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outubro 23, 2026
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Apesar do recorde de R$ 239,4 bi em setembro, arrecadação começa a perder fôlego; entenda

Por · outubro 23, 2026
Apesar do recorde de R$ 239,4 bi em setembro, arrecadação começa a perder fôlego; entenda


A arrecadação federal com impostos e contribuições somou R$ 2,35 trilhões entre janeiro e setembro de 2026. É o maior valor para o período na série histórica da Receita Federal, iniciada em 1995. Os dados, divulgados ontem pelo Fisco, mostram alta de 6,97% acima da inflação em relação aos nove primeiros meses de 2025. O desempenho da economia, os juros altos, que turbinam o Imposto de Renda sobre aplicações financeiras e o petróleo, cuja exportação passou a ser tributada este ano, ajudam a explicar o resultado.
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Em setembro, a arrecadação foi de R$ 239,4 bilhões, alta real de 5,62% sobre o mesmo mês de 2025. Também é recorde para o mês.
Os números, porém, já indicam perda de ritmo, e parte dos especialistas vê sinais de desaceleração. Nas receitas administradas pela Receita, o crescimento real acumulado no ano chegou a 7,10% até agosto e recuou para 6,89% até setembro.
Sinais de perda de fôlego
A desaceleração aparece nos indicadores que servem de base para a cobrança. Em agosto, mês de referência da arrecadação de setembro, a produção industrial caiu 1,83% na comparação anual. As vendas do comércio ficaram praticamente estáveis, segundo dados do IBGE compilados pela Receita; em junho, cresciam 4,93%.

No Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) e na Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), o recolhimento por estimativa mensal recuou 0,58% em termos reais em setembro. Essa modalidade é usada pelas empresas do lucro real, em geral as maiores.
O economista João Leme, da Tendências Consultoria Integrada, avalia que a arrecadação começa a dar sinais de esgotamento de alguns dos principais pilares de expansão, apesar do resultado positivo. Ele cita o peso de tributos regulatórios e de receitas extraordinárias com petróleo, que sustentam o resultado no curto prazo.
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Entre janeiro e setembro, o governo arrecadou R$ 12,869 bilhões com imposto de exportação sobre petróleo bruto.
— Nossa leitura é que a dinâmica das receitas deve garantir o cumprimento da meta fiscal em 2026, mas não deve ser suficiente para resolver o desafio em 2027 — afirma Leme.

O governo tem contado com o aumento da arrecadação para tentar atingir a meta para as suas contas em 2026. Para este ano, a meta é que as contas do governo tenham saldo positivo de 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB), cerca de R$ 34,3 bilhões. Porém, há intervalo de tolerância de 0,25 ponto percentual em relação à meta central.
A equipe econômica também tira do cálculo da meta R$ 57,8 bilhões em despesas, em gastos com precatórios (sentenças judiciais).
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Para o economista Tiago Sbardelotto, da XP, a arrecadação deve continuar crescendo, mas em ritmo menor. “A moderação da atividade econômica deve exercer impacto negativo no último trimestre deste ano e no próximo ano, enquanto o atual nível dos preços do petróleo deve compensar parcialmente esse movimento”, diz relatório da XP.
O economista José Roberto Afonso, consultor da Finance, prefere medir o resultado em proporção do PIB. Pelas contas dele, a arrecadação federal chegou a 23,2% do PIB até setembro, 0,9 ponto percentual acima de igual período de 2025. Os maiores ganhos vieram de royalties, IR sobre rendimentos de capital, receita previdenciária e IOF.
— Podemos dizer que o Leão virou sócio de duas distorções: em muito, da disparada dos preços internacionais do petróleo, movida pela guerra no Oriente Médio, que aumenta lucros e vendas do setor; e, em menor grau, das elevadas taxas de juros reais no Brasil, que elevam o IR na fonte sobre rendimentos de capital. São duas variáveis que, temporariamente, parecem fora do lugar na economia mundial e brasileira — diz Afonso. — Deixando de lado petróleo e juros, a arrecadação e a economia vão bem, mas sem nada de espetacular.
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Afonso aponta como exemplo o Imposto de Renda das empresas. Até setembro, a arrecadação do lucro presumido, regime das empresas de menor porte, subiu 9,19% acima da inflação. Já nas grandes empresas, que pagam usando a estimativa mensal, o avanço foi de 2,72%.
Na Previdência, a contribuição recolhida pelo Simples Nacional cresceu 7,42% em setembro, enquanto a massa salarial teve alta real de 1,72% em agosto. Para o economista, os números indicam que são as micro e pequenas empresas que estão sustentando o emprego, os salários e a arrecadação.
Metade do projetado
O recorde também reflete a estratégia do governo Lula de recompor a carga tributária, com criação de tributos e revisão de benefícios fiscais. Várias medidas aparecem no balanço da Receita, como as mudanças no Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF), a partir de junho de 2025; e o imposto de exportação sobre petróleo bruto, que rendeu R$ 12,9 bilhões até setembro.
A arrecadação de setores antes beneficiados pelo Perse, programa de socorro ao setor de eventos, também se recuperou.
Já uma cobrança que tem frustrado o governo é a tributação de lucros e dividendos, criada para compensar a ampliação da isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil por mês. A cobrança levantou R$ 5,26 bilhões de janeiro a setembro. O valor equivale à metade dos R$ 10,5 bilhões que o governo projeta agora para o ano.
Essa estimativa já foi cortada duas vezes e corresponde a cerca de um terço dos R$ 29,9 bilhões previstos no início de 2026.
Setembro foi o melhor mês desde que a cobrança de dividendos entrou em vigor, em janeiro: R$ 1,23 bilhão, alta de 39% sobre agosto. Do total, R$ 774,6 milhões vieram da retenção de 10% sobre dividendos acima de R$ 50 mil mensais pagos por uma empresa a pessoas físicas residentes no país, e R$ 455,9 milhões, da alíquota de 10% sobre lucros remetidos ao exterior.
Mesmo com a aceleração, a meta revisada exige um salto. Para alcançar os R$ 10,5 bilhões, faltam R$ 5,24 bilhões em três meses, o que dá média de R$ 1,75 bilhão por mês, 42% acima do recorde de setembro. O Tribunal de Contas da União (TCU) alertou o Executivo em setembro para o risco de superestimar as receitas caso as projeções com dividendos fossem mantidas até dezembro, o que poderia distorcer a avaliação sobre a necessidade de contingenciamento.
A Receita tem atribuído a frustração à antecipação da distribuição de lucros em 2025, para escapar da cobrança, e à regra de transição da lei: dividendos de lucros apurados até 2025 cuja distribuição foi aprovada até 31 de dezembro ficaram fora da incidência. Economistas apontam também maior retenção de caixa pelas empresas.
Do outro lado da reforma, IR retido na fonte sobre rendimentos do trabalho caiu R$ 6,5 bilhões em termos reais até setembro, segundo a Receita, que diz que isso era esperado.
Entre janeiro e setembro, o governo arrecadou R$ 3,72 bilhões com apostas de cota fixa e outros R$ 3,14 bilhões recolhidos pelas empresas do setor. Em outubro, Lula editou medida provisória que proibiu as apostas por plataformas.
O chefe do Centro de Estudos Tributários e Aduaneiros da Receita, Claudemir Malaquias, afirmou que os dados de outubro ainda devem registrar arrecadação com o setor:
— A gente tem uma parte que ainda vai ficar. O que foi vetado foram as apostas mediante as plataformas, e não é a totalidade das apostas.

Apesar do recorde de R$ 239,4 bi em setembro, arrecadação começa a perder fôlego; entenda