Após premiar o húngaro László Krasznahorkai no ano passado, o Nobel de Literatura em 2026 deve ir para um autor não europeu, segundo críticos literários consultados pela AFP. As deliberações do júri e a lista de indicados são mantidas em sigilo há 50 anos. Por isso, todos os anos ocorre um jogo de adivinhação nos círculos literários suecos. Desta vez, especialistas apostam em algumas escritoras latino-americanas entre as favoritas, entre elas Samanta Schweblin e Cristina Rivera Garza.
Lina Kalmteg, da rádio pública sueca SR, acredita que já é hora de reconhecer alguma autora de língua espanhola de um país latino-americano. “Nos últimos anos, falou-se muito sobre o ‘milagre literário latino-americano’, essa nova geração que sucedeu autores homens adeptos do realismo mágico, como Gabriel García Márquez”, observa. “Nesse novo momento, são as mulheres que se destacam, com uma escrita muitas vezes marcada pelo feminismo, mas também, por vezes, bastante sombria e violenta, pontuada por toques surrealistas”, acrescenta.
Ela considera a argentina Samanta Schweblin, de 48 anos, uma opção interessante e surpreendente, embora “certamente ainda seja muito jovem”. Schweblin tornou-se uma das figuras mais relevantes da literatura contemporânea latino-americana com obras como “Distância de resgate”, “Sete casas vazias” e “Pássaros na boca”, que transitam entre o conto fantástico e uma narrativa de tom mais sinistro.
Também se destaca a mexicana Cristina Rivera Garza que, aos 62 anos e após mais de três décadas dedicada às letras, criou romances, ensaios e poesias que entrelaçam a ficção com a pesquisa histórica.
Seu trabalho inclui títulos como “O invencível verão de Liliana” e “Ninguém vai me ver chorar”, traduzidos para dezenas de idiomas. O vasto universo literário da América Latina não tem um laureado desde 2010, com o reconhecimento do peruano Mario Vargas Llosa.
Gesto político?
As especulações também abrem espaço para Jamaica Kincaid, escritora de 77 anos nascida em Antígua e Barbuda e radicada nos Estados Unidos. Ela é conhecida por sua obra pós-colonial que explora temas de identidade, família e cultura.
“Já está na hora de Jamaica Kincaid ganhar”, opina Victor Malm, chefe de cultura do jornal Expressen. “Ela já dá o que falar há muito tempo”, concorda seu colega Björn Wiman, editor-chefe de cultura do jornal Dagens Nyheter.
Seu romance “Lucy”, inspirado em grande parte em sua própria vida, narra a história de uma jovem que deixa o Caribe para ir aos Estados Unidos, onde trabalha cuidando de crianças. “É justamente o tipo de livro em que basta ler três linhas para dizer: ‘ok, estamos diante de um Prêmio Nobel'”, opina Wiman.
A escolha também poderia ser interpretada como um gesto político, visto que Kincaid é uma voz crítica ao presidente Donald Trump. Segundo Wiman, a Academia também poderia “se afastar um pouco” do terreno conhecido em que se manteve no ano passado com a escolha do húngaro Krasznahorkai.
Criticada por focar em autores ocidentais, a Academia Sueca — abalada por um escândalo de abuso sexual em 2018 — passou por uma profunda renovação e substituiu mais da metade de seus membros. Desde então, quase um em cada dois prêmios foi concedido a mulheres.
No entanto, elas continuam sub-representadas: dos 122 laureados, apenas 18 são mulheres. E apenas uma minoria das autoras reconhecidas escreve em línguas asiáticas ou é do Oriente Médio. Mas a instituição afirma que se concentra apenas na qualidade literária das obras que premia.
Os suspeitos de sempre
Os candidatos habituais também têm chances, como o australiano Gerald Murnane, sua compatriota Alexis Wright ou o norte-americano Thomas Pynchon. Outros nomes entraram nas especulações nos últimos anos, como a chinesa Can Xue, a alemã Jenny Erpenbeck e a vietnamita Duong Thu Huong.
Quem será o escolhido deste ano? Quem terá produzido “a obra mais notável, de inspiração idealista”, conforme estipulado no testamento de Alfred Nobel? A resposta será conhecida na quinta-feira, às 8h (horário de Brasília), com 12 milhões de coroas suecas em jogo — ou seja, US$ 1,2 milhão.
Nobel de Literatura será anunciado na quinta-feira com as atenções voltadas para autoras latino-americanas
