Há crises que transferem votos e há crises que reorganizam emoções políticas. A atual crise do Supremo Tribunal Federal parece pertencer, por enquanto, ao segundo tipo. Os dados da nova pesquisa Quaest respondem a quatro perguntas que ajudam a entender o momento: como o eleitor enxerga o caso Master; como reage ao conflito envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça; o que tudo isso produz na confiança no STF; e, finalmente, qual é o efeito sobre o voto presidencial.
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As respostas apontam na mesma direção. O caso aprofunda o desgaste da instituição e alimenta uma sensação de crise sistêmica. Mas não cria uma avenida eleitoral para o governo. Ao contrário: quando a crise ganha rosto, ela encontra na direita e no bolsonarismo o público mais disposto a transformá-la em reforço da própria escolha política.
A primeira pergunta é se o tema chegou de fato ao eleitor. Chegou. Setenta e cinco por cento dizem já ter ouvido falar do escândalo do Banco Master: 48% afirmam que já sabiam do caso e estão bem informados, e outros 27% dizem que sabiam, embora não se considerem bem informados. O episódio envolvendo Moraes, Mendonça e Daniel Vorcaro também tem ampla circulação: 73% já tinham ouvido falar dele.
Mas como o Master está sendo interpretado? A resposta predominante é: como uma crise de todos. Para 46%, todos os grupos políticos e institucionais tiveram sua imagem afetada negativamente pelo escândalo. O STF vem em seguida, citado por 17%, à frente do governo anterior e da família Bolsonaro, com 15%, e do governo Lula e dos políticos do PT, com 9%.
Há dois sinais relevantes nesse resultado. O primeiro é que o Supremo voltou ao centro da crise: a parcela que cita o STF saltou de 5%, em julho, para 17% agora. O segundo é que, mesmo com essa alta, a percepção sistêmica continua dominante. O eleitor não enxerga o Master como um problema que pertença exclusivamente a um campo político; enxerga um retrato de contaminação geral do sistema.
É justamente por isso que o caso não produz um dividendo automático para Lula. Entre lulistas, Bolsonaro e sua família são apontados por 35% como os mais afetados, contra 32% que citam todos os grupos. Na esquerda não lulista, prevalece a visão de que todos foram atingidos, com 45%, mas Bolsonaro aparece logo depois, com 31%. Entre independentes — o grupo mais relevante para qualquer movimento eleitoral —, 55% dizem que todos foram afetados. Não há, nesse centro do eleitorado, uma leitura que transforme o caso em vantagem clara para o governo.
Na direita, a distribuição de responsabilidade muda. Entre bolsonaristas, as respostas mais frequentes são: todos os envolvidos, com 40%; o STF, com 28%; e o governo Lula e o PT, com 26%. Bolsonaro e sua família são citados por apenas 2%. Entre os eleitores de direita não bolsonaristas, o desenho é semelhante: 49% dizem que todos foram afetados, 28% citam o Supremo, 16% o PT e 3% Bolsonaro. A crise permanece sistêmica, mas a direita a lê com dois alvos adicionais — STF e PT — e praticamente sem custo para a oposição.
A segunda pergunta é como o eleitor reage quando a crise no Supremo ganha um confronto mais concreto. Na percepção medida pela pesquisa, André Mendonça é apontado por 37% como quem está agindo corretamente no embate com Alexandre de Moraes, mais que o dobro dos 16% que citam Moraes. Mendonça não tem maioria absoluta: 20% dizem que nenhum dos dois age corretamente e 25% não respondem. Ainda assim, é ele quem reúne a maior parcela das respostas.
O dado se torna politicamente mais expressivo quando observado por identidade. Entre os eleitores de direita não bolsonaristas, Mendonça vence Moraes por 67% a 5%. Entre bolsonaristas, a diferença é de 58% a 6%. Nos independentes, Mendonça também aparece à frente, por 33% a 13%. No lulismo, o sinal se inverte: Moraes tem 34%, contra 12% de Mendonça. A crise, portanto, não produz consenso nacional, mas oferece à direita um personagem capaz de organizar sua reação e representar seu ponto de vista.
A terceira pergunta é institucional: o que acontece com a confiança no STF? Aqui, o resultado é inequívoco. A desconfiança atingiu o ponto mais alto da série: 56% dizem não confiar no Supremo. Em 5 de agosto, eram 46%. No mesmo período, a confiança total — a soma de quem confia muito e de quem confia pouco — caiu de 51% para 39%; a parcela que confia muito recuou de 18% para 9%.
O desgaste atravessa os campos políticos. A queda recente é especialmente visível entre lulistas, na esquerda não lulista, entre independentes e na direita não bolsonarista. Entre bolsonaristas, a desconfiança já partia de patamar muito alto e permanece alta: 69% dizem não confiar no STF. A crise, portanto, amplia a fragilidade da instituição no conjunto do país. Mas uma instituição mais fraca não se converte, automaticamente, em um governo mais forte.
A quarta pergunta é eleitoral — e é ela que dá a dimensão estratégica do problema. Para 67%, a crise não influencia o voto para presidente. Apenas 7% dizem que ela os faz considerar uma mudança de escolha. Não há evidência de uma grande conversão eleitoral, nem de uma migração mensurável em direção a Lula.
O efeito que aparece é de reforço. No total, 22% dizem que o caso reforça sua escolha atual. Entre lulistas e eleitores de esquerda não lulistas, esse percentual é de apenas 10%. Entre independentes, chega a 19%. Na direita não bolsonarista, sobe para 40%; entre bolsonaristas, para 35%. A diferença é ainda mais clara entre os que dizem não ser influenciados: são 84% entre lulistas, mas 51% na direita não bolsonarista e 52% entre bolsonaristas.
O caso, em suma, não está mudando votos em massa. Está deixando a direita mais convicta, mais atenta e mais engajada em sua escolha. E isso importa em uma eleição competitiva.
Campanhas não dependem apenas de persuadir indecisos; dependem também de manter a própria base mobilizada, pronta para defender a candidatura e comparecer à urna.
O tempo, por isso, não é neutro. Se a crise continuar ocupando o centro da agenda, a tendência é que ela mantenha a base da direita mais mobilizada. Não porque o caso já esteja, por si só, arrastando os independentes para a oposição, mas porque é ali que a percepção favorável a Mendonça e o reforço da escolha eleitoral são mais fortes. Para o governo, o saldo é bem mais pobre: os independentes enxergam uma crise de todos; a esquerda não recebe um reforço comparável; e o país acumula mais desconfiança em suas instituições. Quanto mais espaço esse debate ocupar, maior será a vantagem da oposição em manter sua base engajada.
Análise: A crise que mobiliza a direita
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