Pular para o conteúdo
outubro 26, 2026
BRcom
Dólar PTAXR$ 5,0371
News

O direito de viver: baile, prontuário afetivo e celebrações humanizam os cuidados paliativos em hospitais do Rio

Por · outubro 26, 2026
O direito de viver: baile, prontuário afetivo e celebrações humanizam os cuidados paliativos em hospitais do Rio


Aos 71 anos, com câncer de esôfago e sonda nasogástrica para se alimentar, Luiz Carlos Benedito não deixou que a doença fosse obstáculo para realizar um sonho. Ele pediu que um enfermeiro cortasse seu cabelo, pois queria estar alinhado para o baile charme improvisado, realizado na tarde da última quinta-feira no centro de estudos do Hospital Estadual Eduardo Rabello, em Senador Vasconcelos, Zona Oeste do Rio. Como convidado especial, curtiu o evento sentado numa cadeira de rodas. Sorria e balançava as mãos e os pés ao ritmo das músicas, comandadas pelo DJ Cleber da Silva Souza. Luzes coloridas e piscantes completavam o cenário e ajudavam a contagiar os profissionais de saúde. O som chegou às enfermarias, e outros pacientes pediram para entrar na festa.
Saúde: Hospital Miguel Couto, uma das maiores emergências do Rio, completa 90 anos
Arqueóloga: ‘Ela estava perdendo muito sangue, podia morrer’: PM que socorreu idosa baleada quebrou protocolo e levou vítima para hospital
— Olhamos mais para o doente do que para a doença — diz o diretor-geral do Eduardo Rabello, Helmer Cardoso de Mattos. — O Luiz Carlos queria ir ao Viaduto de Madureira. Como não pode ir até lá, trouxemos o baile para o hospital.
O idoso está internado desde 17 de setembro na primeira ala de cuidados paliativos da rede estadual de saúde, com 31 leitos, que começou a funcionar no fim de agosto no Eduardo Rabello — unidade geriátrica — e será inaugurada oficialmente em 9 de novembro.
A história de Luiz Carlos ilustra uma mudança na forma de enxergar a assistência a quem enfrenta enfermidades sem possibilidade de cura. Além de tratar sintomas, essa prática busca humanizar o atendimento, preservando a qualidade de vida. O envelhecimento da população torna esse suporte cada vez mais urgente: o Censo 2022 mostrou que a cidade do Rio atingiu a marca de 121,4 idosos para cada 100 crianças e adolescentes de até 14 anos, uma inversão inédita em série do IBGE.
A equipe multiprofissional que atua na ala de cuidados paliativos do Hospital Estadual Eduardo Rabello, com o diretor-geral Helmer Cardoso de Mattos (segundo à direita) e o diretor-administrativo Fábio Valle
Gabriel de Paiva
Na rede da Prefeitura do Rio, o Hospital Ronaldo Gazolla, em Acari, criou há pouco mais de um ano uma enfermaria apenas para cuidados paliativos. Lá, havia 20 doentes na semana passada, a maioria com doenças neurológicas e cardíacas. Ainda do município, o Programa de Atenção Domiciliar ao Idoso (Padi) assistiu 294 pacientes em cuidados paliativos em setembro.
Câmeras corporais de policiais: estudo indica que, no Rio, em 74,4% de casos de solicitação de imagens há ausência ou indisponibilidade de registros
Já o Instituto Nacional do Câncer (Inca) dispõe de uma unidade dedicada ao serviço desde 1998: o Inca IV, em Vila Isabel, com 56 leitos. Inca IV, Ronaldo Gazolla e Eduardo Rabello possuem ambulatório e espaços para atender familiares. Os três têm comissões multiprofissionais, que incluem médico, enfermeiro, psicólogo, assistente social, fisioterapeuta e fonoaudiólogo.
Sonho realizado: Luiz Carlos Benedito participa de baile charme em centro de estudos de hospital estadual
Gabriel de Paiva
Presidente do Sindicato dos Médicos do Rio, Alexandre Telles destaca a necessidade de levar essas iniciativas para mais unidades de saúde:
— Os serviços existentes fazem um trabalho importante, mas ainda existe um déficit.
Canja e música sertaneja
No Eduardo Rabello, parte da assistência está registrada num prontuário afetivo, afixado na parede, logo abaixo da identificação do paciente. No prontuário de Maria Inês Poliseu, de 62 anos, internada em 2 de outubro, estão pistas sobre o que lhe faz bem: a casa é seu lugar favorito; cuidar das plantas a deixa feliz; canja é sua comida preferida. Ela também gosta de música sertaneja e não torce por nenhum time. São detalhes que ajudam a equipe de saúde a enxergar a mulher para além do diagnóstico de câncer de mama, com metástase nos pulmões e nos ossos.
No dia 12, Maria Inês teve mimos. No hospital, celebrou o aniversário de 11 anos de um neto. Antes da festa, realizou outro desejo: lavar a cabeça com a ajuda do médico Abraão Benício.
— Adoro família reunida. Gosto de plantar, caminhar e comer — conta Maria Inês, que resume sua filosofia de vida: — Para ser feliz, a gente não precisa de muito.
Nova subida da Serra de Petrópolis terá túneis novos, menos curvas e tempo de viagem reduzido; veja os detalhes
Mas nem todas as vontades podem ser realizadas. O diretor administrativo Flávio Valle lamenta não ter conseguido levar ao hospital o Fusca de estimação de um paciente. Mecânico, Valle havia combinado com o filho do doente que providenciaria o conserto do carro, que não andava:
— Infelizmente, ele faleceu antes.
Um dos casos que marcaram o Inca IV foi o de Idalina Oliveira da Silva, a Vavá. Apaixonada por cozinhar, ditava receitas a funcionários do hospital e manifestou o desejo de reuni-las num livro. O Delícias da Vavá foi lançado em julho do ano passado, como uma homenagem póstuma.
Capa do livro Delícias da Dadá, com receitas de paciente do Inca
Reprodução
Em vida, Mônica Mello dos Santos de Paula, a cantora Mônica Menescall, de 56 anos, teve um sonho realizado. No último dia 2, participou do Pagode de Mônica, ao lado de familiares e amigos, enquanto funcionários do Inca IV estavam na plateia. Mesmo usando oxigênio, ela cantou. Morreu 17 dias depois.
— Minha prima foi embora, mas feliz — afirma Adriana dos Santos Lessa.
Responsáveis por cuidados paliativos destacam que os doentes não podem ser tratados como terminais, mesmo porque vários não o são.
— Nossos pacientes que precisam fazem rádio, químio, cirurgias, acompanhamento em ambulatório. Para os que não podem se locomover, temos serviço de assistência domiciliar — explica Renata de Freitas, diretora do Inca IV.
A preocupação com o acolhimento também se reflete no ambiente. O Inca IV instalou um aquário na recepção do ambulatório e espalhou quadros pelos andares. No terraço, pinturas de Toz Viana dão cor ao espaço. Há ainda uma sala do silêncio, dedicada à reflexão. Thayná Britto Felisberto, de 29 anos, esteve no terraço com o pai, Carlos Antônio Felisberto, na véspera de receber alta, na semana passada, depois que uma infecção foi controlada.
— Vou abrir um delivery de comida e colocar um trailer na porta de casa — planeja Thayná, com câncer do colo de útero que evoluiu para uma fístula no intestino, obrigando-a a usar bolsa de colostomia.
Realidade virtual
No Ronaldo Gazolla, o diretor Sarmane de Matos Dias e a médica paliativista Flávia Menezes, chefe da enfermaria de cuidados paliativos, estudam a implantação de atividades de musicoterapia e de experiências de realidade virtual, com o uso de óculos especiais.
A equipe também tem história de desejo realizado. Em junho, Alexandro Moreira, de 48 anos, oficializou no hospital o casamento com Carmen Lúcia Braga, com quem mantinha um relacionamento havia 14 anos. Com doença pulmonar obstrutiva crônica, ele ficou internado por quase um ano e recebeu alta em julho.
Casamento: troca de alianças, buquê de flores de papel e juíza de paz durante internação de Alexandro Moreira no Hospital Municipal Ronaldo Gazolla
Divulgação/Hospital Municipal Ronaldo Gazolla
Na enfermaria especial, a maioria dos pacientes não tinha acompanhante na última quinta-feira. Ercília Ribeiro de Lima, de 87 anos, era uma exceção. Com Alzheimer, diabete e uma perna amputada, tinha ao lado de sua cama a filha Derli de Lima da Silva, que se reveza com cinco irmãos:
— Enquanto ela tiver respirando, estaremos aqui.
Veja algumas histórias
A pedido, médico lavou cabelo de paciente
O médico Abraão Benício acaricia a cabe paciente Maria Inês Poliseu: ela pediu que o profissional lavasse seu cabelo antes do aniversário do net
Gabriel de Paiva
O médico Abraão Benício ao lado de Maria Inês Poliseu, internada na nova ala de cuidados paliativos do Hospital Estadual Eduardo Rabello. Ela pediu para o médico lavar seus cabelos antes da festa de aniversário de 11 anos do neto, que mora em Campo Grande com ela, após a morte de uma filha, de câncer.
Sonho de montar negócio de comida
A paciente Thainá Britto Felisberto com o pai Carlos Antônio Alípio Felisberto, no terraço do Inca IV
Gabriel de Paiva
Thayná Britto Felisberto e o pai Carlos Antônio, no terraço do Inca IV. Com um filho de 8 anos, a jovem conta que passou dez meses sangrando e com dores, e levou mais de um ano após o início dos sintomas até ser encaminhada ao Inca. Tem câncer do colo de útero e fístula no intestino. Sonha em montar delivery e trailer de comida em frente a sua casa, em Nilópolis.
Revezamento para cuidar da mãe
No Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, Derli de Lima da Silva cuida da mãe Ercília Ribeiro de Lima
Gabriel de Paiva
Moradora da Fazendinha, no Complexo do Alemão, Ercília Ribeiro de Lima, é cuidada pela filha Derli de Lima da Silva. Ela reveza com cinco irmãos a assistência à mãe, internada na enfermaria de cuidados paliativos do Hospital Municipal Ronaldo Gazolla. Segundo Derli, Ercília perdeu benefício do INSS por não poder fazer prova de vida.
Initial plugin text

O direito de viver: baile, prontuário afetivo e celebrações humanizam os cuidados paliativos em hospitais do Rio