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outubro 17, 2026
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Crítica: Reunião de contos de Luís Pimentel traz cotidiano das ruas do Rio costurado pela brutalidade

Por · outubro 17, 2026
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Costurados pela brutalidade, os contos de “Queima o velho!”, livro de Luís Pimentel, reúnem personagens diversos que veem suas vidas naufragarem por razões desumanas. O ônibus que segue viagem depois de um assassinato, o idoso que decide ir para a casa de repouso a fim de não dar trabalho aos filhos, as relações familiares travadas por situações-limite, o encontro com o assassino do pai: tudo isso revela episódios movidos por tensões do cotidiano, que podem acontecer na próxima esquina ou em um cômodo da própria casa.
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A antítese presente no título do poema utilizado como epígrafe da obra, “O cortejo do velho novo”, de Bertolt Brecht, desperta nosso olhar para o entrelaçamento das palavras opostas. Saudar o novo, muitas vezes, é uma estratégia deturpada para manter estruturas ultrapassadas. A narrativa homônima ao título do livro trabalha essa ideia a partir da reflexão crítica provocada pelo enredo, afinal o fato de um grupo de rapazes queimar um idoso depois de vê-lo deitado na rua enrolado em um cobertor traduz o perigo de discursos e práticas autoritários.
A crueldade é o elemento que estabelece a coesão temática do livro. Os contos “Na janela”, “Neblina”, “O batente” e “Mãe é mãe” merecem destaque, por abordarem respectivamente, em uma linguagem que combina concisão e profundidade, o impacto da solidão na velhice, a dúvida sobre o ato de vingança, a permanência da rotina após uma briga fatal e a decisão de um homem de não comparecer ao enterro da mãe. Essa concisão, certeira em determinadas narrativas por sua expressividade literária, em outras não alcança o mesmo efeito. Contos como “Bina” e “Café fraco” geram a sensação de que alguns instantes, ou mesmo personagens, poderiam ser mais bem explorados no texto.
O escritor e jornalista Luís Pimentel
Divulgação
Em “Mãe é mãe”, vale registrar a imagem a respeito do momento em que o filho, funcionário de um açougue, revisita a própria história assim que recebe, no trabalho, a notícia da morte de sua mãe: “O silêncio ficou ali, vermelho, sangrando entre as carnes penduradas.” A cor quente, presente também na capa do livro, faz referência às chamas que queimam um corpo, ao sangue que reveste dores silenciadas, à arma de fogo apontada para a barriga de uma mulher grávida.
O som da rua
Como na vida urbana, na obra a violência surge em geral de modo inesperado, enquanto observamos o cenário carioca através de lentes que focalizam detalhes alheios aos cartões-postais da cidade. Passando pelo banco de madeira na porta da farmácia, pelo balcão da padaria, pela pizzaria da esquina e pelo sacolão, Magrelinha, protagonista do primeiro conto do livro, orienta nossa andança pelas ruas, fato que aguça também nossos ouvidos, atentos aos bate-papos e burburinhos nas calçadas.
Nesse passeio, somos mais do que espectadores de uma cidade em movimento, na medida em que, captado pela trama, o leitor passa a ser personagem, passageiro do ônibus onde Magrelinha entra depois de ganhar um sanduíche da moça da loja de sucos. O barulho do motor do veículo, o anúncio do assalto e a discussão dos personagens são outros sons de uma cidade partida — para citar Zuenir Ventura —, barulhos que por vezes desencadeiam também a ausência de voz.
Capa de ‘Queima o velho!’
Divulgação
Os contos de “Queima o velho!” abordam esse jogo entre som e silêncio de modo tão profícuo que a música se soma às narrativas, seja nas diferentes letras mencionadas em “Na janela”, seja nas epígrafes de João Bosco e Aldir Blanc, em “A crooner do Norte” e “Nego doido”, e de Wilson Batista, em “Neblina”. Ao citar compositores que fazem de suas músicas crônicas da cidade, Luís Pimentel situa as narrativas em bairros como Lapa e Estácio de Sá e evoca fatores como a malandragem e o samba, além de homenagear a vida de quem percorre o Rio e compõe o rancho da goiabada blanquiano.
Entranhadas no cotidiano, as 24 ficções curtas revelam o espanto que ronda a contemporaneidade, com relações de poder capazes de tratar uma tragédia como um acontecimento banal ou de enxergar na dor do outro o próprio riso. Nesse contexto, a literatura inverte a lógica excludente e joga luz ao que na rotina urbana costuma ser invisibilizado. Quando o livro se fecha, seus ruídos seguem provocando incômodos em quem andou por aquelas páginas.
Thaís Velloso é autora de “Teias no céu” (Patuá, 2026), professora e doutora em Literatura Brasileira pela UFRJ
Novos livros
‘Memórias sintetizadas’
Autor: Mu Carvalho. Editora: Memorabilia. Páginas: 256. Preço: R$ 95.
Compositor, pianista, tecladista, arranjador e produtor musical, Mu Carvalho tem em seu currículo muitos LPs gravados, além da produção e criação de trilhas sonoras para novelas, séries e filmes. Fundador do grupo A Cor do Som, com quem gravou 14 discos, o artista lança sua autobiografia no próximo dia 26, a partir de 18h30, na Livraria Argumento (Rua Dias Ferreira 417, no Leblon).
‘Em sintonia com o sucesso’
Autor: Jorge Davidson. Editora: Gryphus. Páginas: 380. Preço: R$ 105.
Ao longo de três décadas, o autor lançou grandes estrelas da música brasileira, como Blitz, Os Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Fernanda Abreu, Skank, Chico Science & Nação Zumbi e Planet Hemp/D2, entre muitos outros. Agora, conta histórias dessa trajetória vitoriosa neste livro, que será lançado na terça-feira, a partir das 19h, na Livraria Argumento (Rua Dias Ferreira 417, no Leblon).
‘Vanguarda em construção’
Autor: Sérgio Martins. Tradução: Célia Euvaldo. Editora: Cosac. Páginas: 312. Preço: R$ 139.
Publicado originalmente em inglês pela MIT Press, o livro do crítico e historiador da arte Sérgio Martins, que ganha edição em português pela Cosac, propõe uma revisão da forma como a produção artística nacional é compreendida no cenário global, a partir de conceitos como o “não-objeto” e “construtividade”. O lançamento será na próxima sexta-feira, às 19h, na Travessa de Ipanema (Rua Visconde de Pirajá 572).
‘Mulher de prazer’
Autora: Kiyoko Murata. Editora: Estação Liberdade. Páginas: 320. Preço: R$ 88.
Vencedora do Prêmio Akutagawa, a autora desfia múltiplas camadas da condição feminina em uma sociedade que naturalizava a exploração sexual de adolescentes. A trama acompanha uma jovem japonesa vendida pelos pais a um bordel de prestígio. Sem cair na armadilha do melodrama, Kyoko Murata consegue celebrar a capacidade humana de preservar a dignidade, criar vínculos e transformar a dor em força.
‘Abichedário’
Autora: Antonio Carlos Secchin. Tradução: Andrea Ebert. Editora: Rocquinho. Páginas: 48. Preço: R$ 69,90.
Poeta e membro da Academia Brasileira de Letras, Antonio Carlos Secchin transforma, em “Abichedário”, as 26 letras do alfabeto em um divertido zoológico. Em versos cheios de rimas, trocadilhos e humor, o autor lida com uma pergunta interessante: é possível apresentar o alfabeto para uma criança sem tirar a graça das palavras? Para Secchin, a resposta passa pela poesia, pelo humor e pela brincadeira.

Crítica: Reunião de contos de Luís Pimentel traz cotidiano das ruas do Rio costurado pela brutalidade