
Ninguém diz melhor do que Roberto Carlos sobre esses dias de risos e lágrimas que vivemos: são tantas emoções… Tantos sentimentos misturados, ódio, amor, nobreza, baixeza, orgulho, vergonha, coragem, covardia, esperança, descrença de ser brasileiro nesse momento da nossa História.
Muitas vezes, desde a ditadura, amaldiçoei a sina de ser brasileiro, mas algumas vezes, como agora, é um privilégio viver esse momento de grandiosa vitória popular, movida pelos melhores sentimentos. Depois de passarmos pela beira do abismo de uma derrota que parecia inevitável, veio a surpresa que valoriza e engrandece a vitória inesperada. Não fomos só testemunhas, mas protagonistas desse movimento que emocionou o mundo e orgulhou o Brasil.
Muita emoção e orgulho de fazer parte dos 70+ que, enfrentando todas as dificuldades, foram decisivos para a virada vitoriosa, nós não votamos para nós, mas para nossos filhos e netos. Ao mesmo tempo foram os mais jovens e rebeldes que puseram o bloco na rua, iniciando e multiplicando manifestações monumentais em todo o Brasil, que também foram decisivas. A vitória de Lula foi uma derrota do etarismo e do preconceito contra os velhos.
O humor também foi muito importante, os melhores humoristas, Fábio Porchat, Marcelo Adnet, Rafael Saraiva e outros, todos os humoristas contra o bolsonarismo, ou não seriam humoristas. Claro, não há humoristas de direita. Não há humor fascista. Nem humor bolsonarista, a não ser os involuntários. Eles contribuíram muito, pelo riso, pelo ridículo, pelo grotesco, para desmascarar e desmoralizar os adversários e alegrar as tropas.
Não foram só os humoristas profissionais que contribuíram, também brilharam os anônimos que criaram milhares de memes que ridicularizaram o bolsonarismo com piadas e deboches que faziam milhões gargalharem nas redes sociais, entre eles milhões de eleitores indecisos. O humor é arma mortal, machuca mais que um soco: nada resiste ao ridículo público. O New York Times publicou os nossos dez melhores memes e exaltou o humor brasileiro. É verdade, um talento nosso, sem ele não seríamos brasileiros.
Ao mesmo tempo, é cada vez mais clara a separação entre uma direita legítima e democrática de um bolsonarismo selvagem que não respeita a Constituição: queria mudá-la, mas foi atropelado pela vontade popular. Para a direita, a fuga de Flávio é vergonhosa, mostra sua incapacidade de liderar, mas para os bolsonaristas é heroica. Não é provável que a direita brasileira se sujeite ao comando de Flávio em Miami. Novas lideranças de direita, conservadoras mas não bolsonaristas, estão surgindo e vão ser importantes nos debates democráticos no Congresso, isolando o bolsonarismo, que cada vez parece mais uma seita do que um movimento político.
Muita gente votou em Lula a contragosto, para evitar o pesadelo de uma vitória bolsonarista. Com Jair preso, Eduardo e Flávio fugitivos, restam Carlos e Michelle no Senado e o garboso Jair Renan na Câmara. Parece pouco para a seita sobreviver.