O dono da MCK Reformas e Construções, nunca tinha trabalhado para o poder público quando, no fim de 2024, conheceu um homem numa igreja em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, que lhe perguntou se queria participar de licitações. Marcos José Mendes Ferreira, o alvo, respondeu que sim, entregou a documentação da empresa e, pouco mais de um mês, soube que tinha vencido uma concorrência para reformar o Colégio Estadual Baltazar Bernardino, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio. Não tinha feito proposta nem orçamento, e nunca tinha ido sequer à escola. A empresa foi o principal alvo de uma operação do Ministério Público fluminense (MPRJ) e da Polícia Civil que apura desvios de verbas usadas em reformas de escolas estaduais. A ex-secretária de Educação Roberta Oliveira também é investigada.
Cifra bilionária: Dez empresas concentram um terço das contratações sem licitação na reforma de escolas pelo Governo do Estado
Na mira do MP: Ex-secretária de Educação do governo Castro é alvo de operação que mira contratos de R$ 1,6 bi para reformas de escolas no Rio
O relato está no depoimento que Marcos prestou à Polícia Civil em 16 de janeiro, horas depois de ser abordado com R$ 500 mil numa sacola plástica, ao sair de uma agência bancária em Duque de Caxias. O documento integra o pedido de busca e apreensão e de quebra de sigilo telemático que o procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, enviou ao Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio.
O homem da igreja, o estranho, era Fábio Martins Pereira. Segundo Marcos, depois de vencida a disputa para a reforma do colégio de Niterói, os dois foram juntos à escola para que ele visse o serviço e calculasse o preço. Marcos orçou a reforma completa em R$ 720 mil. Fábio então explicou que ele tinha ganhado por um valor maior e que, quando o dinheiro caísse na conta, a diferença deveria ser repassada a ele.
Alvo: Saiba quem é Roberta Oliveira, ex-secretária de Educação aliada de Bacellar que é alvo de operação do MP e da Polícia Civil
A MCK acabou contratada para cerca de 15 obras em escolas estaduais, somando aproximadamente R$ 6 milhões. Pelas contas de Marcos, R$ 2 milhões foram gastos nas obras e R$ 4 milhões ficaram com Fábio. O empresário disse que a conta da MCK no Bradesco de Duque de Caxias era controlada integralmente por Fábio, que decidia até quando fazer os saques. Um contador ligado a Fábio cuidaria da papelada.
Os levantamentos da polícia e dos promotores, no entanto, chegaram a valores mais elevados que os relatados pelo sócio-administrador da MCK em depoimento. Somados os processos de contratação encontrados em fontes abertas e os enviados depois pela Secretaria estadual de Educação (Seeduc), a MCK recebeu R$ 19,8 milhões em 2025.
Um relatório do Comitê de Inteligência Financeira da Polícia Civil calculou que, dos R$ 11,8 milhões de dinheiro público que entraram nas contas da empresa naquele ano, 82,9% foram sacados em espécie. Ao banco, Marcos justificava os saques como pagamento de funcionários. Quando o gerente sugeriu abrir contas-salário, ele recusou e disse que os empregados exigiam receber em dinheiro. A MCK funciona num endereço residencial em Del Castilho e não tem nenhum funcionário registrado.
Violência: Homem morto a tiros dentro de BRT era gerente de farmácia e estava a caminho do trabalho quando foi atingido
Três concorrentes, uma contadora
As contratações passavam pelas Associações de Apoio às Escolas (AAEs), entidades privadas ligadas a cada unidade da rede. Pela lei estadual, o dinheiro que a secretaria repassa a elas serve para pequenos reparos e obras emergenciais, contratados por um rito simplificado, com três orçamentos. Nos casos da MCK, havia contratos acima de R$ 2 milhões cada.
A polícia analisou os processos e encontrou o mesmo padrão em quase todos: a MCK vencia porque as outras empresas eram desclassificadas por não entregarem documentos. Nas poucas disputas que a MCK perdeu, ela própria foi inabilitada por não apresentar certidões do FGTS e de falência, papéis que tinha entregado nos processos que ganhou. Para os investigadores, isso é “forte indício de conluio prévio”.
Em dois desses processos, a mesma contadora, Marize Milanez de Paula, assinou os balanços e os índices financeiros da MCK e das empresas que concorriam com ela. Nos autos também não há explicação de como as concorrentes eram escolhidas. Depois da contratação, a MCK entregava um relatório de fotos da obra pronta, e às vezes nem isso, segundo relatório do Ministério Público. A polícia não encontrou nenhuma vistoria da coordenadoria de engenharia da secretaria que atestasse a conclusão dos serviços.
Ex-policial militar: Integrante do Escritório do Crime é condenado pela morte de desafeto do capitão Adriano da Nóbrega
Rota desviada
Parte do dinheiro seguia outro caminho. Entre janeiro e agosto de 2025, a MCK transferiu R$ 1,8 milhão para a Virtual Rio Construtora, de Fábio, que tem capital social de R$ 10 mil e funciona numa sala comercial no Méier dividida com outras duas empresas. A Virtual Rio sacou cerca de 86,7% do que recebeu. Em 28 de março de 2025, recebeu R$ 500 mil da MCK e sacou tudo no mesmo dia. Em agosto daquele ano, comprou oito casas em Duque de Caxias por R$ 400 mil. Marcos, a mulher dele e Fábio receberam auxílio emergencial em 2020 e 2021, segundo o relatório do MPRJ, com atribuição criminal originária do procurador-geral de Justiça.
Em janeiro, o Coaf avisou a polícia que a MCK tinha pedido ao banco dinheiro em espécie para dois saques: R$ 350 mil no dia 15 e R$ 500 mil no dia 16. No segundo dia, os policiais da Coordenadoria de Investigação de Agentes com Foro (Ciaf), da Polícia Civil, que atua em parceria com o MPRJ, estavam na porta da agência. Marcos saiu com o dinheiro e entrou numa Toyota Hilux dirigida pelo PM André Luiz Silva Fernandes, que tinha uma pistola 9mm e 83 balas. O PM contou que Fábio, seu amigo de bairro, pediu que ele acompanhasse o Barba na saída do banco e o levasse até um posto na Rodovia Washington Luis, em Duque de Caxias. Ele contou ainda que já tinha feito isso outras vezes.
Biblioteca dos saberes: Projeto internacional vizinho ao Sambódromo ganha fôlego e promete mudar a Praça Onze
A caminhonete está em nome de Yan Lopes Fonseca Ormonde André. Ele é irmão do capitão do Corpo de Bombeiros Yurie Lopes Fonseca Ormonde André, que vive com a filha da ex-secretária de Educação, Roberta Barreto de Oliveira, da gestão do ex-governador Cláudio Castro. O PM é sócio do pai dos dois irmãos numa empresa que funciona no mesmo endereço de uma padaria que já pertenceu a Yurie. Na Hilux, os policiais acharam comprovantes de depósitos fracionados em dinheiro na conta dessa padaria. O cunhado de Fábio mora em frente à casa de Roberta, em Duque de Caxias.
Foi por essas ligações que o caso passou para a coordenadoria que investiga autoridades com foro. Para o MP, “o destino final dos valores desviados” eram pessoas ligadas diretamente à ex-secretária, cujas origens são no município de Duque de Caxias. Todas as notas de empenho dos repasses que pagaram a MCK foram assinadas por ela. O ordenador de despesas que autorizou a maior parte dos pagamentos, David de Andrade Marinho Filho, outro capitão do Corpo de Bombeiros, foi nomeado por Roberta e é colega de turma de Yurie na corporação.
O levantamento patrimonial não encontrou crescimento relevante nos bens de Roberta. No entanto, o de Yurie, segundo a polícia, chega a R$ 32,2 milhões, contra R$ 571 mil em salários públicos entre 2024 e 2026.
Um homem foi preso: Turista mexicano é morto após tentar impedir fuga de ladrões na Pedra do Sal
Initial plugin text
Milhões desviados, dinheiro na sacola, falta de documentação: veja o que revelou dono de empresa envolvido em esquema de obras em escolas do RJ
