De graça, até injeção na testa. Um velho e sinistro provérbio brasileiro que tem muitas versões, revelando a paixão nacional por uma boca livre, seja qual for a boca, desde que livre.
A sensação de estar levando vantagem remete à Lei de Gérson, outro clássico nacional, comendo e bebendo de graça, mesmo com a bebida e a comida ruins, mesmo que pudesse pagar por isso. Não são os mais necessitados, mas os ricos os que mais gostam de bocas livres. No Rio de Janeiro, os “ricos e famosos”, seja lá o que isso for na hierarquia carioca, sentem-se ofendidos se não forem convidados a ver de graça o show que poderiam pagar com uns trocados. Ou não vão.
Em Salvador, é difícil vender as lotações dos shows antecipadamente. Porque o pessoal espera até o último momento que um amigo de um amigo, ou Iemanjá, consiga-lhe um convite. E, em último caso, compra o ingresso.
Não sei se em outros países existe essa voracidade vocacional para uma boca livre, essa paixão por ganhar algo sem pagar, mas no Brasil é um traço característico da identidade nacional, um estilo de vida baseado na filosofia macunaímica de que a vida é uma grande boca livre. Mas ninguém gosta mais de uma boca livre do que políticos brasileiros e, agora, ministros do STF. Desde uma bandeja de brigadeiros e guaraná em copos de plástico até um jatinho de porta a porta para degustar uísques e charutos raros, e, eventualmente, até garotas de programa suíças, tudo de graça. Por amizade, brodagem, simpatia, aparentemente, mas, na real, suborno, jabá, serviços prestados ao generoso anfitrião.
Mas, assim como o almoço, não existe boca livre de graça. Alguém está pagando aquela conta, e não é por filantropia. Um caso de paixão é o ministro Dias Toffoli ganhando uma boca livre aérea de jatinho e entradas nos melhores lugares para ver o Palmeiras perder em Lima, junto com um advogado de Vorcaro, com alguém pagando aquela conta por algum motivo. E certamente não é por amor ao garboso ministro.
E todos aqueles políticos, e juízes, e procuradores, vão a bocas livres de “fóruns jurídicos” com passagens de primeira classe e hotéis cinco estrelas, desde que sejam em Londres, Nova York ou Lisboa.
Se fossem em Assunção, Cochabamba ou Kinshasa, não iria ninguém. Claro, tudo que foi discutido naqueles “fóruns” internacionais com boca livre total poderia ter sido em Piracicaba, Palmas ou São Paulo, mas aí não teria graça, embora fosse de graça.
Será que esses caras não têm vergonha de dizer para as famílias que vão para uma bocada dessas? Claro que não, as famílias se beneficiam e apoiam as ladroagens do seu chefe. Eles são o que Roberto Athayde chama de “alta ralé”, são os tubarões pescados com as iscas das bocas livres, com bandidos segurando as varas e pagando a conta da pescaria.
O problema é que muitas vezes a boca livre sai cara, cobrando um alto preço pela generosidade recebida, como se está vendo no caso de Daniel Vorcaro, o maior promotor de bocas livres de alto nível no Brasil recente.
O preço da boca livre
De graça, até injeção na testa. Um velho e sinistro provérbio brasileiro que tem muitas versões, revelando a paixão nacional por uma boca livre, seja qual for a boca, desde que livre. A sensação de estar levando vantagem remete à Lei de Gérson, outro clássico nacional, comendo e bebendo de graça, mesmo com a bebida […]