Pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) identificaram que pequenas estruturas liberadas pelo tecido adiposo de pessoas com obesidade podem alterar o comportamento de células de câncer de mama em laboratório. Os experimentos apontaram mudanças na multiplicação, na movimentação e na capacidade de invasão das células tumorais, ajudando a investigar mecanismos envolvidos na relação entre obesidade e progressão da doença.
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O trabalho é coordenado pela professora Mariana Renovato Martins, do Instituto de Biologia e coordenadora do Laboratório de Inflamação e Metabolismo da UFF, em colaboração com pesquisadores da Uerj e da UFRJ. A equipe estuda as vesículas extracelulares, estruturas que transportam moléculas entre as células e podem modificar o funcionamento daquelas que as recebem.
Para investigar os efeitos, os pesquisadores isolam essas estruturas de amostras de tecido adiposo humano coletadas durante cirurgias, com consentimento dos participantes e aprovação ética. Em seguida, colocam as vesículas em contato com células tumorais cultivadas em laboratório e comparam as respostas às partículas provenientes de pessoas com e sem obesidade.
Em estudo publicado em 2020 na revista Endocrine-Related Cancer, os pesquisadores observaram aumento da multiplicação de duas linhagens de células tumorais expostas às vesículas do tecido adiposo de pessoas com obesidade. Em uma delas, a MDA-MB-231, que apresenta características de maior agressividade, também houve aumento da migração e da invasão celular.
Já em artigo publicado em 2025 na revista Frontiers in Oncology, o grupo investigou a participação da leptina, hormônio produzido pelo tecido adiposo. Ao bloquear o receptor dessa molécula, os pesquisadores conseguiram reverter determinados efeitos das vesículas, incluindo o aumento da migração e da invasão em uma das linhagens estudadas.
A equipe também identificou alterações no metabolismo das células tumorais, relacionadas ao uso de ácidos graxos, componentes das gorduras, como fonte de energia. Os resultados indicam que as moléculas transportadas pelas vesículas podem influenciar tanto a comunicação entre as células quanto a maneira como elas utilizam nutrientes.
— O tecido adiposo não funciona apenas como um local de armazenamento de gordura. Ele também libera moléculas que podem influenciar o funcionamento de outras células do organismo — explica Mariana.
A pesquisadora ressalta, porém, que os resultados ainda não permitem concluir que esses mecanismos ocorram da mesma forma em pacientes ou que as vesículas aumentem o risco de desenvolver câncer de mama.
— Encontramos evidências experimentais que justificam aprofundar essa investigação. Queremos entender se essas alterações também são observadas em pacientes e se ajudam a explicar diferenças no comportamento da doença.
Os próximos passos incluem identificar quais moléculas são responsáveis pelos efeitos observados e ampliar a colaboração com equipes hospitalares para estudar amostras de mulheres com e sem obesidade. A possibilidade de desenvolver marcadores para acompanhar aspectos da doença ou de contribuir para tratamentos individualizados ainda depende de novas pesquisas.
— Entre descobrir um mecanismo em células cultivadas em laboratório e transformar essa descoberta em algo útil para as pacientes, existe um longo caminho, que exige estudos adicionais e evidências consistentes — destaca.
Ciência e formação
Doutorando orientado por Mariana, Luis Gabriel Xavier Botelho participa do projeto desde 2019, quando iniciou a iniciação científica. Para ele, a experiência contribuiu para desenvolver autonomia e pensamento crítico, habilidades que também podem ser aplicadas fora do ambiente acadêmico.
— Aprender a analisar uma informação considerando seu contexto, sua fonte e a robustez dos argumentos é essencial, especialmente nos tempos de hoje — diz.
O pesquisador também destaca o papel do financiamento público na continuidade dos estudos e na formação científica. Ao longo da trajetória, recebeu apoio do CNPq, da Capes e da Faperj.
— O investimento em ciência foi o que permitiu minha permanência e meu desenvolvimento no projeto. Mesmo quando conseguimos compreender um pouco melhor os mecanismos básicos de uma doença, isso já é válido. Esse conhecimento pode servir de base para pesquisas futuras e, eventualmente, para intervenções na vida dos pacientes — afirma.
* Esta reportagem integra o Especial Saúde do GLOBO-Niterói publicado em 25/10
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Pesquisa da UFF investiga relação entre obesidade e câncer de mama
