Uma criança fazendo testes de glicose em outras crianças e uma mulher reclamando que a agulha não era trocada. Foi essa a cena que chamou a atenção de um pai no fim da feira de ciências da unidade II do Colégio Tamandaré, no Recreio dos Bandeirantes, no sábado. Após o compartilhamento de lancetas usadas para perfurar os dedos, famílias relatam medo e angústia. Uma mãe conta que o filho de 12 anos repete a pergunta: “Mãe, eu vou morrer?”.
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Até o fim da tarde de domingo, pelo menos 23 pessoas haviam procurado hospitais para tratamento profilático. O Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, confirmou 20 atendimentos, e a escola informou outras três consultas na rede particular. A estudante que levou o kit, de 12 a 13 anos, usou a mesma lanceta em até três pessoas. Quase todos os participantes eram crianças, mas pelo menos um adulto também fez o teste, segundo pais e a instituição.
O pai que alertou a direção do Tamandaré sobre o ocorrido disse que a filha não participou porque teve medo de furar o dedo:
— Minha filha ficou com medo de ser furada e não participou. Cheguei no fim do evento. A primeira coisa que me chamou a atenção era uma criança furando outras crianças. E ainda mais numa época em que há tantos cuidados em relação a equipamentos esterilizados. Ouvi uma senhora reclamando que não trocava a agulha.
A mãe do menino de 12 anos que pergunta se vai morrer afirmou que a família está abalada:
— Estamos abalados, completamente chocados com o que aconteceu. A escola e a mãe da aluna têm responsabilidade. Se um pai não tivesse percebido, nunca saberíamos o que aconteceu. Meu filho a todo minuto me pergunta: “mãe eu vou morrer?” Não dá para acreditar que uma escola desse porte não acompanhe o que cada aluno mostra e oferece.
Adolescente voltou do hospital chorando
Outra mãe, cuja filha precisou procurar atendimento no Lourenço Jorge, contou que, inicialmente, nenhum representante da escola percebeu o que acontecia. Ela registrou um boletim de ocorrência pela internet.
— A mãe da menina (que fez a testagem) estava ao lado dela. É até difícil acreditar que isso aconteceu. Minha filha voltou do Lourenço Jorge chorando, com medo de ter contraído HIV ou outra doença — relatou.
A mãe de um estudante de 13 anos que também foi medicado classificou o episódio como um grande susto e um absurdo. Segundo ela, a responsável pela aluna acompanhou os testes:
— Durante os testes, a mãe da estudante estava presente o tempo inteiro. E foi embora da feira uns 15 minutos antes do encerramento sem falar nada ou dar explicações. Meu filho foi medicado, mas a criança não tem noção dos riscos de usar uma mesma agulha por mais de uma pessoa.
Já a mãe de outra criança de 12 anos afirmou que precisou esperar pela chegada de medicamentos de outra unidade ao Lourenço Jorge. Ela disse ter recebido orientação dos profissionais de saúde e suporte da escola.
— Os profissionais do Lourenço Jorge deram a orientação necessária para dar continuidade ao tratamento. Mas não ter a medicação de imediato em um hospital do porte desse, e ter que trazer de outra unidade, é algo seríssimo. Além disso, até o momento, a escola tem dado orientação e suporte.
A direção do hospital afirmou, em nota, que havia estoque de profilaxia pós-exposição para os atendimentos relacionados ao caso que a unidade permanece abastecida. Segundo o hospital, nenhuma pessoa ficou sem a profilaxia indicada. A Secretaria municipal de Saúde informou que todos os que precisavam de medicação foram atendidos dentro do período de 72 horas preconizado.
Colégio diz que aparelho deveria ser apenas exibido
O vice-diretor-geral do Tamandaré, Antonio Henrique, afirmou que os responsáveis pela estudante haviam sido orientados de que o equipamento deveria apenas ser apresentado na feira, sem testes em pessoas.
Segundo ele, a mãe da aluna tomou como base uma recomendação do fabricante para uso individual que permitiria utilizar a mesma agulha três vezes. O vice-diretor afirmou que havia cerca de 3 mil pessoas no evento, entre alunos e pais, e que, embora as atividades fossem monitoradas, a situação não foi percebida de imediato.
Em comunicado, a escola disse que os procedimentos começaram perto do fim da feira, sem autorização, e que nenhum professor, coordenador ou funcionário os orientou, ou acompanhou. A instituição afirmou que interrompeu a atividade assim que a equipe percebeu o uso do instrumento, recolheu o aparelho e a caixa de lancetas e orientou a responsável pela aluna sobre a gravidade do ocorrido.
Antonio Henrique informou que, até aquele momento, todos os testes haviam dado negativo. Em novo comunicado, o colégio ressaltou que as orientações médicas devem ser cumpridas independentemente dos resultados.
Apoio psicológico e acompanhamento médico
Nesta segunda-feira, das 11h às 14h, uma equipe do Centro Municipal de Saúde Harvey Ribeiro de Souza Filho estará na escola para orientar famílias e identificar participantes que ainda não procuraram atendimento. Não haverá testagem nem administração de medicamentos no local.
O colégio orientou quem teve o dedo furado a procurar uma unidade de saúde imediatamente, sem esperar pela visita. Também anunciou atendimentos com a infectologista pediátrica Patrícia Guttman, mediante agendamento, na quinta-feira, dia 17, a partir das 14h30.
A psicóloga da instituição está disponível para atendimentos presenciais ou por vídeo. Os agendamentos podem ser feitos pelo telefone (21) 3392-5120 ou pelo e-mail direcao.recreioii@tamandare.com.
A médica sanitarista e professora da UFRJ Lígia Bahia classificou o episódio como um completo absurdo e atribuiu a responsabilidade à escola.
— Em 45 anos de profissão, nunca soube de um caso assim. No ensino fundamental, o que se aprende em ciências são métodos de pesquisa, teoria. Isso vale tanto para pesquisas com animais quanto para seres humanos. Nunca experimentos práticos.
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‘Criança furando criança’: pais relatam desespero após testes em escola no Recreio
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