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novembro 1, 2026
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Às margens do mesmo rio, duas cidades com recordes políticos opostos

Por · novembro 1, 2026
Às margens do mesmo rio, duas cidades com recordes políticos opostos


Embora compartilhem a exuberância da Mata Atlântica, duas cidades do interior com rios da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul, uma do Vale do Café e outra da Região Serrana fluminense, tiveram o mapa eleitoral com os contrastes mais acentuados do estado. Rio das Flores teve um fluxo de votos a Lula de 63,7%, sagrando-se a de votação mais expressiva no PT no segundo turno. Já a de votação mais à direita foi São José do Vale do Rio Preto: 75% dos votos válidos foram direcionados a Flávio Bolsonaro no segundo turno, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), um retrato das diferentes identidades políticas que convivem no território fluminense. Especialistas relacionam essas escolhas a fatores como desenvolvimento econômico, escolaridade, influência religiosa, formação identitária e alcance ou rejeição a benefícios sociais.
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Até o início do segundo semestre, nada atrapalhava o sossego de Rio das Flores. A pacata cidade fluminense com 8.954 habitantes, número menor do que a população do bairro da Glória (9.661), na Zona Sul do Rio, há três anos sem morte por crimes intencionais, segundo o ISP, tem organização urbana, arborização, áreas de lazer, limpeza e um vínculo comunitário aflorado. Rio das Flores é uma das poucas cidades do estado que registraram crescimento no número de católicos, atualmente eles são 62%, e e está entre os municípios com menor proporção de evangélicos, 22%. Na vizinha de Valença, que atrai trabalhadores e estudantes universitários, tudo seguia em paz, até que a polarização política dividiu moradores e parte da classe de empresários e políticos no segundo semestre deste ano.
Portal de Rio das Flores, cidade com menos de 9 mil habitantes no interior do Rio
Marina Calderon
Numa campanha ferrenha capitaneada por lideranças fortes do PL, entre elas o senador Carlos Portinho, ruelas foram tomadas por carreatas que tinham até um trator e um cavalo branco com a bandeira do Brasil como símbolos. Lideranças das câmaras estaduais e federais também arregimentaram simpatizantes da direita. Mas na cidade em que a votação para presidente tinha rendido 57% dos votos para o PT no primeiro turno, moradores rejeitaram manifestações e a desaprovação começou a respingar no prefeito. A insatisfação se intensificou depois que ele rompeu o apoio a Eduardo Paes e passou a integrar o grupo político de Douglas Ruas.
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A farmacêutica aposentada Tereza Cristina Machado, de 67 anos, moradora há 40 de Rio das Flores, conta que entre o primeiro e o segundo turno, grupos de professores, estudantes e apoiadores de cidades vizinhas passaram a compor as manifestações da esquerda na cidade.
— Houve uma briga que parecia a de mostrar poderio: quem estava com um ia votar no Lula, quem estava com o outro, ia votar no Flávio. A cidade sempre teve dois lados, mas isso era muito acentuado nas eleições para vereador e prefeito. Dessa vez, houve algo que eu nunca tinha visto: uma eleição para presidente dividiu a população — conta a mineira. — Até os jovens que não votam se engajaram em manifestações, foram criados grupos virtuais com centenas de pessoas. Não existe PT e nem Psol na cidade, mas vieram pessoas de Valença apoiar.
Tereza Cristina Machado e Carlos Eduardo, moradores de Rio das Flores, ornamentaram a casa com homenagem ao PT
Marina Calderon
A reportagem tentou contato com Rodrigo Cibalena, chefe do executivo, via assessoria do MDB e via gabinete de Rio das Flores e não obteve retorno. A última postagem da rede social do político, apoiando o PL, teve os comentários trancados.
Mayra Goulart, doutora em Ciência Política pelo IESP/UERJ e coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada da UFRJ, assinala que prefeitos do interior têm sido, de longa data, pragmáticos, ainda que individualmente não concordem com as siglas que apoiam.
— A proximidade com o governo estadual é muito favorável a um prefeito. A gente tem no estado do Rio uma realidade em que o PL é muito forte e condicionou os movimentos. O partido já tinha um quarto das cadeiras do legislativo estadual, grande parte do federal. Quando acabou o primeiro turno, ficou mais nítido para muitos, com esse pensamento voltado a quem está no poder, que o melhor era seguir o Douglas Ruas — diz a especialista.
Em Rio das Flores, uma profissional de saúde de 38 anos conta que a escassez de vacinas da pandemia ficou na memória de parte dos habitantes. O boca a boca, fortalecido pelas relações de confiança que os vizinhos têm, fortaleceu a rejeição ao filho de Jair Bolsonaro, então presidente investigado pela CPI da Pandemia por atrasar e recusar ofertas de compra de vacinas contra a Covid-19 entre 2020 e 2021.
— Tinha mês que Rio das Flores só recebia 5 doses de vacina. Foi muito difícil. As pessoas aqui não esquecem isso — diz.
Herança imperial e fé
Em São José do Vale do Rio Preto, onde Flávio Bolsonaro teve 75% dos votos no segundo turno, Eguinaldo Silva, dono de um supermercado todo ornamentado com bandeiras do Brasil e camisas da seleção de futebol penduradas, não teve seu candidato eleito, mas comemorou as vendas:
— Essas bandeiras e camisas eram da Copa de 2022. Nas eleições, tirei do estoque e vendi bastante — disse o empresário, que participou de carreatas pelo 22.
Em São José do Vale do Rio Preto, que teve 75% de votos em Flávio Bolsonaro no primeiro turno, supermercado registrou alta na venda de camisas e bandeiras do Brasil
Marina Calderon
As manifestações na cidade governada por Zé Carlos do Mariano (MDB), que também apoiou Flavio, aconteceram por ruas do ex-distrito de Petrópolis de forte herança colonial e que, apesar de batizada com nome de santo católico, é agora a segunda maior em número de evangélicos no estado do Rio. Eles são 47,1% da população, de acordo com o Censo IBGE de 2022. A fé mobiliza encontros presenciais e correntes virtuais. E mesmo a quem não é frequentador de templos, os valores impactam decisões de voto. A vendedora de biscoitos Sylvana Santos, de 34 anos, viu pelo celular as críticas a seu candidato, Flávio Bolsonaro, no último debate:
— Ele tinha tudo para ganhar, mas foi desrespeitoso falar da deficiência do Lula, dos nove dedos. Agora, fugiu. Se não tinha nada a temer, por que saiu do país?— desconfia.
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O conservadorismo aparece também no modo como são vistos os papéis de cada membro da família, na oposição a pautas progressistas e no filtro cultural. O operário da construção civil Rodnei Dias, de 40 anos, teve leve resistência a dar entrevista para O GLOBO, mas seguiu. Pai de quatro filhos e frequentador da Igreja do Evangelho Quadrangular, diz ter votado na direita na eleição presidencial pelas pautas de costumes e por propostas de redução de impostos.
— Aqui eu sou o provedor da família e voto no conservadorismo. A gente que tem filho pequeno tenta passar o conhecimento para eles de que o certo é o certo e o errado é o errado. E não é em todo mundo do PL que confio. Esse Douglas Ruas, por exemplo, não sei, não — diz Rodnei.
A professora e pesquisadora Mayra Goulart lembra que apesar de grupos religiosos pentecostais terem, atualmente, hegemonia no apoio a valores da direita, nem sempre os fiéis se orientam de maneira irrefreada pelo que dizem as lideranças.
— As igrejas não necessariamente provocam adesão quase cega dos fiéis aos votos do pastor. Elas são antes de tudo centros de sociabilidade e também se organizam digitalmente: nos grupos circulam informações políticas, opiniões que convergem ou divergem… Nesse momento atual, claro, percebemos mais conteúdos de direita do que de esquerda nesses ambientes digitais, mas isso não significa que caso a esquerda se aproxime desses espaços não possa haver reversão — defende.
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A especialista explica que as pesquisas indicam no entanto que a preservação dos benefícios de políticas sociais, por sua vez, podem mobilizar mais eleitores progressistas. Em agosto de 2026, 1.197 famílias de São José do Vale do Rio Preto receberam o Bolsa Família, com média de R$ 681,69 por família. São 53 famílias para cada mil habitantes, abaixo da média do Rio de Janeiro (80). A realidade é diferente da de Rio das Flores, onde proporcionalmente mais famílias acessam o benefício: 107 famílias por mil habitantes, acima da média do Rio.
— Aposentados, seja por seja por invalidez, seja por tempo de serviço, jovens que ainda não têm atuação profissional e a população economicamente não ativa são próxy de voto no Lula.
Em escolas públicas municipais e estaduais de São José, onde a evasão escolar no ensino médio cresce, o orientador educacional Anselmo Teixeira, de 40 anos, fica atento a como pode ajudar os alunos a manterem o senso crítico ao consumir informações e ao pensar em seus futuros.
— Converso sobre identificar as fontes, desconfiar dos discursos. Muitos jovens repetem o que veem em grupos de WhatsApp sem checar, até porque muitas vezes elas nem compreendem aqueles conteúdos. Isso acontece, por exemplo, quando se fala em Constituição.
São José do Vale do Rio Preto, apesar do nome católico, é a segunda cidade com mais evangélicos no Rio
Marina Calderon

Às margens do mesmo rio, duas cidades com recordes políticos opostos