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outubro 30, 2026
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Câncer de mama pode mudar a vida sexual; entenda o que acontece após o tratamento

Por · outubro 30, 2026
Câncer de mama pode mudar a vida sexual; entenda o que acontece após o tratamento


O fim do tratamento contra o câncer de mama nem sempre representa o retorno imediato à vida que a mulher tinha antes do diagnóstico. Mesmo depois de superar as etapas mais intensas da doença, muitas pacientes convivem com mudanças que afetam a autoestima, a relação com o próprio corpo e a intimidade. Entre os aspectos que podem ficar em segundo plano durante o enfrentamento do câncer, mas merecem atenção no período seguinte, está a sexualidade, um tema que ainda costuma ser pouco discutido nas consultas.
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Câncer de mama: quais mudanças merecem um olhar mais atento?
As consequências podem aparecer de diferentes maneiras, desde a diminuição do desejo até o desconforto durante as relações. Alterações hormonais, mudanças físicas e questões emocionais podem se somar e interferir na forma como a mulher vivencia a intimidade.
“A sexualidade pode ser afetada por alterações hormonais que provocam ondas de calor, suor noturno, alterações do sono, cansaço, mudanças de humor, secura vaginal, dor durante a relação, redução da lubrificação e dificuldade de excitação, além de mudanças na forma como a mulher percebe o próprio corpo”, explica Sandra Cristina Poerner Scalco, ginecologista da Comissão Nacional Especializada em Sexologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO).
A dimensão desse impacto ajuda a mostrar por que a qualidade de vida após o câncer também precisa fazer parte da conversa sobre o tratamento. De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registra cerca de 74 mil novos casos da doença por ano, que é a mais frequente entre as mulheres no país. No contexto do Outubro Rosa, olhar para o que acontece depois do diagnóstico e das intervenções médicas amplia a discussão para além da prevenção e da detecção precoce.
Um estudo brasileiro publicado em 2026 na revista Scientific Reports também chama atenção para o tema. A pesquisa acompanhou 774 mulheres com câncer de mama sem metástase que recebiam medicamentos para bloquear a ação dos hormônios. Entre as participantes, 346 haviam tido relação sexual nas quatro semanas anteriores à avaliação. Nesse grupo, 79,8% apresentaram algum grau de disfunção sexual, conforme questionário que considerou aspectos como desejo, excitação, lubrificação, orgasmo, satisfação e dor.
O levantamento identificou ainda uma frequência maior de disfunção sexual entre as mulheres que utilizavam inibidores da aromatase, medicamentos que reduzem a produção de estrogênio, em comparação com aquelas que faziam uso de tamoxifeno, que impede a ação desse hormônio sobre as células cancerígenas.
Parte dessas mudanças está relacionada à maneira como os tratamentos interferem no funcionamento do organismo. A quimioterapia, por exemplo, pode afetar a atividade dos ovários e reduzir a produção hormonal, temporária ou permanentemente. Já algumas terapias indicadas para tumores sensíveis aos hormônios bloqueiam a ação do estrogênio ou diminuem sua produção. Em determinadas situações, esse processo provoca uma menopausa induzida, que pode chegar de forma abrupta e trazer sintomas mais intensos.
As intervenções físicas também podem modificar a relação da mulher com o próprio corpo. Cirurgias, reconstruções mamárias e radioterapia podem alterar a aparência e a sensibilidade das mamas, com reflexos na experiência sexual. “Uma paciente pode perder a sensibilidade do mamilo depois de uma reconstrução e só descobrir essa mudança após o tratamento”, conta Dra. Sandra, que também é sexologista.
O desconforto físico, por sua vez, pode desencadear outras dificuldades. “Uma dificuldade pode acabar alimentando a outra: o medo de sentir dor leva à interrupção ou à redução das relações sexuais, o que pode diminuir a excitação e a lubrificação e tornar a experiência sexual ainda mais desconfortável”, explica.
Além disso, os efeitos não necessariamente desaparecem com o encerramento das etapas mais intensas do tratamento. “Esses sintomas não necessariamente desaparecem quando termina o tratamento. Algumas mulheres continuam convivendo com eles por anos e precisam de acompanhamento para recuperar a qualidade de vida”, relata Andrea Pires Souto Damin, ginecologista da Comissão Nacional Especializada em Mastologia da FEBRASGO.
Por que a sexualidade ainda é pouco discutida?
Mesmo quando percebem mudanças no desejo ou sentem dor durante as relações, algumas mulheres têm dificuldade de levar o assunto ao consultório. A preocupação com a doença e com a recuperação pode fazer com que a intimidade pareça uma questão secundária. Vergonha, receio de julgamento e falta de abertura para falar sobre o tema também contribuem para o silêncio.
Para Dra. Andrea, o diálogo com a equipe de saúde é importante para reconhecer dificuldades que nem sempre aparecem espontaneamente durante as consultas. Entre as dúvidas frequentes estão o momento adequado para retomar as relações, a falta de desejo, o desconforto durante o sexo e as mudanças na aparência ou na sensibilidade das mamas após a reconstrução. Também podem surgir perguntas sobre produtos e alternativas para aliviar os sintomas.
A especialista defende que a iniciativa não fique apenas a cargo da paciente. “É preciso que os profissionais perguntem sobre sexualidade, como perguntam sobre dor, sono ou alimentação”, complementa.
O acompanhamento pode envolver diferentes abordagens, de acordo com os sintomas e as necessidades de cada mulher. Entre as possibilidades estão lubrificantes e hidratantes vaginais, fisioterapia do assoalho pélvico, apoio psicológico e terapia sexual. Em situações específicas, outras alternativas podem ser avaliadas individualmente com a equipe responsável pelo tratamento oncológico. As médicas também reforçam que os medicamentos prescritos não devem ser interrompidos por conta própria.
Reconhecer os impactos do câncer de mama na intimidade é parte do cuidado com a mulher para além da doença. A experiência sexual pode se transformar depois do tratamento, mas isso não significa que precise ser abandonada. “É importante dizer para essas mulheres que a vida sexual não acaba. Ela pode mudar depois do tratamento, mas é possível construir uma nova forma de viver a sexualidade”, conclui Dra. Sandra.

Câncer de mama pode mudar a vida sexual; entenda o que acontece após o tratamento