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setembro 30, 2026
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Historiadora conta com ajuda da IA para recontar histórias de escravizados do Rio de Janeiro que se rebelaram contra o sistema

Por · setembro 30, 2026
Historiadora conta com ajuda da IA para recontar histórias de escravizados do Rio de Janeiro que se rebelaram contra o sistema


A escravidão sempre foi marcada por silêncios, que gritam até hoje. E se pudéssemos ouvir as vozes dos escravizados e conhecer o que sentiam, pensavam e como agiam para lutar contra a opressão que sofriam? Em 2026, a historiadora e professora titular de Comunicação da UFRJ Marialva Barbosa acreditou que isso seria possível. E contou com o apoio de uma ferramenta geralmente associada ao futuro para “imaginar” o passado: a inteligência artificial.
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Marialva iniciou a empreitada fazendo uma extensa pesquisa de documentos para tentar encontrar rastros das histórias de escravizados que moraram no Rio de Janeiro. A pesquisa incluiu a análise de fichas prisionais da Casa de Detenção do Rio de Janeiro e das páginas dos principais jornais da cidade, sobretudo no fim do século XIX, além de arquivos que descreviam a cidade na época. Geralmente os escravizados apareciam nos periódicos por ser atribuídos a eles algum crime ou delito. Devido a estes gestos de revolta, Marialva consegue encontrar pistas para construir o que chama de “biografias imaginadas”.
O livro “Vidas escravizadas” será editado pela Editora da Ação da Cidadania e tem previsão de publicação no início do próximo ano. A obra reúne as histórias de sete biografados: Severo, Manoel Moçambique, Serafim, Joaquina, Francelina, Serafim e Maria Rosa. Com a ajuda de pesquisadores que estudaram o modo de interpretar o mundo de diversos povos originários da África, Marialva tenta interpretar os gestos violentos atribuídos a estes personagens e narrar histórias de vidas que “merecem ser contadas em meio ao esquecimento profundo”.
“São biografias de escravizados do século XIX, homens e mulheres que realmente existiram, e para os quais construí biografias que chamo de imaginadas. Não porque sejam fantasiosas, já que procuro reconstruir essas vidas a partir de uma extensa documentação, mas ao querer mostrar sobretudo o que esses escravizados sentiam, como eles percebiam o mundo, as emoções que expressavam, ou seja, suas formas de pensar o mundo na afrodiáspora (o Brasil), tive que também preencher lacunas com a imaginação. O propósito não é dar a eles vozes (quem somos nós?), mas deixar que eles falem de suas próprias vidas, de seus modos de pensar de maneira complexa e, sobretudo, seus sentimentos, suas alegrias, seus desejos, suas lutas que ecoam do passado até o futuro, o nosso agora”, resume Marialva Barbosa.
Os biografados são Severo, preso por atirar e ferir a mulher que o escravizava, Manoel que dá uma facada no seu patrão e se entrega à polícia, recebe 400 chicotadas e morre anos depois de erisipela (infecção na pele), Joaquina e Francelina, que conseguem ser absolvidas pela polícia em revolta contra patroas agressoras, Basílio e seu caso de amor, ciúme e raiva com Maria, Serafim e suas inúmeras tentativas de fuga e Maria Rosa que, no ápice do desespero, assassina os próprios filhos. Além de narrar suas histórias, Marialva tenta interpretar seus gestos: Por que foi à polícia denunciar mesmo sabendo que não teria ajuda? Por que se entregou após se defender de forma legítima? O que provavelmente pensava, sentia e queria?
A inteligência artificial ajudou na empreitada de três maneiras fundamentais:
na transcrição dos processos penais do século XIX, principal documento em todas as biografias imaginadas dos escravizados, ainda que Marialva tivesse que conferir linha por linha para verificar se as transcrições estavam corretas;
na reconstrução dos possíveis rostos dos escravizados biografados, cujos prompts eram dados à IA a partir das descrições existentes nas fichas de identificação dos escravizados prisioneiros que foram biografados ou dos anúncios dos jornais que publicavam suas descrições de maneira minuciosa quando se queria capturá-los;
Manoel Moçambique
Imagem criada por IA
Manoel Moçambique
Imagem feita com IA
e para imaginar cenários geográficos da época, como a possível rota de fuga de Serafim de Leopoldina em Minas Gerais até o Rio de Janeiro ou os caminhos que Francelina percorria no Centro do Rio, mesmo estando proibida de sair de casa.
Fuga de Serafim
Imagem feita com IA
Os caminhos de Francelina
Imagem criada por IA
“A IA me ajudou a ampliar minha imaginação do passado que está presente nessas biografias de vidas que existiram, mas que foram completadas com o ‘possível passado’”, resume Marialva.
A historiadora enfatiza que os biografados só ganharam possibilidade de existência por meio de rastros fixados pelas instituições e que perduraram como restos do passado. Em alguns momentos do livro, Marialva tenta reproduzir a voz dos escravizados, através do que disseram em seus testemunhos à polícia. O último capítulo de “Vidas escravizadas” é dedicado a falar do Rio de Janeiro como cidade-terreiro, dos personagens vistos como “feiticeiros”, desde aquele tempo e até hoje.
“É a recuperação de personagens anônimas que vão ganhando vidas improváveis pelos restos comunicacionais que permaneceram em diferentes suportes”, explica. “O fio condutor mostra que na vida (e na morte) dos escravizados já no final século XIX ainda é possível ver, com maior ou menor intensidade, cosmopercepções das terras originárias, o que explica muitos de seus gestos, sentimentos, pensamentos e ações. E quem sabe continuem até hoje nos corpos que bailam, gingam e giram, a quem afinal dedico o livro”.

Historiadora conta com ajuda da IA para recontar histórias de escravizados do Rio de Janeiro que se rebelaram contra o sistema