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Acusado de aplicar 'golpe do amor' em sócias de clube de elite em SP volta a fazer vítima três meses após ser solto

Depois de ficar menos de três meses preso em Tremembé acusado de aplicar o chamado “golpe do amor”, César Mattar, de 71 anos, teria voltado a entrar em ação. Desta vez, a vítima foi uma professora aposentada de 65 anos, que afirma ter perdido cerca de R$ 100 mil em apenas 40 dias de relacionamento. […]

Acusado de aplicar 'golpe do amor' em sócias de clube de elite em SP volta a fazer vítima três meses após ser solto


Depois de ficar menos de três meses preso em Tremembé acusado de aplicar o chamado “golpe do amor”, César Mattar, de 71 anos, teria voltado a entrar em ação. Desta vez, a vítima foi uma professora aposentada de 65 anos, que afirma ter perdido cerca de R$ 100 mil em apenas 40 dias de relacionamento. Ela tenta recuperar o dinheiro na Justiça, enquanto a Polícia Civil de São Paulo investiga o caso.
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A aposentada conheceu Mattar pelo Tinder no início de junho deste ano. Depois de alguns dias de conversa pelo WhatsApp, ele a convidou para almoçar em um restaurante no Mirante de São Vicente, no litoral paulista. Apresentou-se apenas como César e contou que era importador, fazendeiro, dono de várias franquias, havia morado em Miami e no Canadá e conhecia mais de 50 países. A demonstração de riqueza ajudou a conquistar a confiança da professora.
César Mattar com a vítima mais recente
Reprodução
César Mattar é um velho conhecido da praça. Estelionatário em série, com registros policiais desde a década de 1970, ele já havia se aproximado de duas sócias do Club Athletico Paulistano pelo aplicativo Happn. Segundo as vítimas, transformou os romances em fonte de dinheiro. De uma enfermeira de 75 anos, conseguiu surrupiar R$ 353 mil sob o pretexto de fazer investimentos internacionais e liberar um contêiner retido no Porto de Santos. De uma empresária do agronegócio de 72 anos, usurpou outros R$ 100 mil, além de um carro de R$ 150 mil, acesso irrestrito à conta bancária da vítima e um cartão de crédito sem limite. Somados apenas os valores quantificados, os prejuízos chegaram a pelo menos R$ 603 mil, fora os gastos feitos no cartão e ainda não computados.
Por causa dos golpes nas sócias do Paulistano, César foi preso. Solto menos de três meses depois para responder aos processos em liberdade, voltou a ser acusado de aplicar golpes do amor em mulheres maduras. A nova vítima descreve um método que começa pela construção de uma espécie de crédito moral. Nos primeiros encontros, ele paga contas caras, faz questão de demonstrar gentileza e afeto e exibe sinais de prosperidade. Também apresenta a família, incluindo a ex-mulher, com quem diz manter uma relação harmoniosa. “Achei incrível todo mundo se relacionar bem. Ele demonstra ser um pai e ex-marido afetuoso. Mas descobri que é uma quadrilha, pois o filho atua como advogado e a ex como fiadora”, relatou a professora.
Conversas entre César Mattar e a vítima
Reprodução
Depois de conquistar sua confiança, Mattar descobriu que ela enfrentava dificuldades financeiras e se ofereceu para ajudá-la. Disse ganhar dinheiro com a importação de perfumes e propôs que ela entrasse no negócio. Segundo a professora, prometia lucro de 40% a cada remessa e garantia que, em poucos meses, ela teria cerca de R$ 300 mil. Como a vítima não dispunha do capital necessário, Mattar a convenceu a obter crédito. Ela abriu contas, solicitou cartões e passou a comprar dólares parcelados.
As mensagens de WhatsApp trocadas pelo casal, às quais a coluna teve acesso, mostram como as declarações de amor começaram a se misturar às finanças. Enquanto incentivava a professora a contrair dívidas, Mattar reforçava a imagem de companheiro apaixonado e disposto a permanecer ao lado dela. “Eu durmo e acordo pensando em você”, escreveu. “Amor, agora temos um ao outro”, enviou. Em outra mensagem, foi ainda mais enfático: “Eu não pretendo te largar nunca”.
As juras logo passaram a dividir espaço com cartões, empréstimos e prestações. “Amor, não esquece de trazer os cartões da Caixa, débito e crédito, e também o black do Itaú”, escreveu Mattar em junho. Em outra madrugada, avisou: “Amanhã tem que fazer o consignado do BB (Banco do Brasil) então tem que estar disposta kkkkkk.” Diante da resistência da professora, o golpista insistia que a operação não lhe traria prejuízo: “Não vai te onerar não. Eu pago essas prestações até resolver.”
As desconfianças da vítima começaram durante uma viagem do casal ao Rio de Janeiro, quando Mattar passou a revelar uma personalidade diferente daquela exibida no início do relacionamento. Tornou-se mais agressivo e hostil, principalmente com funcionários de hotéis, restaurantes e outros prestadores de serviço. A mudança de comportamento assustou a professora, que começou a enxergar no namorado um homem diferente daquele que a havia conquistado semanas antes.
Conversas entre César Mattar e a vítima
Reprodução
Depois da guinada na personalidade do “namorado”, a professora resolveu investigar Cesar Mattar. Enquanto ele dormia na suíte do hotel, ela abriu a carteira dele e encontrou vários cartões bancários em nomes de outras mulheres. Também fotografou um documento de identidade e enviou a imagem para uma amiga advogada. Uma busca pelo nome revelou a extensa ficha criminal do golpista, incluindo processos por estelionato em seis capitais. O alerta veio imediatamente: “Amiga, foge daí imediatamente. Ele é um bandido profissional.”
Assustada, a aposentada esperou Mattar sair do quarto, arrumou a mala às pressas e pediu ajuda aos funcionários do hotel. Um gerente e dois seguranças a escoltaram até o carro. Ela deixou o Rio e voltou sozinha para São Paulo.
Por uma questão de segurança, a professora não contou a Mattar o que havia descoberto. Apenas passou a cobrar o dinheiro. Àquela altura, afirma já ter perdido quase R$ 80 mil. As cobranças mudaram o tom das conversas. As declarações amorosas deram lugar à agressividade. “Voc tá falando com homem. Não com rato”, reagiu Mattar. Em seguida, passou a culpá-la pela desconfiança. “Vc não sabe contar, afasta quem quer te ajudar”, escreveu. Em outra mensagem: “Vc tá muito perdida no que faz e no que fala.”
Mesmo pressionado, Mattar continuava prometendo que não deixaria a professora com as dívidas. “Eu seria a última pessoa que deixaria com algo a pagar”, afirmou. Em outra conversa, escreveu: “Mesmo que vc não esteja comigo, minha palavra é meu compromisso e isso sempre vale.” Também garantiu: “O que está feito será honrado”.
Conversas entre César Mattar e a vítima
Reprodução
No dia seguinte, a aposentada registrou boletim de ocorrência e pediu uma medida protetiva, concedida pela Justiça. Segundo ela, Mattar ainda prometeu devolver o dinheiro no fim daquele mês, mas nenhum centavo foi pago. A professora calcula o prejuízo em cerca de R$ 100 mil, incluindo compras de dólares, despesas nos cartões e uma esteira de R$ 4,7 mil. Parte dos valores chegou a ser estornada pelos bancos, mas depois voltou a ser cobrada porque as transações haviam sido realizadas com cartão e senha.
Atualmente, a professora tenta agora recuperar judicialmente o dinheiro, mas diz ter pouca esperança. Além do prejuízo, afirma continuar com medo de Mattar. Depois da concessão da medida protetiva, policiais passaram a procurá-la periodicamente para verificar se ele havia tentado se aproximar ou fazer contato.
A ficha corrida de César Mattar, conhecido como César Mapá, é comprida. Segundo a Polícia Civil, seu histórico de estelionatos remonta à década de 1970 e inclui condenações, prisões e três fugas do sistema penitenciário. A última ocorreu em 2012. Ele só foi recapturado quatro anos depois, em Santos, numa operação em que foram encontrados documentos falsos, cartões bancários e carnês fraudulentos.
Uma sentença da 2ª Vara Criminal de Santos ajuda a dimensionar esse histórico. Ao condená-lo em maio de 2026, a juíza Lívia Maria de Oliveira Costa classificou seus antecedentes como péssimos e o considerou “multirreincidente”. O documento relaciona condenações anteriores por estelionato, falsidade ideológica, falsa identidade, corrupção ativa, uso de documento falso e furto qualificado. A magistrada descreveu uma trajetória de reiteração de crimes patrimoniais e contra a fé pública.
Nesse processo, ficou comprovado que Mattar utilizou uma Carteira Nacional de Habilitação falsa em nome de outra pessoa, mas com sua fotografia, em dois cartórios e numa agência do Santander em Santos, em 2016. Com o documento, chegou a abrir uma conta bancária. Quando policiais foram à sua casa para cumprir quatro mandados de prisão, encontraram a habilitação falsa, talões de cheque e cartões bancários em nomes de terceiros. Pelo caso, foi condenado em maio deste ano a 4 anos, 3 meses e 25 dias de prisão, em regime inicial fechado.
Em 2026, o nome de Mattar voltou a aparecer em procedimentos de violência doméstica. Em São Paulo, a Justiça concedeu medidas protetivas a uma mulher e determinou que ele não se aproximasse dela nem mantivesse contato. Em Brasília, Mattar também figura como réu em outra ação penal que tramita numa vara especializada em violência doméstica.
A coluna entrou em contato com César Mattar e com seu advogado, Octavio Rolim. Ambos negaram as acusações e afirmaram que Mattar não deve dinheiro a nenhuma das mulheres e que todos os relacionamentos foram baseados no “amor verdadeiro”. “Fui apaixonado por todas elas. Pena que não deu certo”, disse Mattar.

Acusado de aplicar 'golpe do amor' em sócias de clube de elite em SP volta a fazer vítima três meses após ser solto

Autor

BRCOM