Em 2022, a campanha foi uma eleição de trincheiras: Lula x Jair Bolsonaro. Mas também foi uma disputa movida por esperanças. De um lado, os apoiadores de Lula prometiam defender a democracia; do outro, os de Bolsonaro viam sua eleição como um caminho para políticas moralmente conservadoras e para a derrota das “esquerdas”. Os demais candidatos foram tragados pela polarização e, no segundo turno, forçados a escolher um dos lados.
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Bolsonaro, presidente e candidato à reeleição, protagonizou então um feito inédito no pós-redemocratização: não conseguiu renovar o mandato, por uma pequena diferença de votos, em uma das eleições mais competitivas da história recente.
Quatro anos depois, o cenário é outro. A teoria do voto econômico não afirma que os eleitores respondem diretamente aos indicadores econômicos, mas que seu comportamento eleitoral é influenciado pela percepção que constroem sobre a situação econômica. Desemprego, inflação, crescimento e renda podem favorecer um governo quando são percebidos como sinais de melhora. Mas bons indicadores objetivos não garantem, por si só, uma avaliação positiva do governo.
O Brasil voltou ao grupo das dez maiores economias do mundo, a renda média aumentou e a inflação está razoavelmente controlada. Ainda assim, esses resultados não parecem ter produzido uma percepção majoritariamente positiva sobre a economia nem se convertido em aprovação suficiente para o incumbente.
Em 2022, uma das principais razões declaradas para votar em Lula, segundo pesquisa Ipespe/Abrapel, era a lembrança positiva de seus governos anteriores. Agora, apesar da retomada de políticas de proteção social e de um desempenho econômico melhor que o de seu antecessor, a rejeição ao presidente chega a quase 50%, um patamar potencialmente impeditivo para uma reeleição.
É aqui que a eleição de 2026 começa a escapar das explicações mais convencionais.
A questão não é apenas o que os indicadores econômicos mostram, mas como a economia é percebida pelo eleitor. Se prevalece a percepção de que o país está indo mal ou na direção errada, a melhora dos indicadores objetivos pode ter dificuldade para se transformar em aprovação política. A disputa eleitoral passa, portanto, também pela disputa das narrativas sobre a economia.
Escândalos como o caso Banco Master podem ampliar o desencanto com a política. A crise envolvendo o STF alimenta a desconfiança nas instituições. E há algo ainda mais profundo: a dificuldade de mobilizar o eleitor não parece pertencer a um único campo.
À esquerda, à direita e na extrema direita, grupos ativistas encontram dificuldades para transformar identidade política em entusiasmo eleitoral. A polarização que, em 2022, empurrava os eleitores para as urnas já não parece produzir o mesmo efeito.
Naquela eleição, havia dois campos claramente identificados, dois projetos em confronto e uma forte disposição para escolher um lado.
Em 2026, a pergunta é outra: como mobilizar um eleitor que não encontra razões suficientes para se entusiasmar com nenhum deles?
Talvez essa seja uma das marcas desta eleição. A economia continua sendo importante, mas não apenas por seus resultados objetivos: importa a maneira como esses resultados são percebidos e interpretados. Escândalos ampliam a desconfiança. E a polarização, antes uma poderosa máquina de mobilização, parece encontrar seus limites.
Por isso, 2026 pode ser menos uma eleição entre candidatos e mais uma disputa pela reconquista do eleitor. Em um ambiente de desconfiança, vencer não dependerá apenas de apresentar resultados, discursos ou identidades políticas. Será preciso devolver ao eleitor uma razão para participar e escolher.
Quem conseguirá persuadir o eleitor de que ainda vale a pena escolher entre os principais lados, PT ou PL? Ou o eleitor surpreenderá e escolherá outra opção fora da polarização?
* Helcimara Telles é presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel) e professora da UFMG
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Entre a economia e o desencanto: por que a eleição de 2026 começa a escapar de explicações mais convencionais
Em 2022, a campanha foi uma eleição de trincheiras: Lula x Jair Bolsonaro. Mas também foi uma disputa movida por esperanças. De um lado, os apoiadores de Lula prometiam defender a democracia; do outro, os de Bolsonaro viam sua eleição como um caminho para políticas moralmente conservadoras e para a derrota das “esquerdas”. Os demais […]