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outubro 4, 2026
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Eduardo Paes busca neutralizar erros do passado após derrota traumática para a direita há oito anos

Por · outubro 4, 2026
Eduardo Paes busca neutralizar erros do passado após derrota traumática para a direita há oito anos


Pouco depois de finalizar uma carreata com o presidente Lula em São Gonçalo, segundo maior colégio eleitoral do Rio, Eduardo Paes se posicionou para falar com a imprensa entre duas aliadas. De um lado, Benedita da Silva, a petista que concorre ao Senado na aliança do candidato ao governo pelo PSD; do outro, a vice Jane Reis, do MDB, que apoia Flávio Bolsonaro na eleição presidencial.
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— Todo mundo sabe que meu apoio é ao presidente Lula. Não sou do PT, mas tenho a honra de andar com figuras como a Benedita. E Jane Reis, minha vice, é de uma família que tem ligações históricas com Bolsonaro — equilibrou-se o ex-prefeito, que nada postou nas redes sociais sobre o ato com o presidenciável. — O presidente Lula entende isso.
O escasso envolvimento na eleição nacional, com doses controladas de vinculação a Lula, é um dos traços de uma candidatura que desde a saída de Paes da prefeitura, em março, buscou amarrar todas as pontas e não dar chance ao azar. Trata-se de um sintoma da ferida não cicatrizada de 2018, quando era favorito e acabou tomando um caixote da onda bolsonarista que impulsionou Wilson Witzel.
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Até hoje, no dia do voto, o empenho em tentar o ambiente perfeito tem um capítulo em andamento. Paes espera que os votos de Anthony Garotinho (Republicanos) sejam anulados, o que facilitaria uma vitória no primeiro turno — a campanha do PSD é autora de uma das ações na Justiça Eleitoral contra o ex-governador, que carrega uma condenação por improbidade administrativa.
Num ano em que o Rio viu a Justiça sentar na cadeira do Palácio Guanabara com o desembargador Ricardo Couto, a apuração dos votos dificilmente será o ponto final, que vai depender do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Driblando o fuso
Do Japão, onde passou férias logo após transmitir o cargo a Eduardo Cavaliere, o ex-prefeito fez questão de se envolver na sucessão de Cláudio Castro, que estava sem vice e foi condenado pelo TSE no dia seguinte à renúncia. Ao fazê-lo, o grupo de políticos e advogados ligados a Paes conseguiu deixar o PL sem a máquina estadual. Na visão de aliados, as decisões favoráveis de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) contra as manobras de Castro e companhia permitiram que a eleição acontecesse “em pé de igualdade”.
Foram semanas agitadas. Ainda fora do país, o agora candidato lidou com o fuso horário adverso para manter contato com seu núcleo duro e formular a estratégia de atuação, que envolveu conversas durante a madrugada japonesa. As primeiras publicações sobre o tema nas redes sociais de Paes seguiam a linha de defender eleições diretas para o cargo de governador-tampão, tese sustentada pelo PSD em ações na Corte. Ele próprio se mostrava disposto a encarar a disputa caso houvesse.
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O Supremo, no entanto, criou uma configuração ainda mais favorável ao que Paes pretendia. Sem resolver de fato, acabou decidindo pela permanência do presidente do Tribunal de Justiça, já que o julgamento ainda não foi finalizado. Outro entendimento do STF impediu o então futuro adversário Douglas Ruas (PL), quando eleito presidente da Assembleia Legislativa, de assumir como governador interino. A intenção do partido de Castro e Flávio Bolsonaro era que ele estivesse na cadeira para se tornar conhecido antes da campanha.
Na última quinta-feira, instado a analisar se foi beneficiado pela “neutralização” da máquina estadual, Paes reconheceu que sim, mas sem deixar de associar os acontecimentos às irregularidades praticadas pelo grupo político que comandava o estado, do qual Ruas fazia parte como secretário de Cidades.
— Eles roubaram e entregaram tanto o estado à criminalidade, que quem se coloca como oposição sai em uma posição de vantagem — disse.
Mesmo nesse terreno fértil, Paes chega ao dia do voto em risco. Ganhar no primeiro turno, avaliam aliados, é mais fácil que conseguir a vitória no eventual segundo turno contra Ruas. O embate direto entre os dois suscitaria uma maior nacionalização do jogo, algo que o ex-prefeito evita de forma recalcitrante.
— Por que eu não fico com o papo deles de Bolsonaro, de Lula? Porque aqui tem um governador que quer tratar deste lugar aqui, deste mapa — alegou no debate da TV Globo.
São tempos bem diferentes daqueles em que o antigo grupo político de Paes, capitaneado pelo ex-governador Sérgio Cabral, podia se regozijar com o apoio de Lula, à época um presidente de votações superlativas no Rio. O que o candidato do PSD encontra agora é um estado em que o bolsonarismo fincou força e no qual o petista, apesar de ter reduzido um pouco o prejuízo, está longe de recuperar o espaço perdido a partir de 2018.
Se for eleito governador na noite de hoje, a tendência é que o ex-prefeito quebre um padrão histórico, já que Lula dificilmente terá mais votos que Flávio Bolsonaro em solo fluminense. Todos os vencedores para o Palácio Guanabara na Nova República estavam coligados com o presidenciável que mais conseguiu sufrágios no estado.
Outra característica inédita da eventual vitória residiria no fato de o prefeito da capital virar governador após deixar o mandato no meio para encarar a disputa. Nenhum sequer tentou. O único ex-mandatário do município que comandou depois o Executivo estadual foi Marcello Alencar, que completou o mandato antes de entrar na eleição de 1994.
O processo de transformar Paes, um político tão carioca, em alguém simpático a valores do resto do estado foi trabalhado na pré-campanha. Neste ente que há pouco completou 50 anos em seu formato atual, com a fusão dos antigos estados do Rio e da Guanabara, a troca do chapéu panamá pelo de caubói nas andanças no interior foi o símbolo maior da tentativa de expansão do ex-prefeito. Nas visitas aos 92 municípios, deixou-se filmar até tirando leite de vaca.
Durante o período eleitoral, o candidato do PSD ficou mais tempo na Região Metropolitana, sobretudo na Baixada Fluminense, e pouco repetiu o processo de interiorização empreendido nos meses anteriores. Ficaram para trás as cavalgadas e ganharam protagonismo as carreatas por locais de alto adensamento populacional. O Grande Rio, afinal, concentra mais de 70% do eleitorado.
Foi na Baixada que Paes buscou a vice Jane, irmã do presidente estadual do MDB e ex-prefeito de Duque de Caxias, Washington Reis. Também conseguiu o apoio informal, fora da coligação, de quadros do PP que comandam Nova Iguaçu, o segundo mais populoso da região, e de dez dos 13 prefeitos de lá.
Campanha de ataques
Se na Baixada o clima é amigável, de São Gonçalo, na Região Metropolitana, saiu Douglas Ruas, o principal adversário e alvo de grande parte da retórica de Paes na campanha. Chamado, entre outras coisas, de “príncipe herdeiro de Cláudio Castro”, o filho do prefeito Capitão Nelson era visto há muito tempo como um nome competitivo. Por isso, Paes buscou miná-lo em diferentes frentes.
Além de não ter conseguido sentar na cadeira de governador, Ruas viu o favoritismo de Paes antes da campanha atrair partidos e prefeitos atentos à famosa perspectiva de poder. Com uma coligação robusta, o político do PSD isolou o PL, que precisou formar uma chapa puro-sangue e contar com menos tempo de propaganda eleitoral. Um dos maiores baques que conseguiu impor foi a neutralidade da federação PP-União, que até julho tinha acordo para ocupar a vice de Ruas.
Do ponto de vista narrativo, a artilharia de Paes reforçou sempre que possível a parceria entre Ruas e figuras como Castro e o ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar, hoje preso. Também compartilhou diversas reportagens que escrutinaram a vida política e empresarial do candidato do PL.
Alguns aliados avaliam que os rumos da campanha, muito focada em ataques, poderiam ser outros, com mais destaque à trajetória e à capacidade administrativa do único político eleito quatro vezes na capital. Em muitos momentos, ele soou como um candidato de fora do sistema, sempre a fim de se apresentar como a mudança frente ao que chama de “grupo político que comanda o estado há oito anos”.
Depois da derrota surpreendente para Witzel, o ex-prefeito foi obrigado a voltar à estaca municipal dali a dois anos, em 2020. É por saber que um novo revés representaria um abalo ainda maior, com impacto talvez irreversível em suas pretensões, que Paes costurou para que nada desse errado nesta campanha. Ele pode até dizer que o histórico à frente da prefeitura já o torna “o homem mais feliz do mundo”, mas quem o conhece sabe que os planos do carioca de 56 anos, nas mais de três décadas de política, jamais se limitaram à capital e ao estado.
Cobertura do 1º turno
Para facilitar e enriquecer a cobertura da apuração das eleições 2026, neste domingo (4), a partir das 17h, o GLOBO desenvolveu um ambiente especial com um menu que contempla os cinco cargos em disputa (presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual) e pode ser acessado pelo site e pelo aplicativo do jornal.
No mapa, o leitor vê quem está liderando, quem foi eleito ou quem irá para o segundo turno em cada um dos 26 estados, no Distrito federal e nos 5.569 municípios. Também é possível conferir a votação nas zonas eleitorais, a nova divisão partidária do Congresso Nacional e das Assembleias Legislativas e a composição do Senado.
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