Conversas sobre sexo após uma doença ou o surgimento de uma deficiência costumam esbarrar na mesma pergunta: quanto o sexo que você faz hoje fica aquém daquele que fazia antes?
Essa comparação pode dificultar que imaginemos formas satisfatórias de fazer sexo quando dor, fadiga, mobilidade reduzida, alterações na sensibilidade ou desconforto para manter determinadas posições complicam a repetição das práticas habituais. Algumas pessoas continuam tentando reproduzir o sexo que tinham antes. Outras se afastam completamente da atividade sexual.
Roteiros sexuais são padrões culturais e interpessoais que orientam quem toma a iniciativa, quais atividades vêm em seguida e como a relação sexual deve terminar. Os modelos tradicionais tendem a colocar a penetração vaginal pelo pênis no centro da ideia de “sexo de verdade”, enquanto todas as outras práticas são tratadas como secundárias — uma preparação ou algo a mais.
Adaptar-se a essas mudanças costuma exigir flexibilidade sexual, isto é, disposição para explorar maneiras novas e diferentes de experimentar satisfação sexual, prazer e intimidade.
Brinquedos sexuais
Os brinquedos sexuais podem ajudar nessa transformação. Quando utilizados como recursos de acessibilidade, permitem controlar a estimulação, reduzem o esforço físico exigido pelo sexo e ampliam as possibilidades do que pode ser considerado uma experiência sexual satisfatória.
Durante muitos anos, os brinquedos sexuais foram associados a filmes como “Secretária” e “Cinquenta tons de cinza” ou a estilos de vida sexuais alternativos. Agora, esse cenário está mudando.
A mídia e o debate público apresentam cada vez mais esses produtos como recursos positivos e adaptativos. O programa da Netflix “Como criar um quarto do sexo”, por exemplo, e a popularidade de produtos acessíveis, como o vibrador em formato de rosa que viralizou nas redes sociais, indicam uma crescente normalização desses objetos.
A acessibilidade começa com a possibilidade de escolha. Para uma pessoa, adaptar-se pode significar experimentar um vibrador clitoriano com tecnologia de ondas de ar. Para outra, pode ser simplesmente acrescentar um travesseiro para tornar determinadas posições mais confortáveis.
Decidir comprar um brinquedo sexual pode ser intimidante, e escolher o produto certo nem sempre é fácil. Muitos são caros, vêm em embalagens chamativas ou fazem barulho demais. Alguns também podem não ser seguros, como aqueles que contêm substâncias químicas capazes de interferir no sistema hormonal.
Os brinquedos sexuais têm potencial para funcionar como recursos de saúde sexual, contribuindo para a satisfação e o prazer em todas as fases da vida.
Modelos variados
Os vibradores estão entre os recursos sexuais mais conhecidos. Mas a categoria é mais ampla do que o nome sugere.
Os vibradores variam em função, formato e região do corpo que estimulam. Há desde modelos em formato de “varinha mágica” e os chamados vibradores “rabbit”, que combinam diferentes tipos de estimulação, até versões discretas para o clitóris e pequenos minivibradores em formato de cápsula. Existem opções para diferentes preferências, e o design pode fazer muita diferença em termos de acessibilidade.
Modelos com cabos ergonômicos podem ser mais fáceis de manusear para pessoas com força ou capacidade de preensão reduzida. Já os brinquedos que dispensam o uso das mãos eliminam a necessidade de segurar o dispositivo no lugar, o que pode ser bastante útil quando uma deficiência ou a fadiga torna os movimentos repetitivos cansativos. Os vibradores também podem proporcionar estímulos quando a sensibilidade está reduzida, ajudar a diminuir a desigualdade entre homens e mulheres na capacidade de atingir o orgasmo e criar oportunidades de autoconhecimento sexual.
É claro que a vibração não é necessariamente indicada para todas as pessoas. Para algumas, pode ser útil começar com uma intensidade baixa ou utilizar o brinquedo sobre a roupa.
Outros recursos permitem distribuir o esforço físico envolvido no sexo de maneiras diferentes. Balanços sexuais, encostos triagulares, assentos adaptados e até travesseiros comuns podem ajudar a sustentar o peso do corpo. Isso pode beneficiar pessoas com mobilidade reduzida dos quadris, paralisia ou dores nas articulações.
Práticas de exploração sensorial — que podem envolver vendas, chicotes, palmatórias ou contenções — também ajudam a ampliar a intimidade para além da estimulação genital. E, quando há ressecamento vaginal, os lubrificantes podem tornar a exploração sexual mais confortável.
De modo geral, pesquisas sobre cuidados de suporte em oncologia mostram que a combinação de brinquedos sexuais com práticas adaptativas, como a atenção plena (mindfulness) e a ampliação da própria definição de sexo, pode melhorar a satisfação sexual, o desejo e a qualidade dos relacionamentos.
Da mesma forma, estudos indicam que vibradores clitorianos beneficiam mulheres com esclerose múltipla ou lesões na medula espinhal e podem melhorar a função do assoalho pélvico e o funcionamento sexual de maneira mais ampla.
Onde o acesso encontra obstáculos
Para pessoas com deficiência, existem barreiras adicionais que tornam mais difícil construir uma vida sexual satisfatória.
Além do estigma e da suposição de que pessoas com deficiência têm pouco ou nenhum interesse em sexo, há uma oferta limitada de informações sobre saúde sexual que abordem o prazer e as possibilidades de adaptação.
A privacidade também pode ser restrita para quem mora com familiares ou recebe assistência em casa. Isso limita tanto a masturbação quanto os aspectos práticos de adquirir e guardar um brinquedo sexual.
Há, porém, recursos que podem ajudar. Plataformas como a OMGYes ilustram a variedade de maneiras pelas quais diferentes ferramentas podem ser usadas para adaptar a vida sexual. A terapia sexual também pode ser benéfica para aprender a fazer essas adaptações e melhorar os relacionamentos sexuais.
A satisfação sexual não deveria depender da obediência a um único modelo dominante de relação sexual. Com comunicação contínua, atenção ao consentimento e práticas de sexo mais seguro, os brinquedos sexuais podem ajudar a construir formas de intimidade que acompanhem as transformações do corpo ao longo da vida.
*Maha Khawaja é doutoranda em Saúde e Sociedade na Universidade McMaster, no Canadá
* Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original
Ferramenta útil: como os vibradores são importantes para o prazer de quem tem deficiências ou doenças crônicas
