O Dia de Finados, celebrado em 2 de novembro, costuma ser marcado por visitas a cemitérios, flores, velas e homenagens a pessoas que morreram. Para quem perdeu um animal de estimação, porém, nem sempre há espaço para expressar a saudade. Embora a morte de um cão ou gato possa representar uma perda significativa para seus tutores, esse sofrimento ainda é frequentemente minimizado ou tratado como menos legítimo.
Entenda: Por que o termo ‘mãe de pet’ ainda divide opiniões
Pets como filhos? O que mudou na forma de cuidar da saúde animal
Na psicologia, esse fenômeno é chamado de luto não reconhecido, conceito que se refere a perdas que não recebem validação social. A morte de um animal de estimação é um dos exemplos descritos pela literatura científica, explica a psicóloga Juliana Sato, especialista em vínculo humano-animal e luto pet.
Quando a perda de um pet é minimizada
A dimensão desse sofrimento aparece em uma pesquisa publicada em janeiro de 2026 na revista “PLOS One”. Conduzido pelo psicólogo Philip Hyland, da Universidade de Maynooth, na Irlanda, o estudo ouviu 975 adultos do Reino Unido. Entre os participantes que já haviam perdido tanto um animal de estimação quanto uma pessoa próxima, 21% apontaram a morte do pet como a perda mais dolorosa que viveram.
“O achado mais importante, porém, é outro: os sintomas de luto prolongado se organizaram da mesma maneira, fosse a perda de um animal ou de um ser humano. Mesmo assim, os manuais diagnósticos usados no mundo todo, a CID-11 e o DSM-5-TR, só admitem o diagnóstico de transtorno do luto prolongado após a morte de uma pessoa. O autor defende que essa regra seja revista”, observa Juliana.
A influência das crenças na experiência do luto
A morte de um animal também pode despertar dúvidas sobre o que acontece depois da vida. A maneira como cada tutor lida com essa questão depende de suas crenças e pode fazer parte da experiência de enfrentamento da perda.
Uma revisão sistemática que reuniu 36 estudos sobre o vínculo entre tutores e animais após a morte, publicada na revista “Omega”, identificou associações entre essas crenças e a elaboração do luto. Em uma pesquisa italiana incluída na análise, acreditar que existe vida após a morte também para os animais esteve associado a uma elaboração mais tranquila. Já a crença de que esse destino é reservado apenas aos seres humanos apareceu relacionada a um sofrimento mais intenso.
Outros trabalhos registraram relatos de tutores que sentiram culpa ao imaginar que o animal estaria em um lugar ruim ou que eles próprios estariam sendo punidos pela perda.
“Não existe uma crença correta para atravessar o luto. Existe a necessidade de que a pergunta sobre o destino do animal seja escutada, em vez de respondida às pressas com um era ‘só um bicho’ ou com uma promessa vazia”, afirma a psicóloga.
Como preservar a lembrança do animal
A relação afetiva com o animal pode continuar mesmo depois da morte. Na literatura, esse fenômeno é chamado de vínculos contínuos e se manifesta em diferentes experiências, como a criação de memoriais e os sonhos.
Segundo Juliana, essas manifestações podem ajudar alguns tutores a lidar com a ausência, mas também podem intensificar o sofrimento quando estão associadas à culpa ou a aspectos dolorosos da convivência.
“Rituais, memoriais, lembranças e até sonhos ajudaram tutores a se sentirem menos sozinhos. Quando o vínculo se organiza em torno da culpa ou dos aspectos dolorosos da relação, o sofrimento tende a aumentar”, pontua.
No Dia de Finados, acender uma vela, visitar o local onde estão as cinzas ou escrever uma carta são algumas maneiras de prestar uma homenagem ao animal.
“Quando a saudade, depois de meses, continua impedindo a pessoa de trabalhar, dormir ou conviver, é hora de procurar ajuda profissional. Os profissionais também têm responsabilidade nesse caminho: a revisão aponta que reações de veterinários e profissionais de saúde que minimizam o vínculo do tutor podem piorar o luto”, conclui.
Luto por pets: por que a dor da perda ainda é pouco reconhecida?
