A trajetória de Cristiano Ronaldo na seleção portuguesa parece ter chegado ao fim nesta semana. Um desentendimento com o técnico Jorge Jesus levou o craque a abandonar a concentração às pressas, deixando um país em estado de choque e o mundo da bola de queixo caído.
A crise vinha desde o jogo contra a Noruega, no domingo, quando Cristiano passou quase todo o segundo tempo se aquecendo e não entrou em campo. Teria se sentido ultrajado porque JJ prometera que ele jogaria a última meia hora. Na coletiva de quarta-feira, em Copenhague, véspera da partida contra a Dinamarca, o Mister explicou que os planos mudaram: o jogo pedia para segurar uma vitória suada por 2 a 1 contra um rival duríssimo, carrasco do Brasil na Copa.
Segundo gente próxima ao jogador de 41 anos, Cristiano esperava um pedido de desculpas que não veio. Mal acabou a coletiva, pegou a mochila e, sem dar explicações a ninguém, mandou seu jatinho vir de Madri buscá-lo e anunciou nas redes a decisão irreversível de deixar a seleção.
Cristiano Ronaldo deixou treino no estádio Parken, em Copenhague, na véspera da partida de Portugal contra a Dinamarca
LISELOTTE SABROE / AFP
Um verdadeiro piti de criança mimada. Um final indigno para um herói nacional. Indigno, mas talvez condizente com a figura de um atleta que nunca aceitou estar abaixo de ninguém.
Depois do fracasso no Mundial, que encerrou o ciclo do conciliador Roberto Martínez, sempre disposto a agradar a um Cristiano que já no Catar, em 2022, não era o mesmo de outrora, a federação portuguesa foi atrás do extremo oposto.
Mister sem filtro
Jorge Jesus é uma figura única num mundo obcecado com imagem e aparências. O mister não tem filtro: é autêntico, sincero e muitas vezes um sem noção. Suas coletivas já deixaram pérolas históricas, momentos da mais pura espontaneidade, cada vez mais rara num esporte blindado pelo tal media training.
Eu estava em Lisboa na semana passada quando os dois se sentaram lado a lado numa coletiva incomum, diante de um auditório abarrotado no Portugal Football Summit.
Cristiano falou primeiro e foi épico. Provocou jornalistas e incendiou a plateia com respostas incisivas e cativantes, reivindicando seu lugar na seleção enquanto alimentava o ego gigantesco com a energia de um público que vibrava a cada resposta como se fosse gol.
Ao lado, JJ observava. Quando tomou a palavra, depois de elogiar o legado do ícone à sua direita, deixou claro, com a sinceridade de sempre, que quem manda é o treinador e que não garantia titularidade nem minutos a ninguém.
Torcedores divididos entre apoio para Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus, após polêmica
Liselotte Sabroe / Ritzau Scanpix / AFP
Para quem estava lá e acompanhou por anos a carreira dos dois, parecia claro que aquele casamento dificilmente daria certo. Por mais que tivessem trabalhado juntos na Arábia Saudita, uma seleção top na Liga das Nações não dá margem para camaradagem. Principalmente quando o treinador é um dos dois ou três portugueses com personalidade e ego capazes de rivalizar com os do próprio Cristiano.
O que JJ fez no domingo foi simples: pôs o coletivo acima do individual. Algo que, no caso de Cristiano, todo mundo sabia que precisava ser feito havia anos, mas ninguém tinha coragem de fazer. Precisou chegar aquele coroa que deixou saudades no Rio, com sua deliciosa imprudência e a desfaçatez de quem nasceu na Amadora e não tem medo nem de assombração. E olha que, dessa vez, ele nem precisou dizer “Tu, FINISH!”
Jorge Jesus nem precisou dizer “Tu, FINISH!” para Cristiano Ronaldo
