Em vez de tratar o tempo apenas como a sucessão de segundos, dias e anos, uma nova exposição na Casa Firjan convida o público a enxergá-lo sob diferentes perspectivas. Memória, ancestralidade, resistência, envelhecimento, espiritualidade e transformações sociais se cruzam em “Arqueiros na espiral do tempo — Fotografia brasileira contemporânea”, mostra que celebra os 80 anos da Firjan Sesi reúne produções inéditas de 11 fotógrafos de diferentes regiões do estado do Rio.
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A exposição apresenta 39 fotografias concebidas exclusivamente para o projeto. As obras nasceram a partir de um desafio lançado aos artistas por um edital. Os participantes passaram por uma semana de imersão na Casa Firjan, onde desenvolveram coletivamente a proposta curatorial antes de iniciarem a produção das imagens.
De acordo com o gerente de Cultura e Arte da Firjan Sesi, Antenor Oliveira, a mostra representa mais uma etapa do trabalho desenvolvido pelo edital em favor da produção cultural fluminense.
— A exposição “Arqueiros na espiral do tempo” é onde deságua mais uma das ações propostas pelo edital Mosaico Rio, que se pretende um agente de estímulo à produção artística e à economia criativa no estado. Na capital ou no interior, temos buscado valorizar nossos artistas — destaca.
“O arqueiro do tempo”. Thanis Parajara documenta os povos originários
Divulgação/Thanis Parajara
O resultado reúne interpretações bastante distintas de um mesmo tema. Há trabalhos que abordam o passado e a memória, outros que refletem sobre o presente e suas transformações, enquanto algumas imagens projetam o futuro ou recuperam saberes ancestrais. Paisagens em desaparecimento, pessoas marcadas pelo envelhecimento, territórios étnico-raciais, símbolos religiosos e manifestações culturais aparecem como diferentes formas de representar aquilo que atravessa todas as existências: a passagem do tempo.
Segundo a curadora da exposição, Marcia Mello, a proposta foi justamente provocar diferentes leituras sobre um fenômeno que acompanha toda a humanidade:
—Na cultura ocidental, predomina o entendimento do tempo cronológico e histórico, medido de forma precisa em segundos, minutos, horas. A vida se desdobra como uma seta direcionada apenas para o futuro. Já no tempo mítico, valoriza-se o sagrado. A realidade é atualizada em rituais e mitos através de movimentos cíclicos, como uma roda que gira.
Essa dualidade entre o tempo linear e o tempo cíclico orienta toda a narrativa da mostra. Em vez de apresentar uma única resposta sobre o tema, a exposição constrói um percurso em que cada fotógrafo oferece uma interpretação particular, ampliando o debate sobre memória, permanência e transformação.
“Retratos de espera”. Daniel Oliveira mostra o tempo em orfanatos
Divulgação/Daniel Oliveira
Entre os destaques está a obra “Arqueiro do tempo”, da artista visual e fotógrafa Thanis Parajara. Moradora de Inhaúma, na Zona Norte, ela desenvolve uma pesquisa profundamente ligada à ancestralidade indígena e ao registro documental das vivências dos povos originários. Em 2024, seu trabalho recebeu reconhecimento com a premiação Funarte Marc Ferrez de Fotografia.
— Minha relação é documentar a luta indígena brasileira e todas as relações que o movimento emerge, a união e a confluência de saberes para a garantia da resistência ancestral — afirma Thanis.
Outro trabalho que integra a exposição estabelece uma relação direta entre fotografia e experiência de vida. Fotógrafo e videomaker, Daniel Oliveira apresenta “Retratos de espera”, obra construída a partir da realidade vivida por crianças em um orfanato. O tema tem uma dimensão autobiográfica: o artista cresceu na Fundação Romão Duarte e utilizou essa trajetória como ponto de partida para refletir sobre o tempo de espera.
— Como o tema era “Tempo”, eu me baseei em minha história e em como era a questão da adoção na época. As crianças esperavam sem qualquer informação sobre o tempo em que seriam adotadas — relembra o morador do Méier, também na Zona Norte.
Ao transformar uma lembrança pessoal em narrativa visual, o fotógrafo amplia a discussão proposta pela mostra e demonstra como o tempo pode ser percebido de formas muito diferentes dependendo da experiência de cada indivíduo. Em sua obra, o relógio deixa de marcar horas para representar expectativas, incertezas e mudanças que escapam a qualquer calendário.
Além de Thanis Parajara e Daniel Oliveira, participam da exposição os artistas Alessandro Fracta, Bruno Marchetti, Cristina Froment, Francisco Valdean, Gabriella Silva, João MM, Rafa Chlum, Renata Xavier e Thaís Valencio.
A mostra ficará em cartaz até 20 de setembro na Casa Firjan, na Rua Guilhermina Guinle 211, em Botafogo. Com entrada gratuita, a visitação acontece de terça a domingo, das 9h às 18h30.

