A Espanha dominou seus adversários e conquistou a Copa do Mundo com nomes como Lamine Yamal, Rodri, Pedri, Cubarsí, Cucurella & cia. O título, porém, não se resume a uma geração talentosa de jogadores, mas é um resultado do desenvolvimento de talentos nas categorias de base dos clubes da La Liga. Um plano que começou por uma visão a longo prazo justamente depois da era vitoriosa da Copa de 2010 e as Euros de 2008 e 2012.
— Na época, fizemos uma reflexão: “estamos bem, mas se acharmos que isso será suficiente para a próxima década, ficaremos atrás de outros países”. Então, pensamos que precisávamos agir. E a verdade é que, na Espanha, não havia uma estratégia conjunta para atuar dentro do sistema de formação e fortalecer o desenvolvimento de jovens talentos — contou Juan Florit Zapata, Diretor do Departamento de Projetos Esportivos da La Liga, em entrevista coletiva nesta terça-feira.
Assim, começou a ser desenhado o Plano Nacional de Categorias de Base, lançado em 2022 e baseado em pilares fundamentais como estratégias individualizadas para cada clube e um sistema de monitoramento de métricas para avaliar avanços e erros ao longo do processo. Os objetivos do programa eram impulsionar a excelência esportiva, profissionalizar ainda mais as estruturas das academias do país e reforçar a sustentabilidade econômica de longo prazo dos clubes.
— Desde as categorias mais jovens, nossa metodologia interliga a área técnica e tática. E creio que esse seja um dos fatores que explicam o perfil de jogadores que vocês viram na Copa do Mundo com a seleção espanhola, com muitos atletas de refinada qualidade técnica combinada a uma inteligência tática — destacou o diretor.
— Na primeira fase do plano, de 2022 a 2025, trabalhamos com 44 indicadores distribuídos em cinco eixos: estrutura e capacitação profissional; infraestrutura; metodologia e modelo formativo; atenção integral ao atleta; e, por fim, a transição para o futebol profissional. Dentro disso, métricas distintas, com foco especial na atenção integral ao jogador, plano de carreira, acompanhamento acadêmico e saúde mental.
Dessa forma, a Espanha produziu uma seleção que dominou seus adversários com cerca de 64% de média de posse de bola na Copa do Mundo, em um estilo de jogo caracterizado pela troca de passes e a intensidade na marcação pressão. E uma das grandes virtudes da seleção do técnico Luis de la Fuente foi, especialmente, a força no meio-campo. Rodri, Fabián Ruiz, Dani Olmo e Pedri são determinantes para a Espanha colocar o jogo no seu ritmo e sufocar os rivais, como fizeram, por exemplo, com a Argentina na final do Mundial — o time de Lionel Messi teve apenas 35% de posse de bola e se tornou a primeira finalista a passar 90 minutos sem chutar a gol na decisão.
Lateral-esquerdo Marc Cucurella sagrou-se campeão mundial pela Espanha neste domingo após vitória por 1 a 0 sobre a Argentina
Patricia de Melo Moreira/AFP
Para Juan Florit, no entanto, não há um foco voltado para a produção de meias habilidosos, armadores e controladores do jogo — perfil escasso no Brasil, aliás —, mas é um resultado natural do processo.
— Na Espanha, não temos uma fórmula específica para fabricar meio-campistas com esse perfil. Acredito que seja uma consequência natural do processo. É fruto da mentalidade e da convicção que temos em um modelo alicerçado no desenvolvimento do jogador a partir do aprimoramento técnico caminhando lado a lado com o desenvolvimento tático e cognitivo — explicou.
— Se desde muito jovens os atletas recebem não apenas estímulos técnicos para aprimorar sua mecânica, sua intimidade com a bola e sua capacidade de drible, mas também ferramentas para desenvolver a tomada de decisão, a visão periférica, as linhas de passe e a compreensão de quando, como e por que determinada jogada deve acontecer, à medida que avançam de categoria, eles incorporarão isso naturalmente. E isso terá reflexo direto no desempenho coletivo de suas equipes e da seleção.
A formação dos grandes talentos, contudo, não fica restrita aos grandes clubes (Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid). Pedri, por exemplo, foi revelado na base do Las Palmas, e Rodri pelo Villarreal. Além disso, a formação não acaba nas categorias de base e segue na transição para o profissional. Na última temporada, La Liga teve uma média de 20% do total de minutos disputados por atletas formados na base, o que representa o maior índice entre as cinco grandes ligas europeias — a segunda é a França, com 16%, e as outras, Alemanha, Inglaterra e Itália, ficam abaixo de 10%.
Revelado pelo Barcelona e titular do time na última temporada, Cubarsí foi eleito o melhor jogador jovem da Copa do Mundo
Buda Mendes / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP
Outro ponto é que, na Espanha, 41 dos 42 clubes profissionais contam com uma equipe reserva ou filial competindo nas demais divisões, como Real Madrid Castilla e Barcelona B. Isso oferece aos jovens oportunidades de competir no profissional antes de chegarem ao time principal.
Por fim, o diretor ainda fez uma comparação com o trabalho desenvolvido no Brasil. Para ele, o país deve preservar sua identidade e criatividade dos atletas, mas as categorias de base brasileiras demoram a começar o trabalho de desenvolvimento tático.
— O que pode ser aproveitado pelo Brasil da experiência espanhola é um aprimoramento na formação do aspecto tático do jogo, porque talvez no Brasil se inicie tardiamente o trabalho de tomada de decisão e desenvolvimento tático, e isso pode ser prejudi. O objetivo não deve ser fazer os atletas brasileiros jogarem como espanhóis, alemães ou ingleses, mas sim fornecer ao talento deles um ambiente de desenvolvimento ainda mais qualificado. Não é simples alcançar esse ponto de equilíbrio, mas, se o Brasil conseguir, os outros países terão grandes dificuldades.
A formação do título: como categorias de base da La Liga construíram a Espanha campeã da Copa do Mundo
A Espanha dominou seus adversários e conquistou a Copa do Mundo com nomes como Lamine Yamal, Rodri, Pedri, Cubarsí, Cucurella & cia. O título, porém, não se resume a uma geração talentosa de jogadores, mas é um resultado do desenvolvimento de talentos nas categorias de base dos clubes da La Liga. Um plano que começou […]