Israel está promovendo uma política de “eliminação” sistemática das condições que sustentam a vida coletiva dos palestinos na Cisjordânia ocupada, segundo um relatório de 249 páginas da organização israelense de direitos humanos B’Tselem publicado nesta segunda-feira e obtido antecipadamente pelo jornal britânico The Guardian. O documento acusa o governo de intensificar, entre outras medidas, a violência, as restrições de circulação e a limpeza étnica no território.
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Intitulado “Projeto Eliminação”, o estudo afirma que diferentes setores do Estado israelense atuam de forma coordenada para tornar a vida dos palestinos cada vez mais “fragmentada, vulnerável e dependente”, enquanto ampliam a presença judaica por meio de assentamentos, postos avançados, fazendas e infraestrutura civil exclusiva para judeus. As autoridades israelenses rejeitam acusações de abusos na Cisjordânia, território ocupado por Israel desde 1967.
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De acordo com a B’Tselem, o processo envolve cinco áreas de ação interligadas: “violência e intimidação, restrições de circulação, estrangulamento econômico, destruição social e política, e limpeza étnica e tomada territorial”. A organização afirma que o objetivo é atingir não apenas indivíduos, mas as condições necessárias para a existência dos palestinos “como um povo”, incluindo território, instituições, língua, cultura, vínculos sociais, liderança e memória coletiva.
O relatório é o trabalho mais abrangente da B’Tselem sobre a Cisjordânia desde a criação da organização, em 1989. Segundo a ONG, a intensificação das ações ocorreu principalmente após o ataque do Hamas contra comunidades do sul de Israel, em 7 de outubro de 2023, embora a ideologia que sustenta essa política seja anterior.
Mais de 1,1 mil mortos
O relatório denuncia a violência praticada por colonos israelenses e pelo Exército contra palestinos. De acordo com uma contagem da AFP baseada em dados do Ministério da Saúde palestino, pelo menos 1.108 palestinos — entre civis e combatentes — morreram na Cisjordânia desde outubro de 2023.
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No mesmo período, 64 comunidades palestinas inteiras foram deslocadas à força, de acordo com dados apresentados no relatório. A B’Tselem classifica como “limpeza étnica” o processo que, nos últimos anos, levou dezenas de pequenas comunidades isoladas a abandonar suas terras em meio à violência ou à destruição de suas casas.
A organização também aponta o fechamento de estradas e acessos a vilarejos como uma das formas de fragmentação da vida palestina. O diretor de operações da B’Tselem, Kareem Jubran, cita postos de controle administrados pelo Exército e cerca de 900 barreiras instaladas nas entradas de localidades palestinas.
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Um episódio relatado pelo Guardian ilustra o impacto dessas restrições. Haytham Adnan Murad, de 49 anos, voltava de uma consulta médica em Hebron com a filha de 12 anos, Balqis, que não consegue andar após uma cirurgia. Uma passagem para o vilarejo de Sair, aberta pela manhã, havia sido fechada pelo Exército israelense. Murad precisou sair do táxi e carregar a filha para contornar a barreira.
— Quando saímos, a passagem estava aberta. Agora está fechada, mas esta é a vida cotidiana — contou Murad. — De manhã, as coisas são diferentes da tarde. Não há dignidade nisso.
Soldados israelenses chegam ao vilarejo de Qusra, na Cisjordânia ocupada por Israel: local tem enfrentado uma escalada da violência por parte de colonos israelenses no último mês
Jaafar Ashtiyeh/AFP
A B’Tselem afirma que essas restrições afetam atividades básicas, como chegar ao trabalho, levar crianças à escola ou à universidade, receber atendimento médico ou serviços municipais, encontrar familiares e amigos, cultivar a terra e até sair de férias.
Plano de Smotrich
Para a organização, a política atual tem raízes anteriores à guerra iniciada em 2023. Um dos principais documentos citados no relatório é o chamado Plano Decisivo, publicado em 2017 por Bezalel Smotrich, antes de ele se tornar ministro das Finanças de Israel.
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O documento é descrito pela B’Tselem como uma espécie de plano-base para compreender a atuação israelense na Cisjordânia. Segundo a organização, Smotrich apresentou aos palestinos três opções: viver sob supremacia judaica e abrir mão de suas reivindicações nacionais; deixar o território; ou enfrentar uma repressão violenta do Exército israelense caso resistissem.
De acordo com o relatório, essas ideias foram posteriormente traduzidas em “políticas, orçamentos, poderes e práticas” de diferentes setores do Estado, com velocidade e abertura sem precedentes.
A ONG também afirma que a violência de colonos deixou de funcionar apenas como “violência privada ou violação da ordem pública” e passou a integrar um “sistema mais amplo de controle”. O relatório ainda diz que, em alguns casos, os ataques ocorrem ao lado de soldados, com apoio das forças de segurança e uso de armas, equipamentos e infraestrutura fornecidos pelo Estado, além de “quase completa impunidade”.
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Desde o início do atual mandato do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, o governo de Israel legalizou e aprovou um número recorde de 104 novos assentamentos na Cisjordânia, segundo a AFP. Os assentamentos israelenses no território são considerados ilegais pelo direito internacional.
Cerca de três milhões de palestinos vivem na Cisjordânia, sem contar Jerusalém Oriental, ocupada e anexada por Israel. O território também abriga mais de 500 mil israelenses instalados nos assentamentos.
Estrangulamento econômico
O relatório também aponta o que classifica como uma política de “estrangulamento econômico total” implementada desde 2023. De acordo com a B’Tselem, as medidas reduziram oportunidades de sustento, destruíram infraestrutura civil e agrícola, ampliaram o controle sobre recursos e sobre o sistema bancário e prejudicaram a capacidade das instituições públicas de oferecer serviços básicos.
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Os efeitos aparecem nos indicadores econômicos. A taxa de desemprego na Cisjordânia passou de 13,1% em 2022 para 31,3% em 2024. Em 2025, quase metade dos jovens não estava empregada nem matriculada em instituições de ensino ou em cursos de formação profissional, segundo dados apresentados no relatório.
Colonos israelenses chegam a uma casa palestina em construção na vila de Qusra, ao sul da cidade de Nablus, na Cisjordânia ocupada por Israel — região que tem enfrentado uma escalada da violência por parte de colonos no último mês —, em 29 de agosto de 2026
JAAFAR ASHTIYEH / AFP
A revogação em massa de autorizações de trabalho também deixou trabalhadores e suas famílias sem renda estável. Em 2024, a ONU estimou que 700 mil palestinos na Cisjordânia precisavam de assistência para comprar alimentos, 17% a mais do que no ano anterior.
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Smotrich afirmou, em setembro de 2025, que empregaria todos os meios possíveis “para impedir o perigo de um Estado palestino”, inclusive provocando o colapso da Autoridade Palestina “por meio do estrangulamento econômico”.
Ataques a organizações
Segundo o relatório, a pressão também atingiu organizações e associações palestinas. Desde outubro de 2023, grupos comunitários e de base, além de entidades que protegem trabalhadores, pessoas necessitadas e crianças, enfrentaram invasões frequentes de seus escritórios, fechamento forçado, assédio sistemático e prisão de funcionários, voluntários e ativistas sem justificativa.
Os impactos também chegaram à educação. Entre 8% e 20% das escolas da Cisjordânia foram fechadas durante o ano letivo de 2023-2024, de acordo com os dados apresentados pela ONG.
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Em entrevista ao Guardian por ocasião da publicação do relatório, Jubran afirmou que os episódios não devem ser analisados isoladamente.
— O que descobrimos é que esses não são incidentes separados. Todos os elementos distintos têm uma mesma característica, um mesmo objetivo. Quando você olha para o quadro geral, ele leva a uma conclusão: o principal objetivo é eliminar os palestinos como coletivo — explicou.
Yuli Novak, diretora-executiva da B’Tselem, afirmou que a organização identificou uma nova fase do processo a partir do fim de 2022, quando Netanyahu voltou ao poder à frente de uma coalizão de direita e extrema direita, seguida por uma nova escalada após outubro de 2023.
— O que estamos discutindo é um ataque à vida palestina na Cisjordânia que mudou de escala — disse Novak. Segundo ela, o território está se tornando “cada vez mais inabitável para muitos palestinos”.
(Com AFP)
Israel é acusado de tentar 'eliminar' condições de vida dos palestinos na Cisjordânia
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