Uma semana depois de embalar a comemoração dos brasileiros que reelegeram Lula, o “olê, olê, olê, olá” apareceu num lugar menos previsível: o encerramento do GP do México de Fórmula 1. Para quem acompanhava a transmissão no Brasil, ouvir o nome do presidente enquanto o público ocupava a pista do Autódromo Hermanos Rodríguez foi uma surpresa. Para a melodia, porém, aquela era uma volta a um endereço conhecido. Quarenta anos antes, o México já havia ajudado a espalhar pelo mundo o canto que saiu de uma festa de título na Bélgica, passou pelas arquibancadas e encontrou uma segunda carreira nos comícios brasileiros.
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O momento deu à cena uma repercussão que dificilmente teria em outro domingo. Lula acabara de conquistar seu quarto mandato, depois de um segundo turno acirrado contra Flávio Bolsonaro, e o refrão ainda estava fresco na memória de quem o cantara nas ruas ou acompanhara as celebrações da vitória. Presente no repertório de seus apoiadores desde a primeira das sete disputas presidenciais, em 1989, a música atravessou derrotas, vitórias e gerações de eleitores até ganhar novo fôlego na campanha de 2026. Ouvi-la do outro lado do continente, entre carros de corrida e a preparação de um pódio, fez muita gente aumentar o volume para conferir.
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Quando essa história começou, o homenageado vestia roxo e branco. Em 1985, o Anderlecht conquistou seu 18º título belga e ganhou uma canção na voz de Grand Jojo, nome artístico de Jules Jean Vanobbergen. “Anderlecht Champion” teve direito a uma gravação com jogadores do elenco, entre eles Enzo Scifo, Morten Olsen e Franky Vercauteren, além do técnico Paul Van Himst. O incentivo vinha em francês, com “allez”, algo como “vamos”, numa melodia feita para pegar depressa e ser cantada por muita gente.
Segundo a história contada pelo próprio clube, a inspiração para o ritmo veio do barulho da máquina de lavar do cantor. Daquela contribuição doméstica nasceu uma festa que logo ficaria grande demais para um campeonato nacional: quando a seleção belga foi disputar a Copa de 1986, Grand Jojo adaptou a composição, trocou o “allez” por “olé” e lançou “E Viva Mexico”.
Apesar do título, a nova gravação era uma canção belga para apoiar os Diabos Vermelhos, não uma música mexicana nem o tema oficial do Mundial. Os versos, principalmente em francês, anunciavam uma equipe confiante, pronta para fazer gols e dar trabalho aos adversários. No refrão, o “olé” era acompanhado da afirmação, em inglês, de que eram os campeões. A Bélgica chegou à semifinal, e o canto encontrou torcedores dispostos a adotá-lo muito além das fronteiras do país.
Seleção da Bélgica na Copa de 1986
Arquivo/Fifa
No Brasil, a passagem para a política deixou um registro saboroso, com uma escala nas arquibancadas do Flamengo. Em entrevista concedida em 23 de fevereiro de 1990, depois da derrota para Fernando Collor, Lula foi convidado a recordar o melhor momento da campanha. Lembrou então uma manifestação no Rio, ainda no primeiro turno, em que o público começou a cantar o refrão. Na conversa, posteriormente reproduzida pela revista Perseu, da Fundação Perseu Abramo, o jornalista Breno Altman observou: “É o grito de guerra da torcida do Flamengo”. Aloizio Mercadante atribuiu a manifestação a uma iniciativa espontânea do público.
O depoimento não identifica o autor da adaptação brasileira nem reconstitui cada parada entre a gravação de Grand Jojo e os palanques de 1989, mas mostra como o canto já circulava entre futebol e política quando ganhou o nome de Lula. A estrutura simples, que permite trocar o homenageado sem perder a familiaridade, ajudou a transformá-lo numa espécie de patrimônio portátil das multidões.
Momento histórico. Em 1989, o apoio a Lula no segundo turno Agência O Globo / 13/12/1989
Agência O Globo
Na volta ao México, a escolha musical ficou a cargo do Disclosure, projeto dos DJs e irmãos Guy e Howard Lawrence, anunciado como atração do encerramento do GP. Os músicos são britânicos, de Surrey, na Inglaterra. Há um registro de apoio à esquerda em sua trajetória: em 2017, a revista Pitchfork incluiu o Disclosure entre os artistas que se posicionaram a favor de Jeremy Corbyn, então líder do Partido Trabalhista, na eleição britânica.
Não foi localizada, porém, uma declaração pública de apoio dos músicos a Lula, e tampouco está esclarecido se conheciam o significado da versão brasileira ou a passagem da melodia pela Copa de 1986. O caminho que levou a gravação à seleção musical do GP ainda tem, portanto, uma pergunta em aberto. Já a viagem do refrão oferece uma coincidência difícil de melhorar: depois de celebrar um clube belga e embalar comícios brasileiros, ele voltou ao México quarenta anos mais tarde, com outro homenageado e diante de uma torcida que esperava a premiação de Kimi Antonelli, o mais novo campeão mundial.
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