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De 'Tubarão' a 'Harry Potter': como trilhas de cinema estão mudando as audições de músicos de orquestra

Por · outubro 30, 2026
De 'Tubarão' a 'Harry Potter': como trilhas de cinema estão mudando as audições de músicos de orquestra


O tema principal de “Tubarão” é imediatamente reconhecível, mas não é tão difícil assim de tocar. Para os contrabaixistas, o verdadeiro teste de habilidade na trilha composta por John Williams para o filme é um trecho chamado “The Shark Cage Fugue”, que aparece no clímax da história. A passagem começa com uma melodia leve e cheia de nuances rítmicas — nada fácil de executar em um instrumento de sonoridade tão grave.
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No ano passado, Michael Banks, contrabaixista hoje com 25 anos, tocou um trecho de 30 segundos dessa fuga de ritmo marcado durante sua audição para a Orquestra Sinfônica de Pittsburgh. A apresentação incluiu também peças do repertório clássico tradicional, como obras de Gustav Mahler e Wolfgang Amadeus Mozart. Banks acabou conquistando a vaga de contrabaixista assistente de primeiro solista, cargo com salário de seis dígitos e estabilidade profissional após o cumprimento de um período probatório.
A Sinfônica de Pittsburgh talvez toque mais Ludwig van Beethoven do que John Williams, mas um erro grave em “Tubarão” ainda poderia ter custado o emprego a Banks. A passagem foi uma parte decisiva do processo seletivo.
As audições para orquestras, assim como os testes de programação para engenheiros de software ou as avaliações em simuladores para pilotos de avião, pretendem medir o desempenho de maneira meritocrática. Mas, ao contrário do que ocorre nessas outras áreas, a audição não é apenas uma etapa de um processo seletivo mais amplo: é o processo inteiro. A contratação se baseia quase exclusivamente nela.
Nas orquestras profissionais, as audições costumam ter várias etapas. Elas incluem peças do repertório solo, como concertos e sonatas, além de uma dúzia ou mais de pequenos trechos musicais. Os integrantes da orquestra e, às vezes, o diretor musical escolhem as passagens para avaliar habilidades técnicas, como precisão rítmica ou controle das notas agudas. Os trechos variam de acordo com o instrumento.
Alguns são recorrentes. Para os trombonistas, a vibrante “Cavalgada das Valquírias”, de Richard Wagner, aparece com frequência. Para os harpistas, um dos trechos mais tradicionais é o solo cintilante da “Valsa das Flores”, de “O Quebra-Nozes”, de Piotr Ilitch Tchaikovsky.
As orquestras têm ampliado a programação tanto de trilhas sonoras populares quanto de obras de compositores clássicos contemporâneos, e as audições estão acompanhando essa mudança. Cada vez mais, essas peças aparecem nas listas de trechos exigidos. Hoje, 30 segundos de música de “Star Wars” ou “Harry Potter” podem determinar se um músico conseguirá ou não uma vaga.
Michael Banks, que conquistou sua vaga na Orquestra Sinfônica de Pittsburgh em uma audição na qual tocou não apenas obras clássicas, mas também músicas de “Tubarão” e uma composição contemporânea de Jessie Montgomery, no Heinz Hall, em Pittsburgh, em 7 de outubro de 2026
Ross Mantle / The New York Times
Banks faltou às aulas na prestigiada Colburn School, em Los Angeles, para viajar de avião até a Pensilvânia e participar da audição, realizada na sede da orquestra, o Heinz Hall. Ele e outros 53 candidatos sortearam números de um chapéu. Quando chegou sua vez, Banks entrou no palco, caminhando sobre um tapete que abafava o som dos sapatos e tocando atrás de um biombo que ocultava sua identidade. A maioria das audições para orquestras é feita às cegas, para reduzir vieses na avaliação.
A primeira etapa durou cerca de seis minutos. Banks executou cinco trechos, encerrando com “The Shark Cage Fugue”, parte de uma suíte orquestral de “Tubarão” que hoje é frequentemente programada. Segundo ele, a passagem provoca nervosismo por causa de uma “mudança desconfortável de corda” entre a primeira e a segunda nota.
Ele avançou para a semifinal e, depois, para a etapa final, marcada para seis semanas mais tarde, com a presença do diretor musical da orquestra, Manfred Honeck. Nessa última fase, Banks tocou obras de Joseph Haydn e Mahler. Repetiu algumas vezes a peça de Mahler para incorporar as observações da banca avaliadora. Também executou um trecho de “Coincident Dances”, obra contemporânea de Jessie Montgomery que exige saltos difíceis entre notas muito distantes e tem “uma qualidade realmente livre”, nas palavras do músico.
Pouco depois, Banks foi conduzido à Suíte do Maestro, onde Honeck o parabenizou. Ele se lembra daquele momento como uma espécie de “sonho febril, meio nebuloso”. Ingressou na orquestra em maio de 2025 e, desde então, tocou uma variedade de obras clássicas, peças de compositores vivos e trilhas sonoras de filmes — incluindo algumas das mesmas músicas que havia preparado para a audição.
Os músicos começam a estudar para uma audição assim que a lista de obras exigidas é divulgada, mas a preparação de verdade começa anos antes. Instrumentistas dedicados costumam aprender alguns dos trechos mais tradicionais ainda no ensino médio. Depois, passam os anos de faculdade estudando-os exaustivamente, aprendendo a executá-los em estilos diferentes de acordo com a orquestra para a qual pretendem fazer a audição. Cada conjunto interpreta essas peças consagradas com uma sonoridade e uma abordagem ligeiramente diferentes.
É um pouco como adaptar uma carta de apresentação a uma empresa específica: um trabalho prévio, como estudar e imitar as gravações de determinada orquestra, pode ajudar a impressionar a banca examinadora.
A violinista Laura Colgate contou que, no segundo ano de estudos no Conservatório de Música da Nova Inglaterra, em Boston, já conhecia os trechos exigidos “de trás para a frente e de olhos fechados”. Ela conquistou a vaga de spalla — a primeira violinista e líder dos violinos — da National Philharmonic e é cofundadora da Boulanger Initiative, organização de defesa e promoção de compositoras e compositores de grupos sub-representados em razão de gênero. A entidade leva o nome das irmãs francesas Nadia e Lili Boulanger.
Um dos projetos da Boulanger Initiative se chama Redefining the Canon (Redefinindo o Cânone). A iniciativa trabalha com orquestras para incluir, nas listas de audição, trechos de obras de compositores sub-representados. Voluntários atuam como “garimpeiros de trechos”, procurando passagens que possam ser usadas nas avaliações. Entre os compositores contemplados está Jennifer Higdon, vencedora do Prêmio Pulitzer, que percebeu um aumento expressivo nas solicitações desse tipo há cerca de cinco ou seis anos.
“Não me ocorreu que isso pudesse acontecer, porque, quando eu estava aprendendo esses trechos, o repertório tradicional era todo de obras mais antigas”, disse Higdon, que se formou como flautista. Ela e Montgomery afirmaram que consideram um elogio ver suas músicas usadas em audições. As duas geralmente autorizam as orquestras a utilizar suas obras nesses processos seletivos sem cobrar nada. Outros compositores às vezes cobram uma taxa simbólica. Uma vantagem de usar músicas antigas é que elas não estão mais protegidas por direitos autorais.
Como há menos tradição em torno dos trechos mais recentes, é preciso “ouvir muito” para conhecer o estilo de escrita de cada compositor, explicou Alex Carroll, contrabaixista e bolsista do Instituto de Música de Cleveland. Ele compartilhou a apreensão de Banks em relação a “Coincident Dances”, de Montgomery. O desafio, segundo Carroll, é descobrir como “fazer a música soar exatamente como o compositor pretendia”, de uma maneira que “faça sentido no ambiente da audição”.
Isso pode ser difícil, sobretudo quando os próprios compositores mudam de ideia. Montgomery editou o solo de contrabaixo de “Coincident Dances” depois de ouvi-lo “nas primeiras apresentações”, contou. As versões original e revisada agora circulam nas audições: Carroll estudou a versão original para uma seleção em Milwaukee, enquanto Banks tocou a versão editada em Pittsburgh.
“Em uma audição, escolha uma versão e toque-a com convicção”, aconselhou Montgomery. “Neste caso, o compositor dá essa liberdade.”
‘John Williams é simplesmente difícil’
Estudar trechos de trilhas sonoras de filmes também tem seus desafios. Caitlin Mehrtens, harpista principal da Ópera de Houston, começou a preparar “Fluffy’s Harp”, uma suave canção de ninar da trilha de John Williams para “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, meses antes de uma audição para a Sinfônica de Detroit. Os harpistas alteram a altura das notas por meio de pedais que modificam a afinação das cordas. Como acontece com o órgão, o trabalho dos pés é complexo e precisa ser cuidadosamente planejado com antecedência.
“John Williams é simplesmente difícil”, disse Mehrtens. “‘Fluffy’ não é rápida, mas tem algumas notas repetidas estranhas que são muito difíceis, e exige muito trabalho com os pedais.”
Embora seu cargo principal seja em uma companhia de ópera, Mehrtens costuma substituir músicos na Sinfônica de Houston, inclusive em algumas apresentações com ingressos esgotados dedicadas a trilhas sonoras de filmes. Segundo ela, são esses concertos que “garantem o dinheiro das orquestras”.
“Precisamos garantir”, acrescentou, “que esse tipo de repertório também seja importante para quem está fazendo a audição, além das peças tradicionais”.
A mudança nos trechos exigidos também tem um significado simbólico. As orquestras vêm fazendo um esforço considerável para tocar obras que vão além do cânone tradicional, ampliando a programação para incluir compositores vivos e grupos historicamente sub-representados — em parte por uma questão de compromisso moral, em parte na esperança de conquistar novas plateias. Colocar os trechos mais recentes ao lado dos clássicos “transmite a ideia de que essas peças merecem ser usadas como obras de avaliação”, disse Mehrtens.
Faculdades e conservatórios também estão acompanhando essa transformação. As instituições incluíram músicas mais recentes em seus currículos, e muitas escolas agora pedem que candidatos apresentem, em seus processos seletivos, uma peça de um compositor sub-representado.
Isso não significa que todas as orquestras estejam atualizando suas listas. Muitas ainda não o fazem. Banks disse que continua encontrando a mentalidade “à moda antiga”, segundo a qual, se “um músico consegue tocar os grandes mestres, se consegue tocar Strauss, Mahler e Beethoven, provavelmente também consegue tocar ‘Star Wars’”.
Também não há consenso de que a execução de trechos seja uma forma precisa de avaliar as habilidades necessárias para o trabalho. Colgate, spalla da National Philharmonic, considera esses testes “bastante arcaicos e irrelevantes para o que você realmente acaba fazendo no emprego”, porque as habilidades necessárias para executar um trecho não são as mesmas exigidas para tocar em conjunto com outros músicos. É por isso que algumas orquestras incluem um período de experiência tocando com o grupo depois da audição, antes de oferecer formalmente o cargo ao vencedor.
Ainda assim, ninguém encontrou uma solução melhor do que as audições com trechos orquestrais — que estão se diversificando para refletir a variedade de músicas abraçadas pelas orquestras americanas. Depois de um ano no cargo, Banks chegou à conclusão de que, se trilhas sonoras de filmes e músicas novas “fazem parte da descrição do trabalho, então devem ser avaliadas no processo de contratação”.

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