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setembro 24, 2026
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Artigo: Quem ainda pode se dizer outsider? A disputa pelo lugar de 'fora da política' em Minas

Por · setembro 23, 2026
Artigo: Quem ainda pode se dizer outsider? A disputa pelo lugar de 'fora da política' em Minas


A ideia de que alguém vem “de fora da política” já ajudou a eleger muita gente no Brasil. Em diferentes eleições, candidatos transformaram experiências no empresariado, na televisão, nas forças de segurança ou em outras áreas profissionais numa espécie de credencial eleitoral. A promessa, quase sempre, era parecida: fazer diferente justamente por não pertencer à política tradicional.
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Minas Gerais oferece, em 2026, um cenário interessante para observar até onde essa lógica ainda funciona. Flávio Roscoe (PL) entra na disputa político-partidária-eleitoral depois de uma trajetória construída principalmente no setor empresarial e à frente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). É, entre os nomes colocados no cenário mineiro, aquele que mais se aproxima da ideia clássica de outsider: alguém sem uma carreira formada a partir de sucessivos mandatos eletivos e que tenta transformar essa origem externa ao campo eleitoral em um diferencial.
Isso não significa dizer que alguém que passou anos à frente de uma entidade empresarial importante esteve distante da política. Pelo contrário. A representação de interesses, a interlocução com governos e a participação no debate público fazem parte desse tipo de atuação. Mas há uma diferença entre circular nos espaços de decisão política e ter uma carreira submetida diretamente às urnas.
O líder, até então, das pesquisas de intenção de voto, Cleitinho Azevedo (Republicanos) está em outra situação. Vereador de Divinópolis, deputado estadual e, depois, senador, ele já acumula uma trajetória institucional que dificulta classificá-lo simplesmente como alguém de fora da política. Ao mesmo tempo, boa parte de sua comunicação política continua baseada justamente na demarcação de uma distância em relação à política tradicional.
A crítica aos privilégios, a exposição de situações apresentadas como absurdas, a linguagem mais direta e a tentativa de falar como alguém que não teria sido incorporado pelos costumes de Brasília ou da política institucional continuam ocupando espaço importante em sua imagem pública.
Isso ajuda a fazer uma distinção que é preciso ser considerada como importante: ser outsider e se apresentar como antissistema não são exatamente a mesma coisa.
Linguagem antissistema
A condição de outsider pode se perder com o tempo. Mandatos se acumulam, partidos passam a fazer parte da trajetória, alianças são construídas e o próprio candidato aprende a operar dentro das instituições. A linguagem antissistema, no entanto, pode continuar funcionando por muito mais tempo. Um político pode passar anos dentro do sistema e ainda organizar sua comunicação a partir da ideia de que está enfrentando esse mesmo sistema.
Não é uma contradição exclusiva das estratégias comunicacionais de Cleitinho: ela aparece com frequência na política contemporânea e ajuda a explicar por que o discurso contra “os políticos” continua sendo utilizado também por quem já fez da política sua própria atividade profissional.
Romeu Zema (Novo), por exemplo, representa outro estágio desse processo. Quando disputou o Governo de Minas pela primeira vez, em 2018, a imagem do empresário sem trajetória eleitoral anterior era parte central da candidatura. A experiência no setor privado aparecia como contraponto à chamada velha política e ajudava a reforçar a promessa de uma gestão diferente. Foi o bastante para derrotar, nas urnas, o então candidato a reeleição, Fernando Pimentel (PT) e, no segundo turno, o tucano Antônio Anastasia (PSDB).
Oito anos depois, naturalmente, a situação é outra. Zema já venceu duas eleições para o governo de Minas, acumulou anos de exercício do poder, construiu alianças, enfrentou crises, tomou decisões e passou a ter uma história política própria. Ao disputar novos espaços, já não pode ser apresentado apenas como o empresário que resolveu entrar na política. A política também entrou em sua biografia. E isso produz um problema interessante do ponto de vista da comunicação eleitoral.
O fato é: quem chega ao poder prometendo ser diferente precisa, mais cedo ou mais tarde, explicar o que fez depois que chegou.
A ausência de experiência política pode funcionar como ativo numa primeira campanha. Depois de anos em mandato(s), ela deixa de existir. Em seu lugar aparecem resultados, decisões, negociações, acertos, erros e uma série de elementos que passam a ser cobrados pelo eleitor e explorados pelos adversários. Ou seja, o discurso também precisa mudar.
Já não basta dizer “eu não sou como eles”. É preciso demonstrar o que houve de diferente quando se teve a oportunidade de governar. Isso não quer dizer que a imagem original desapareça. Muito pelo contrário. O empresário pode continuar sendo lembrado como empresário. A ideia de gestor pode permanecer. A linguagem de enfrentamento pode ser preservada. O que muda é que tudo isso passa a conviver com uma trajetória efetivamente política.
É nesse ponto que tenho trabalhado com a ideia de um pós-outsider: uma liderança cuja origem externa ao campo político continua sendo mobilizada na comunicação com foco na diferenciação e ruptura, embora sua presença dentro das instituições já esteja consolidada.
Roscoe, Cleitinho e Zema, portanto, ajudam a observar três movimentos diferentes. Um tenta chegar às urnas convertendo uma trajetória externa ao sistema eleitoral em novidade, tendo como padrinho político o homônimo presidencial. Outro já acumula mandatos, mas continua explorando uma linguagem que reforça sua distância simbólica em relação ao sistema político-institucional. E o terceiro precisa administrar a passagem entre a imagem do outsider que chegou ao poder e a realidade de alguém que já possui uma longa trajetória dentro dele e agora tem histórico na administração pública que pode ser resgatado e comparado.
Isso talvez diga algo sobre a própria força que o termo outsider ganhou nas últimas eleições. Na última década, estar “fora da política” virou um ativo político. E, quando isso ocorre, a discussão deixa de ser apenas sobre a origem de cada candidato. Passa também pela maneira como sua imagem é construída, pelos adversários que escolhe, pela linguagem que utiliza e pelo lugar que tenta ocupar diante do eleitorado.
Há candidatos que são outsiders pela trajetória. Há políticos experientes que continuam falando como se ainda estivessem do lado de fora. E há aqueles que chegaram ao poder como novidade e agora precisam encontrar formas de continuar representando mudança depois que a novidade passou.
A eleição mineira de 2026 pode ajudar a mostrar justamente isso. O outsider não desapareceu. Mas já não basta perguntar quem veio de fora. Talvez seja mais interessante observar quem ainda consegue convencer o eleitor de que continua diferente depois de entrar. Aguardemos o passar dos dias.
* Jornalista, publicitário e doutor em Comunicação. Estrategista e pesquisador em Comunicação Política-Eleitoral. É associado da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel)

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