A investigação da Corregedoria-Geral da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro que levou à prisão de Laércio Isidoro do Nascimento Júnior, de 42 anos, expôs os bastidores de um esquema de fornecimento de drogas do Comando Vermelho que movimentou R$ 70 milhões. A análise do telefone do criminoso, que viveu sob anonimato em Maceió por cerca de dois anos, permitiu aos investigadores entender parte da logística de distribuição dos entorpecentes e identificar traficantes que compravam cargas com ele, entre eles Anderson Santanna da Silva, conhecido como Gão. Em uma das conversas, os dois discutem o adiamento da entrega de uma carga por causa de uma operação policial. Gão afirma que, caso não fosse possível descarregar a droga naquela comunidade, o Comando Vermelho teria outras opções, com 355 comunidades para receber os entorpecentes.
Santos Dumont: bandidos roubam três carros no entorno do aeroporto em menos de 24 horas
Pedra do Sal: segundo moradores, traficantes da Providência fazem ‘segurança’ no local para evitar assalto a turistas
No diálogo obtido pela investigação, Laércio conversa com Gão, apontado como chefe da Favela do Faz Quem Quer, em Rocha Miranda, sobre o adiamento de uma carga que chegaria à comunidade. Ele explica que decidiu não enviar a droga porque a região estava “molhada”, expressão usada para se referir à presença ou à atuação da polícia.
“Paizão, como tava molhado, aí eu não mandei descer não, mano. Não posso mandar descer as coisas e ficar guardado, eu não sei como tá aí, mano”, explica Laércio, em um áudio enviado ao traficante.
Em seguida, Gão afirma que a comunidade costuma ficar sob ação policial por apenas um dia e diz que, mesmo que a operação durasse mais tempo, haveria outros locais para distribuir a carga.
“Aqui fica molhado um dia só, mano. Mas mesmo se aqui fica molhado muitos dias, nós temos várias opções pra botar, mano. Além das minhas duas, nós temos várias que nós podemos entregar. Quando for assim, pode ficar tranquilo. Lugar nós temos, 355 favelas do Comando Vermelho”, afirma.
Áudio revela bastidores da negociação e distribuição de drogas para o Comando Vermelho
Além de Gão, Laércio vendia carregamentos de drogas para outros chefes do Comando Vermelho. Na lista de devedores obtida pela polícia, aparecem nomes como Corolla, que já está preso, Abelha e Doca. Segundo os investigadores, ele fornecia grandes quantidades de entorpecentes de forma financiada, e os traficantes recebiam as cargas e faziam o pagamento posteriormente, em parcelas, conforme acordos estabelecidos com Laércio.
Nas conversas apreendidas pela polícia, o criminoso aparece negociando com lideranças da facção sobre dívidas em aberto e atrasos nos pagamentos. Em outras, orienta traficantes a buscarem as drogas em comunidades onde ele já havia feito as entregas, para evitar transportar grandes quantidades de entorpecentes. Em uma delas, ele conversa com um traficante identificado como “Cavalo” e pede que ele vá até a favela de Gão para buscar a carga.
“Arruma um carro aí pra você retirar no Gão. Nós não é super-homem não, Cavalo, pra ficar transportando com um monte de barato, sair da favela entre o outro. Arruma um carro aí, mano. Cinco horas da tarde pode atravessar a mata, mano. Dá cem real pra alguém aí”, pede ele.
Segundo as investigações, a operação montada por Laércio movimentou cerca de R$ 70 milhões. Para se manter escondido e sustentar uma vida de alto padrão, ele criou sistemas de segurança para dificultar seu rastreamento, falsificou documentos para ocultar sua identidade e recorreu a laranjas para movimentar e esconder o dinheiro obtido com o tráfico de grandes quantidades de drogas.
De acordo com a Polícia Civil, ele ainda planejava expandir os negócios para o Primeiro Comando da Capital (PCC) e passar a fornecer armas para a maior facção criminosa do Rio.
Conhecido como Boyzão ou Boss, Laércio foi preso na semana passada durante uma operação integrada entre as polícias civis do Rio e de Alagoas.
Initial plugin text
Áudio revela bastidores da distribuição de drogas do CV no Rio: 'Lugar nós temos, são 355 favelas do Comando Vermelho', diz traficante; ouça
