do Boca Juniors, o que o une ainda mais ao mundo do futebol argentino, o cantor foi homenageado pelo clube após o seu falecimento.
Demonstrando todo o carinho do povo argentino por sua música — principalmente do público do futebol —, o cantor também recebeu homenagens de outros clubes, como o rival River Plate.
‘Vamos a brillar, mi amor’
Carregado em bandeiras de torcidas organizadas, em instrumentos musicais e nas letras ecoadas nas arquibancadas, os setenta e sete anos de vida de Solari ficarão pra sempre na memória do país.
Apesar dessa paixão ter se tornado mais latente após sua partida: — foi ali que muitos argentinos perceberam pela primeira vez a profundidade desse amor — como lembra Pablo Perantuono, o músico elevado a patamar de Deus sentará ao lado de Maradona para assistir mais uma partida da Argentina em Copas do Mundo, hoje, em busca do tetracampeonato.

