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novembro 3, 2026
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'Escadaria do endividamento público não vai levar ao paraíso', diz diretora-geral do FMI

Por · novembro 3, 2026
'Escadaria do endividamento público não vai levar ao paraíso', diz diretora-geral do FMI


MADRI* — A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, disse que o mundo está numa “escadaria da dívida pública”, aproximando-se de uma relação de 100% da Dívida Pública/Produto Interno Bruto (PIB) e que essa situação é muito grave. A representante do FMI participou da Conferência Internacional de Bancos promovida pelo Santander, em Madri, nesta terça-feira.
— No que diz respeito à dívida (pública), estamos diante de uma espécie de escadaria: degrau após degrau, subindo cada vez mais. E posso garantir: não é uma escadaria para o paraíso, com certeza — alertou Georgieva.
Ela enfatizou que a combinação de inflação alta e juros elevados tornou o custo para pagar os juros da dívida sufocante para os governos, impactando diretamente empresas e famílias. A representante do FMI disse que os governos agiram com pressa, diante de crises como a pandemia e a guerra da Ucrânia.
— Diante de crises como a pandemia e a guerra na Ucrânia, os governos agiram com pressa, tomando empréstimos e gastando para socorrer as economias. O grande erro foi a falta de recomposição de reservas de proteção nos momentos de trégua — avalioou.
Georgieva apontou que a maioria dos mercados emergentes, entre eles o Chile e a Argentina na América do Sul, assimilou a lição sobre disciplina fiscal. E países que enfrentaram crises severas no passado (como Grécia, Portugal, Irlanda e Islândia) aprenderam da maneira mais dura e colocaram a casa em ordem, disse a executiva do FMI sem citar o Brasil.
Atualmente, afirmou ela, os piores exemplos de descontrole fiscal estão nas economias avançadas, citando expressamente os Estados Unidos, que acumulam uma dívida de US$ 43 trilhões e um déficit de 6% do PIB. A diretora do FMI deixou claro que o crescimento econômico, por si só, não será suficiente para tirar as nações desse “buraco de endividamento”.
— É indispensável realizar um ajuste fiscal urgente e gerenciar os recursos públicos com mais prudência. Protelar essas decisões aumenta a pressão sobre os juros e agrava os custos de energia e alimentos. É vital a sensatez dos governos para proteger suas populações — alertou.
Georgieva lembrou que o FMI possui um poder de fogo de cerca de US$ 1 trilhão (tendo utilizado menos de um décimo) para ajudar países em crise, mas defendeu que as grandes potências resolvam seus próprios gargalos fiscais sem recorrer ao Fundo, evitando drenar recursos que devem ser priorizados para países em desenvolvimento.
Citado como exemplo de país que busca sanear suas finanças públicas, o presidente do Chile, José Antonio Kast, que também participou da conferência, lembrou que o déficit fiscal (considerando os últimos 12 meses) está em 1,8% do PIB, resultado que ficou exatamente um ponto percentual abaixo do projetado no início do ano (2,8%).
— Ao chegar ao governo em março passado, tivemos quatro prioridades. Em primeiro lugar, ter nossas finanças públicas sanadas, uma carga tributária mais competitiva, permissões mais rápidas para empreendedores. E em quarto lugar, um país mais seguro — explicou.
Entre as ações implementadas para sanar as contas e atrair investimentos, o presidente chileno destacou a redução da carga tributária para empresas. A Lei de Reconstrução Nacional e Desenvolvimento Econômico e Social reduziu a taxa de imposto corporativo de 27% para 23%, além de garantir invariabilidade tributária por até 20 anos para grandes projetos.
Kast destacou ainda a simplificação radical de trâmites burocráticos, com redução de 55 para 13 autorizações setoriais na mineração, por exemplo. O presidente do Chile reforçou que o país optou expressamente pela disciplina e pela responsabilidade fiscal em detrimento do endividamento excessivo, sustentando que a responsabilidade no tempo é o único caminho para gerar riqueza e progresso sustentável.
A presidente-executiva do Santander, Ana Botín, reforçou o diagnóstico sobre a restrição fiscal dos governos, pontuando que o setor público se encontra praticamente no limite da sua capacidade de endividamento, com um déficit público médio esperado em 3,5% do PIB em diversas regiões do mundo. Esse cenário, disse, exige protagonismo do capital privado.
— A resposta para alavancar os investimentos necessários em transição energética, infraestrutura, inteligência artificial e defesa deve vir da mobilização do capital do setor bancário privado. É preciso uma regulação inteligente e simplificada que recalibre exigências de capital dos bancos, permitindo destravar recursos para financiar a competitividade e o crescimento sustentável sem sobrecarregar ainda mais os orçamentos públicos — diagnosticou a executiva do Santander.
*O repórter viajou a convite do Santander

'Escadaria do endividamento público não vai levar ao paraíso', diz diretora-geral do FMI