Um dos resultados mais surpreendentes das eleições realizadas em Israel na terça-feira foi o desempenho excepcionalmente forte de dois dos principais partidos árabes, cujos eleitores compareceram às urnas em números recordes para expressar sua oposição ao governo do primeiro-ministro israrelense, Benjamin Netanyahu.
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Os resultados finais ainda não foram anunciados, mas uma série de pesquisas de boca de urna realizadas por emissoras israelenses sugere que dois desses partidos — a Lista Árabe Unida, ou Raam, socialmente conservadora, e a Lista Conjunta, de esquerda — podem ter conquistado 17 cadeiras no Parlamento, número historicamente elevado e que pode dar a eles um papel importante na formação do próximo governo do país.
Mansour Abbas, líder do Raam, afirmou em entrevista que o comparecimento às urnas mostrou que os eleitores árabes, que representam cerca de 20% da população de Israel, transformaram sua “frustração e desespero” em “esperança”. Ele disse que queria substituir o governo de Netanyahu “de todas as maneiras possíveis” e que sua primeira prioridade era “garantir que haja possibilidade de formar um governo” capaz de alcançar esse objetivo.
O forte desempenho dos partidos árabes pode colocá-los na posição de fiéis da balança. Mas a formação de uma coalizão governista com participação árabe continua sendo uma tarefa delicada em Israel. Muitos judeus israelenses acreditam que uma maioria parlamentar não deveria depender do apoio de deputados árabes.
— Quem quiser oferecer uma alternativa real e autêntica ao governo de Netanyahu, cujas mãos estão manchadas de sangue, deve nos procurar e abrir caminho para a mudança — disse Yussef Jabareen, líder da Lista Unificada, à imprensa israelense nesta quarta, acrescentando que as legendas de oposição precisam reconhecer o papel dos árabes na construção de uma alternativa.
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Ahmad Tibi, líder de um dos partidos árabes que integram a Lista Conjunta, também afirmou que o bloco de oposição poderia tirar Netanyahu do poder e formar um governo “se quiser e tiver coragem suficiente para isso”. Na sede da Lista Árabe Unida, o clima era de comemoração durante a madrugada desta quarta-feira, com o líder da legenda, Mansour Abbas, celebrando o desempenho.
— Estamos aqui, não estamos à margem — declarou Abbas.
Por sua vez, o líder do partido Democratas, Yair Golan, pediu que os integrantes da oposição superem a resistência a uma aliança com os partidos árabes para substituir o premier. Golan foi o primeiro líder de uma legenda do bloco de Eisenkot a se manifestar sobre os resultados, defendendo que “qualquer pessoa que tente apagar os votos dos cidadãos árabes está se rendendo a Netanyahu e desistindo de Israel”:
“Não temos futuro aqui se não deixarmos de ter medo. E se não acabarmos com o racismo. Não podemos mais aceitar a distinção racista que Netanyahu faz entre votos de judeus e árabes”, escreveu Golan no X. “Temos maioria. Temos uma responsabilidade. E temos a oportunidade de formar um governo de mudança em parceria com os cidadãos árabes de Israel. Agora precisamos de coragem [para] agir”
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‘Cidadãos de segunda classe’
A maioria dos cidadãos árabes é descendente de palestinos que permaneceram em suas casas durante a guerra árabe-israelense de 1948, na época da independência de Israel. Atualmente, eles vivem, em sua maioria, em cidades separadas das habitadas por judeus israelenses e enfrentam violência e políticas habitacionais discriminatórias.
Ao longo das décadas, divergências, inclusive sobre a natureza de Israel como Estado judeu, levaram muitos eleitores árabes a se absterem de votar. Nesta semana, porém, muitos eleitores árabes disseram estar furiosos com Netanyahu devido ao tratamento dispensado aos palestinos na Cisjordânia e em Gaza e às políticas que, em sua avaliação, tratam os palestinos que vivem em Israel como cidadãos de segunda classe.
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De fato, ao longo de toda a campanha, Netanyahu fez apelos explícitos ao preconceito contra os árabes. O primeiro-ministro premier fez alertas inflados sobre a elevada participação desse eleitorado e insinuou, sem provas, a ocorrência de irregularidades em seções eleitorais de regiões árabes. O chefe do Shin Bet, a agência de segurança interna de Israel, disse que a votação estava segura.
— Estou muito otimista porque as pessoas entendem que esta não é uma eleição como as outras. Queremos mudanças — disse Kholoud Al-Zeinati, de 39 anos, eleitora árabe-israelense que votou na terça-feira em Lod, cidade de população mista, judaica e árabe, onde longas filas se formaram nos locais de votação. — Porque nós, como comunidade árabe, somos a comunidade que paga o preço mais alto em tantos aspectos da vida. Espero que nossos votos sejam realmente decisivos.
Dos dois partidos árabes que tiveram bom desempenho na terça-feira, apenas o Raam já integrou uma coalizão governista. Isso aconteceu em 2021, quando o partido entrou na coalizão anti-Netanyahu, de curta duração, liderada pelo então premier Naftali Bennett. A participação do Raam naquele governo provocou indignação entre muitos eleitores judeus de direita e, quando a coalizão entrou em colapso, após aproximadamente um ano, eles apoiaram Netanyahu, que acabou formando o governo mais radical de direita da história de Israel.
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Após a divulgação dos resultados oficiais e a distribuição das cadeiras entre os partidos, caberá ao presidente Isaac Herzog convidar o líder político que considerar mais capaz de formar uma coalizão majoritária. Embora o Likud apareça como a maior legenda, Herzog não é obrigado a conceder a Netanyahu a primeira oportunidade de formar governo.
Caso nenhum dos blocos consiga reunir os 61 parlamentares necessários, Israel poderá enfrentar semanas de negociações e até uma nova eleição no início do próximo ano. Nesta quarta, Herzog instou os partidos de Israel a fazerem tudo o que estiver ao alcance para evitar uma nova rodada de eleições. Ele afirmou que iniciaria as consultas na próxima semana sobre a concessão do mandato para formar um governo e disse esperar que os líderes “viessem com a mente aberta”.
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