Três palavras definem um dos maiores fenômenos da moda: little black dress. Em 2026, a peça, chamada de LBD pela turma fashion, completa 100 anos. Em português, temos uma livre tradução que resolve a vida de qualquer mulher em qualquer ocasião: o pretinho básico. O item, que ganhou fama pelas mãos de Coco Chanel nos anos 1920, é um clássico que se tornou ícone não só de estilo, mas também no cinema.
Alta-costura Chanel 2026
Divulgação
A vestimenta é tão emblemática que até marcas com forte identidade calcada em estampas e cores, como a Andrea Marques, abrem espaço em suas coleções para ela. O vestido preto tem seu lugar garantido nas coleções da estilista, especialmente na linha AM Classics. “Toda mulher precisa de um look pretinho no armário. O LBD é aquela peça que resolve a vida: elegante, feminina, atemporal e adequada para diferentes ocasiões”, diz Andrea, que geralmente inclui algum elemento especial, como recorte, volume ou textura diferente. “É um pretinho clássico, mas nem tão básico assim”, avisa.
Marilyn Monroe ícone de estilo
The Hulton Deutsch Collection / Getty Images
Segundo a pesquisadora e analista de moda Paula Acioli, embora a criação do LBD tenha sido atribuída a Coco Chanel nos anos 1920, os acontecimentos que inspiraram a criação da famosa peça são anteriores. “Mais precisamente no final do século XIX, ainda sob os vestígios da austera estética vitoriana, quando jovens apelidadas de Gibson Girls, em referência à personagem feminina criada pelo ilustrador Charles Dana Gibson, já usavam vestidos pretos fora dos padrões tradicionais e das ocasiões de luto fechado, como era costume no período”, explica. Ainda, de acordo com Paula, Chanel, uma típica Gibson Girl, acabou incorporando a ousadia em suas criações e transformando o vestido preto em símbolo de subversão dos valores de comportamento feminino estabelecidos.
Gabrielle Chanel
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Se não foi a criadora da peça em si, Chanel foi a responsável por ressignificá-la. Em 1926, o seu vestido era a personificação do estilo moderno: confortável e sem adornos. “A popularidade era tanta que o peça era comparada ao primeiro automóvel, um Ford, da mesma cor, que também se tornou um fenômeno mundial”, diz Paula.
Ao longo destes 100 anos, o vestido preto ganhou atualizações e novos destaques na mídia, o que contribuiu para esta renovação da peça em termos de simbologia. Um dos exemplos é o famoso revenge dress — o vestido da vingança — usado por Lady Di, em 1994, em sua primeira aparição pública após a revelação da traição do então príncipe Charles. Para Paula, o modelo decotado, exibido em um dos mais difíceis períodos da vida pessoal da princesa, é um excelente exemplo de como o LBD foi, no decorrer do tempo, ganhando novas camadas de significados, sobretudo como importante ferramenta de poder feminino. “A peça transformou um símbolo do luto feminino no século XIX em um dos símbolos da luta feminista no século XX”, avalia a pesquisadora.
Alta Costura / Coleção de inverno 2021/2022 da Chanel
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Para a stylist Manu Carvalho, considera-se 2026 o centenário do pretinho básico no mundo todo por conta do impacto do lançamento de Chanel, algo que está, inclusive, bem documentado nas biografias da estilista e no filme “Coco antes de Chanel” (2009), em que a protagonista surge em um longo preto simples em contraste com as outras mulheres, vestidas com roupas elaboradas de cores claras. “Muitos vestidos vieram antes e depois, mas Chanel simbolizou a mudança de uma época e materializou a estética feminina moderna do século XX”, diz.
MUSEU PIERRE CARDIN
Jérôme Faggiano
O pretinho básico já havia revolucionado a moda e os costumes nas artes plásticas com o retrato de Madame X (1884), pintado por John Singer Sargent. Mas foi nas telonas que a peça se tornou ícone definitivo. O quadro, aliás, é apontado como uma das referências para alguns figurinos da era dourada do cinema, como o de Rita Hayworth em “Gilda” (1946), e também teria influenciado o figurinista Piero Gherardi na criação do vestido de Anita Ekberg na cena da Fontana di Trevi em “La dolce vita” (1963), de Federico Fellini.
Foi, porém, outra atriz a responsável por sedimentar o LBD como referência de elegância e graça para o mundo inteiro: Audrey Hepburn, vestida com colar de pérolas e longo preto em “Bonequinha de luxo” (1961). O vestido, criado por Hubert de Givenchy e adaptado para o filme, sob supervisão da figurinista Edith Head, tornou-se uma das imagens de moda mais emblemáticas da história do cinema. “A grande embaixadora do LBD é certamente a personagem Holly Golightly, de Audrey Hepburn. O cinema eterniza a moda lindamente”, comenta Manu.
Audrey Hepburn em Bonequinha de luxo
Reprodução
Apesar de o nome, little black dress ou pretinho básico, ser o suficiente para definir a peça, ela, obviamente, tem muitas variações de modelo, decotes, comprimentos e modelagem, servindo a quase todos os estilos. Neste sentido, a cor é um elemento fundamental. “O preto é controverso: é sóbrio, austero, passa modéstia, mas também pode transmitir sofisticação, é poderoso e sexy, tem esse aspecto de fetiche”, explica a stylist.
Para a coordenadora de Design de Moda do Istituto Europeo di Design (IED-Rio), Yamê Reis, o preto deixou de ser associado ao luto para ocupar o território da elegância e sofisticação, atributos aos quais ainda hoje está associado. “A silhueta reta em tecido macio estava alinhada à nova mulher, mais dinâmica e independente, que surgia àquela época. Sua base destacava os acessórios de pérola tão icônicos do estilo criado por Chanel”, observa.
Princesa Diana com o vestido da vingança
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Além de se tornar atemporal, o pretinho básico pode ser considerado também um item para a vida toda no guarda-roupa. “Uma peça é sustentável quando atravessa o tempo e o território, tanto em estilo quanto em qualidade. O LBD é a prova de que é possível uma mesma roupa percorrer décadas e gerações sem perder o valor”, analisa Yamê. “Vale a pena investir num bom modelo para durar, afinal, ele pode ser a roupa mais versátil do seu guarda-roupa”, emenda Yamê, que também é fundadora e diretora do Rio Ethical Fashion.
Atravessar cem anos na moda sem cair em desuso é para poucos itens do vestuário. “Essa versatilidade mantém a atualidade através dos tempos, pode ser visto em diferentes contextos, do punk à alta-costura”, exemplifica Yamê, acreditando que a proposta sem excessos resistiu um século por ser uma tela sobre a qual se pode criar looks diversos, usando acessórios e complementos que o transformam completamente.
Vida longa ao pretinho básico e à criatividade dos estilistas, dos figurinistas e das mulheres para reinventá-lo.
Little black dress completa 100 anos: como o vestido preto virou um clássico da moda
Três palavras definem um dos maiores fenômenos da moda: little black dress. Em 2026, a peça, chamada de LBD pela turma fashion, completa 100 anos. Em português, temos uma livre tradução que resolve a vida de qualquer mulher em qualquer ocasião: o pretinho básico. O item, que ganhou fama pelas mãos de Coco Chanel nos […]