Ele estreou profissionalmente na moda com apenas 12 anos, o que é um absurdo, mas, se você pensar, Mozart começou com 5. Guardadas as proporções — e o próprio Pedro Lourenço seria o primeiro a pedir que as guardássemos — o paralelo tem sua lógica. Na semana passada, Pedro lançou a primeira coleção da marca que leva o seu nome. Primeira é modo de dizer. Filho de Gloria Coelho e Reinaldo Lourenço, ele não escolheu a moda; nasceu dentro dela. Aos 12, assinava a Carlota Joakina, marca paralela da mãe. Aos 15, tinha etiqueta própria na SPFW. Aos 19, estava no calendário oficial de Paris, elogiado por Suzy Menkes, cortejado por Lanvin e Giambattista Valli.
Faça a conta e assuste-se: ele tem mais tempo de carreira (23 anos) do que muito diretor criativo com o dobro da idade. Corria pela São Paulo dos anos 1990 a lenda de que, aos 3, ele adivinhou que a saia de uma stylist era Margiela só de tocar na bainha. Aos 11, Judy Blame assistiu a um desfile caseiro dele, no escritório da mãe, e lhe escreveu uma carta dizendo que havia chorado (Judy não chorava à toa). Depois vieram a collab com a M.A.C, a primeira de um brasileiro, a parceria com a Nike estrelada por Karlie Kloss e as capas todas. Tudo isso antes de completar 25 anos.
A coleção que Pedro acaba de colocar à venda no showroom do pai, em São Paulo, é uma das melhores estreias que vi nos últimos tempos. Estreia em termos, repito. É um retorno, depois de uma década entre Londres e Paris, da direção criativa da grife italiana de lingerie La Perla e da aventura da Zilver, marca que fundou e teve a maturidade de encerrar. Mas tem o frescor, a urgência e a ousadia de quem está começando, sem a insegurança de quem nunca fez. Os prodígios, em geral, se perdem no meio do caminho, consumidos pela própria precocidade. Pedro fez o oposto: cresceu, tomou os tapas que a indústria dá, aprendeu que não é super-herói e voltou mais leve. Voltou também sem loja, sem e-commerce, vendendo por catálogo, em produção brasileira. Ele chama isso de desacelerar. Eu chamo de jogar o jogo nos próprios e novos termos.
Fui ao provador. Queria sentir os materiais no corpo, e o corpo entendeu antes da cabeça. A proposta é enganosamente simples: peças básicas, jeans, camisa, jaqueta, subvertidas por tecidos e acabamentos nada básicos. O jeans reto, de silhueta afastada, aparece em crochê feito à mão, em ráfia, em superfície brilhante. A camisa de organza vem em gomos costurados sobre tule, tiras que ele mesmo cortou, estruturou e recortou porque não encontrava nada pronto que o satisfizesse. O macramê nasceu de um cordão de rayon tricotado que ele desenvolveu do zero, inspirado nos telhados de palha do Brasil profundo, e cada peça leva até três semanas. O Acqua, material que criou nos tempos da Zilver, agora vem aliado ao lamê e vira calças de aparência líquida. As curvas e assimetrias dos bodies são Niemeyer puro, marquise do Ibirapuera vestida.
Pedro organiza este capítulo em quatro pilares: o calor pulsante dos trópicos, o sexo e o desejo, a tecnologia da natureza e a tensão das dualidades. É tudo muito bonito no papel; mas, no provador da vida real, brilha. O que mais me encanta, porém, é o contraste. Metalizado quase futurista convivendo com artesanato de mão, sexy sem cair no óbvio, brasileiro sem folclore. “As construções são interessantíssimas. Achei jovem, novo, com frescor. Ele sabe ler o momento”, disse Costanza Pascolato, cujas palavras têm força de decreto.
Mozart morreu aos 35. Pedro Lourenço, na mesma idade, está apenas virando a página do prólogo. Eu já reservei meu lugar para os próximos capítulos. E o jeans de crochê, claro.
A nova fase de Pedro Lourenço
Ele estreou profissionalmente na moda com apenas 12 anos, o que é um absurdo, mas, se você pensar, Mozart começou com 5. Guardadas as proporções — e o próprio Pedro Lourenço seria o primeiro a pedir que as guardássemos — o paralelo tem sua lógica. Na semana passada, Pedro lançou a primeira coleção da marca […]