Com a derrota do Corinthians para o Estudiantes, não foi este ano que a Libertadores teve uma semifinal 100% brasileira. Mas o resultado não altera em nada o cenário de domínio verde e amarelo na competição. Para onde olha, o clube argentino se vê cercado. Depois de passar por Memphis Depay e cia., medirá forças com o Flamengo. E, se for à decisão, enfrentará Palmeiras ou Fluminense. Longe de ser exceção, o desenho da reta final segue uma regra.
A Libertadores de 2019 representa um marco. Não “só” porque, de lá para cá, todos os campeões foram brasileiros. A hegemonia do país se reflete nas finais e até na fase anterior. Das 28 vagas de semifinalistas entre 2019 e 2025, 17 foram ocupadas por brasileiros. Isso sem contar a edição atual, ainda em andamento, com três times do país.
Das vagas restantes, a maioria é da Argentina, com oito semifinalistas. Os times do Equador apareceram duas vezes. E os do Uruguai, uma. Na decisão, o domínio é ainda mais gritante. Foram 12 finalistas de um total de 14. Só os argentinos River Plate, em 2019, e Boca Juniors, em 2023, furaram a bolha.
Ao olhar para trás, a mudança na distribuição de forças fica mais nítida. De 2012 a 2018, o Brasil emplacou oito dos 28 semifinalistas. Um a menos que a Argentina. Juntos, os dois países foram responsáveis por 17 vagas nas semifinais, mesmo número ocupado só pelo Brasil no recorte de 2019 a 2025. As demais foram preenchidas por times de Paraguai, Equador, Colômbia, Uruguai, Bolívia, Chile e México.
Times por país nas semifinais da Libertadores de 2012 a 2025
Arte
De 2012 a 2018, os argentinos frequentaram mais a decisão: foram seis dos 14 finalistas (e três campeões). O Brasil só emplacou três — e todos venceram. Neste período, Paraguai, Equador, México e Colômbia também tiveram times na final, o que mostra como a briga pelo título era mais viável.
Isso não significa que o troféu da Libertadores sempre foi acessível. De 1964 a 1978, o torneio foi dominado pelos argentinos, que venceram 12 das 15 edições. Foi nessa época que os hermanos atingiram sua maior sequência de finais: 17 anos seguidos (1963 a 1979).
Trata-se, porém, de momentos diferentes da competição. Ao longo do período de domínio argentino, o torneio — e o próprio futebol — tinha proporções menores. Teve um representante por país até 1966, quando passou para dois. E não gozava de tanto prestígio. O Brasil, por exemplo, deixou de enviar participantes em três ocasiões (1966, 1969 e 1970).
Aumento do número de participantes influencia
Já a atual hegemonia verde e amarela ocorre com a Libertadores consolidada. O número de participantes mais que dobrou (47), o que levou o torneio a ser estendido ao longo de todo o ano. Com receitas milionárias de transmissão e patrocínios, virou a menina dos olhos de clubes e torcedores. E é justamente esse contexto de mercado que explica o domínio brasileiro.
— O impacto esportivo é basicamente um efeito, e não a causa — diz Michel Mattar, diretor para a indústria de esporte na EY. — Você pode colocar a questão regulatória, a reestruturação de alguns dos principais clubes e o próprio dinamismo do mercado brasileiro frente a outros. São mercados que enfrentaram crises econômicas na região, além da própria questão cambial. Isso tudo explica muito essa diferença. Sem dúvida que o Brasil é maior que a soma de vários mercados da região.
O fortalecimento financeiro dos clubes se deu de duas formas. Uma, com Flamengo e Palmeiras, que se reestruturaram e maximizaram suas receitas. A outra, a partir da lei das SAFs, que permitiu a entrada de dinheiro novo. Mas há outros fatores.
A entrada das bets no mercado publicitário, elevando os valores pagos por patrocínio, também entra na conta. Assim como a explosão dos contratos de TV a partir da lei do mandante, da entrada dos streamings e da criação dos blocos de clubes.
Uma comparação mostra a disparidade entre o mercado brasileiro e o do restante do continente. Enquanto os direitos de TV do Brasileirão renderam um total de R$ 2,7 bilhões aos clubes no ano passado, o contrato do Campeonato Argentino paga 120 milhões de dólares por ano (R$ 618,8 milhões).
Nas outras ligas, a diferença é ainda maior. No Chile, os direitos de transmissão valem, ao todo, cerca de 85,6 milhões de dólares anuais (R$ 441,4 milhões). No Uruguai, 67,5 milhões de dólares (R$ 337,6 milhões). E, na Colômbia, 55 milhões de dólares (R$ 283,6 milhões).
— O futebol brasileiro já vinha dando sinais de dominância desde a década anterior. Agora ficou mais claro. A questão econômica faz diferença, e o aumento da Libertadores gerou esta distorção — opina Cesar Grafietti, economista da consultoria Convocados, referindo-se ao crescimento do número de vagas (hoje são sete para o Brasil). — Quando tínhamos menos clubes, havia a chance de se cruzarem antes. Hoje, a força financeira, associada à fragilidade do futebol de outros países, facilita a vida dos brasileiros.
Porém, este domínio passa uma ideia de homogeneidade de forças dentro do país que não existe. Das 17 participações brasileiras em semifinais entre 2019 e 2025, nove foram de Palmeiras e Flamengo. A dupla também responde por sete das 12 presenças em finais (duas vezes um contra o outro) e cinco dos sete títulos.
— Se olharmos para o Brasileirão e Copas veremos que ali também existe a predominância de poucos clubes. Não é particularidade da Libertadores. É reflexo da concentração de recursos em poucos players — analisa Mattar.
Há risco para futuro?
Não se pode dizer que o cenário seja um problema para a Conmebol. A entidade tem registrado aumentos nas receitas com patrocinadores e, principalmente, direitos de transmissão. Até porque, pelas dimensões continentais e economia mais forte, o Brasil concentra os maiores mercados e audiências. Mas é preciso ligar o alerta para o longo prazo.
— Imagina se a América espanhola fala: “Vamos criar uma liga à parte”. Sei que parece absurdo falar isso em 2026. Mas, no longo prazo, pode acontecer. Alegarem que não há mais competitividade na Libertadores — alerta Mattar. — Agora, o que fazer é que é o debate. Porque a Conmebol não é uma liga, que pode discutir distribuição mais equilibrada de recursos ou criar regulamentações. A disparidade econômica entre países é algo totalmente fora do controle dela. A única coisa que vejo ao alcance é o fomento ao desenvolvimento regional, porque é uma verba discricionária. Mas o impacto pode ser que se veja só daqui a dez anos.
O que explica a soberania do Brasil na Libertadores e quais os impactos para o futuro
Com a derrota do Corinthians para o Estudiantes, não foi este ano que a Libertadores teve uma semifinal 100% brasileira. Mas o resultado não altera em nada o cenário de domínio verde e amarelo na competição. Para onde olha, o clube argentino se vê cercado. Depois de passar por Memphis Depay e cia., medirá forças […]