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Lula x Flávio: em 1º mês de campanha, rivais percorrem mapa parecido, mas têm estratégias opostas

Líderes isolados das pesquisas de intenção de voto, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) percorreram um mapa eleitoral semelhante no primeiro mês de campanha à Presidência, mas com estratégias opostas e discursos contrastantes. Marcaram como prioridade as agendas no Sudeste, que concentra quatro em cada dez eleitores do país (41,8%), e […]

Retorno às origens e disputa sobre segurança e soberania marcam início da corrida presidencial


Líderes isolados das pesquisas de intenção de voto, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) percorreram um mapa eleitoral semelhante no primeiro mês de campanha à Presidência, mas com estratégias opostas e discursos contrastantes. Marcaram como prioridade as agendas no Sudeste, que concentra quatro em cada dez eleitores do país (41,8%), e disputaram atenções no Nordeste.
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Enquanto o presidente priorizou palanques petistas e cenários eleitorais mais controlados, para consolidar a base em regiões metropolitanas e angariar apoio em áreas decisivas, o adversário intensificou idas ao interior e até a “antirredutos bolsonaristas”, para evitar a pulverização do apoio de direita e furar blocos da esquerda mesmo em estados com palanque frágil.
De 16 de agosto a 16 de setembro, sem contar deslocamentos para sabatinas ou agendas presidenciais ou parlamentares, Flávio fez campanha em ao menos 20 cidades de nove estados, e Lula se apresentou como candidato em ao menos 14 municípios de dez unidades da federação. A pouco mais de 15 dias para a eleição, a última pesquisa Quaest apontou um cenário de empate técnico entre eles, com Flávio pela primeira vez em vantagem numérica num eventual segundo turno (42% a 40%).
Lula começou a campanha pelo interior paulista, em seu berço político do ABCD, e viajou a Sudeste, Nordeste, Sul e Distrito Federal. Esteve duas vezes no Rio, duas em Minas e duas em São Paulo — contudo, em meio ao crescimento de Flávio na região, Lula já reforça sua presença por lá, começando por Montes Claros (MG), área mineira com características semelhantes ao Nordeste, e Guarulhos (SP), que foi governada pelo PT por 16 anos. A ideia é impulsionar Patrus Ananias (PT) e Fernando Haddad (PT) ao segundo turno nos embates estaduais. Já Flávio marcou compromissos em Vitória da Conquista, na Bahia, em mais uma aposta num tradicional reduto lulista e onde até o presidente estadual do PL, o candidato ao Senado João Roma, é acusado de “escondê-lo” na campanha.
Percurso das campanhas
Editoria de Arte
O cientista político da Universidade de Brasília (UnB) Murilo Medeiros avalia que o primeiro mês de campanha foi “sequestrado” por crises e suspeições, com pouca discussão sobre soluções para os problemas estruturais do país. Além disso, ele vê “pouca vibração” nas ruas, com “certo desalento” nos dois campos:
— Parte do eleitorado progressista demonstra frustração com as entregas do governo Lula, enquanto, entre os conservadores, Flávio enfrenta o desafio de construir uma mobilização própria comparável à que Jair Bolsonaro exerceu sobre sua base. Enquanto Lula concentrou suas agendas em palanques já consolidados, Flávio buscou ampliar o mapa regional da campanha. As incursões pelo Nordeste mostram uma tentativa de reduzir a vantagem lulista na região — destaca.
Estratégias distintas
Até aqui, na primeira “etapa” de campanha, Lula concentrou atos ao lado de candidatos do PT em São Paulo, Rio Grande do Norte, Bahia, Minas Gerais, Ceará e Piauí, onde aliados buscavam seu reforço como cabo eleitoral. Exceções envolveram agendas públicas com os candidatos aos governos do Rio Eduardo Paes (PSD) e do Rio Grande do Sul Juliana Brizola (PDT) — alianças consideradas estratégicas, embora sem a cabeça de chapa — e com o postulante ao governo do Paraná Requião Filho (PDT), em Curitiba, onde ficou anos preso pela Operação Lava-Jato.
O cientista político Eduardo Grin, da FGV, pondera que isso não necessariamente significa que Lula só está fazendo campanha “para convertidos”, como provocou o vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá, pelas redes sociais.
— Falar de escala 6×1, de imposto de renda, de conquistas do governo é para falar para a maioria, mas a comunicação da campanha é ruim. Lula cita muitas promessas, mas a população vê que seu dia a dia segue complicado, pela inflação, pelo endividamento. É o contraste do que promete para um quarto mandato e uma expectativa de mudança, um desafio sobretudo para se direcionar aos independentes. São eles que vão decidir. Até agora, eles têm caminhado para outras alternativas — destaca.
Além disso, apostas do candidato à reeleição, como a votação do fim da escala 6×1, ficaram para depois do primeiro turno. O petista focou discursos em entregas do governo; propostas de segurança pública; ataques a Flávio, investigado pela PF no caso do financiamento do filme “Dark Horse”; acenos a mulheres e aproximação com evangélicos; e críticas à atuação bolsonarista pelo tarifaço dos Estados Unidos contra produtos brasileiros, sob o mote de defesa da soberania nacional.
— Até aqui, o discurso governista tem dedicado bastante espaço a temas áridos em termos eleitorais, como terras raras, soberania e inteligência artificial. O anúncio do reajuste do Bolsa Família é uma forma de recolocar renda, consumo e proteção social no centro da campanha — avalia Medeiros. — Lula carrega o peso de ser governo. A persistente desaprovação de sua gestão é uma dificuldade adicional.
No período, Lula evitou comparecer a estados onde tem mais de um palanque amigo, a despeito do acerto formal com João Campos (PSB) em Pernambuco e da candidatura própria de Felipe Camarão no Maranhão. Apoiado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), o presidente deixou de fora do circuito a Paraíba, onde declarou suporte a um adversário do pai de Motta ao Senado.
Lula entrou na campanha desgastado pelas investigações da Polícia Federal sobre suposto tráfico de influência no governo por parte de seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Ao longo do mês, porém, precisou lidar também com os impactos da crise inédita no Supremo Tribunal Federal (STF), desencadeada após a divulgação de mensagens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes, relator do processo da trama golpista e tido como “algoz” de Jair Bolsonaro (PL).
Flávio, por sua vez, tentou reduzir a rejeição feminina ao bolsonarismo com promessa de endurecimento das leis contra a violência de gênero e papel de protagonismo na campanha para a mulher, Fernanda Bolsonaro, e a ex-presidente da Caixa Daniella Marques. Também deu destaque para a pauta econômica, com foco no custo de vida e no anúncio de um “tesouraço” tributário. As pesquisas eleitorais apontam, porém, que seu principal vetor do estreitamento da diferença para Lula se deu com a eclosão do escândalo de Moraes, a quem repetidamente associa ao petista.
O senador esteve cinco vezes em São Paulo, duas em Minas e seis no Rio. Abriu a campanha na capital fluminense, na Praia de Copacabana, mas então promoveu giros pelo interior, pelo litoral e por cidades médias — no Rio, por exemplo, passou por Baixada Fluminense, Costa Verde, Região dos Lagos e o Norte do estado. Os compromissos tiveram como pauta o potencial de turismo, de energia e críticas à regulação ambiental, além da agenda tradicional bolsonarista de segurança. Em São Paulo, tentou capitalizar a vantagem do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) na disputa à reeleição, mas também foi à Festa do Peão de Barretos, e cortejou o agronegócio no Mato Grosso.
No último mês, Flávio Bolsonaro precisou gerenciar constrangimentos das ramificações do caso Master relacionadas a “Dark horse” da relação oscilante com outros nomes de direita, inclusive a madrasta, Michelle Bolsonaro. No entanto, a turbulência no STF unificou o discurso da militância e canalizou o desgaste das instituições para inflamar o antipetismo.
Se no início do ano ele tentava se cacifar como um “Bolsonaro moderado”, Flávio passou a copiar o pai em lives e agendas, como no desfile pelas ruas de Juiz de Fora (MG), onde o ex-presidente Jair levou a facada em 2018. Investiu na comunicação digital e endureceu ainda mais o discurso de viés punitivista, propondo enquadrar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, reduzir a maioridade penal e aprovar a castração química de estupradores.
‘Antirredutos’
A estratégia de Flávio no Nordeste foi na contramão da de Lula. Iniciou a jornada na região por Alagoas, com visitas a Maceió e Arapiraca, acompanhado da liderança local Alfredo Gaspar (PL-AL), deputado que é seu vice na chapa, apesar do palanque esvaziado pela ausência do candidato ao governo JHC (PSDB-AL) e ao Senado Arthur Lira (PP-AL). Fez agendas também no Ceará e em Pernambuco, historicamente associados a Lula e onde não contou com palanque forte de candidatos a cargos majoritários, como Ciro Gomes (PSDB) — apesar de o acerto regional ter sido o pivô do racha público com Michelle. Nestes casos, a meta é desgastar o rival o suficiente para encolher a vantagem petista e evitar que as votações locais pendam o saldo nacional em favor de Lula.
— Ao invés de discutir eleição, está todo mundo discutindo STF, e isso é bom para o Flávio. Lula entrou como favorito na disputa, por ter a máquina, mas ficou engolfado nas crises que foram surgindo. O Flávio entendeu que precisava compensar a falta de estrutura com mais contato com estados-chave, sobretudo no Sudeste e, não menos importante, no Nordeste, para beliscar votos — afirma Grin.
Flávio também foi a Boa Vista (RR) e Belém (AM), no Norte do país, onde o oponente pisou na função de presidente, para celebrar no Amapá a descoberta de petróleo na Foz do Amazonas.
A dimensão financeira do primeiro mês refletiu prioridades estratégicas distintas. Conforme o que foi declarado, a campanha de Lula arrecadou R$ 41,10 milhões — dos quais 97% vieram do Fundo Partidário do PT — e declarou R$ 65,67 milhões em despesas contratadas. A prioridade quase absoluta dos gastos petistas foi o marketing tradicional e a comunicação de massa: a produtora Delta3 Comunicação concentrou R$ 31 milhões, o equivalente a cerca de 47% de todo o orçamento declarado pelo comitê. A infraestrutura de eventos e produção audiovisual também consumiu fatia expressiva.
Já a campanha de Flávio Bolsonaro obteve uma arrecadação maior no período, R$ 48,48 milhões (com 95% oriundos da Direção Nacional do PL), e registrou despesas contratadas de R$ 55,71 milhões. Os investimentos do candidato do PL focaram na estruturação de planejamento e engenharia digital: a F.A.R.O. Propaganda e Publicidade recebeu R$ 13,1 milhões para assessoria e marketing político, enquanto a Paranoá Digital ficou com R$ 5 milhões para a gestão de redes e produção de vídeos.
Raro ponto de convergência se deu na figura do gaúcho Erasmo Carlos Battistella, maior doador pessoa física para ambas as campanhas. Foram cotas idênticas de R$ 500 mil tanto para o comitê de Lula quanto para o de Flávio. O empresário é fundador e CEO da Be8, uma das maiores produtoras de biodiesel do país.

Lula x Flávio: em 1º mês de campanha, rivais percorrem mapa parecido, mas têm estratégias opostas

Autor

BRCOM