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Piscinas vazias, filas e passageiros frustrados marcam a estreia do navio Buenavista no litoral brasileiro

Por · novembro 4, 2026
Piscinas vazias, filas e passageiros frustrados marcam a estreia do navio Buenavista no litoral brasileiro


Cerca de 1.400 passageiros embarcaram no navio Buenavista nos últimos dias 30 (em Santos) e 31 (no Rio de Janeiro) de outubro com a expectativa de presenciar um novo capítulo da história do turismo marítimo no Brasil. Afinal, não é sempre que uma armadora nova, como a espanhola Corazul Cruceros, escolhe o país para fazer sua estreia oficial nos mares. No entanto, encontraram piscinas vazias, cabines com problemas de funcionamento, falta de tripulantes e muita confusão no serviço de bares e restaurantes, entre outros problemas que marcaram a abertura oficial da temporada brasileira de cruzeiros 2026/2027.
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A convite da R11 Travel, operadora que representa com exclusividade a Corazul Cruceros no Brasil, O GLOBO embarcou no Buena Vista na tarde de 31 de outubro, para um minicruzeiro de três dias que terminou nesta terça-feira (3/11), e teve escalas em Búzios e Santos. A reportagem pode acompanhar de perto muitos dos problemas relatados por quem esteve a bordo. A grande maioria dos hóspedes eram agentes de viagem e operadores de turismo, mas havia também dezenas de jornalistas e influenciadores digitais e cerca de 400 passageiros que pagaram ao menos R$ 2.100 por pessoa para fazer essa viagem.
As dúvidas em relação à empresa começaram meses atrás, quando adiou sua estreia oficial, marcada para julho deste ano, no Mar Mediterrâneo, faltando menos de um mês para o início das operações. Mais recentemente, mudou novamente a data anunciada para o começo de suas atividades no Brasil, de 24 para 30 de outubro. E, no último dia 28, após finalmente chegar de uma longa viagem, de 45 dias desde Hong Kong, na China, o Buenavista chamou a atenção pelas manchas de ferrugem em seu casco. Nada preocupante, de acordo com especialistas, e que já foi superado com algumas mãos de tinta. Os grandes problemas, no entanto, aguardavam os passageiros do lado de dentro.
As manchas de ferrugem no casco do Buenavista causaram preocupação quando o navio da Corazul Cruceros chegou ao Brasil semana passada, após 45 dias navegando desde Hong Kong, na China
Eduardo Maia/O Globo
— No papel e na teoria está tudo certo. Mas na prática há muitas coisas ainda a serem ajustadas — admitiu o diretor de operações da Corazul, Camille Appledoorn. — É mais ou menos parecido quando a gente compra um carro usado e, nas primeiras voltas que damos com ele, sofremos com solavancos. Depois de um tempo, tudo se acerta.
A insatisfação provocada pela enxurrada de problemas levou a alguns momentos de tensão a bordo, com discussões acaloradas entre passageiros (especialmente os clientes que pagaram pelo pacote) e funcionários do navio e representantes da R11 e da Corazul. Alguns hóspedes afirmaram que a operadora chegou a oferecer um crédito de 50% numa futura viagem ou o reembolso total. As empresas, no entanto, não confirmam esses acordos e, oficialmente, apenas orientam que os viajantes que se sentiram lesados procurem as agências que lhes venderam o pacote.
Mesmo com tanta frustração por parte dos passageiros, foi quase unânime o reconhecimento do esforço feito pelos tripulantes em resolver os muitos problemas que surgiram neste primeiro cruzeiro. A Corazul não deu números certos, mas admite que havia menos funcionários que o necessário e garante que, nas próximas semanas o time estará completo.
— Um dos pontos que nos animou após este cruzeiro inicial foi o feedback positivo que recebemos do público, mesmo os mais críticos, com relação à simpatia e proatividade de nossos profissionais a bordo. Estamos ampliando este time, ajustando nossos processos internos e reforçando nosso treinamento — prometeu o executivo.
Veja a seguir, alguns dos principais problemas enfrentados pelos passageiros a bordo do navio Buenavista, no primeiro cruzeiro da história da Corazul Cruceros:
Atrasos nos embarques e desembarques
Tender do navio Buenavista, da Corazul Cruceros, usado para levar os passageiros até a orla de Búzios, uma das escalas do minicruzeiro
Eduardo Maia/O Globo
Os problemas do cruzeiro inaugural do Buenavista começaram ainda em terra firme. Tanto em Santos, no dia 30/10, quanto no Rio, no dia 31/10, houve atrasos significativos no embarque dos primeiros passageiros da Corazul. Nas duas cidades, a subida a bordo foi autorizada duas horas após o horário previsto, enchendo os salões das áreas de embarque dos terminais de passageiros.
O desembarque voltou a ser problema no terceiro dia de navegação, durante a escala em Búzios, no litoral fluminense. Avisos sonoros anunciaram aos passageiro que o tempo em terra caíra de sete para quatro horas e meia, por motivos meteorológicos. O desembarque foi organizado num sistema de senhas, e feito apenas com auxílio de uma lancha de apoio do próprio navio (chamada de tender, nos jargões náuticos). Como essa pequena embarcação comporta poucas pessoas, o transporte até a orla buziana foi feito em conta-gotas. Às 11h40, 50 minutos antes do horário em que todos deveriam estar de volta ao Buenavista, o desembarque foi suspenso, com muitos passageiros ainda na fila (virtual, neste caso).
Esse gargalo voltou a aparecer na manhã de 2 de novembro, data do desembarque dos passageiros que subiram a bordo em Santos. A chegada do navio à cidade portuária paulista atrasou, e os hóspedes se espalharam com suas malas pelo Buenavista até que houvesse a permissão de desembarque, por parte das autoridades portuárias de Santos. Quando a saída foi finalmente liberada, houve um grande afunilamento de pessoas nos estreitos corredores do deck 4. No dia seguinte, já com bem menos gente a bordo, o desembarque no Rio aconteceu sem qualquer atraso.
— Atrasos e mudanças de horários não são desejáveis, mas fazem parte de nossa indústria. Estamos ajustando nossos processos no que se trata de embarques, desembarques e escalas para anteder tanto as demandas das autoridades locais quanto à aos hábitos locais — respondeu Appledoorn.
Piscinas vazias
A piscina Cristal foi outra a ficar vazia durante todo o cruzeiro inaugural do Buenavista, navio da Corazul Cruceros
Eduardo Maia/O Globo
Das três piscinas a bordo, duas (a Cristal e a Riviera, ambas no deck 12) permaneceram vazias e interditadas durante todo o cruzeiro, assim como as duas jacuzzi da Riviera. Apenas a piscina Sunset, na parte traseira do deck 8, foi utilizada parcialmente, já que eventualmente era fechada, e nunca esteve cheia em sua capacidade máxima de água.
Perguntada, a Corazul afirmou que, seguindo determinações sanitárias brasileiras e internacionais, não é permitido encher ou trocar a água da piscina no porto, e isso precisa acontecer durante a navegação em mar aberto. Segundo a empresa, as piscinas do deck 12 estavam passando por testes finais de estanqueidade, calibração dos sistemas automatizados de controle de pH/cloro e balanceamento hidráulico durante o cruzeiro inaugural. E garante que estarão em “funcionamento pleno para os hóspedes a partir da próxima saída”.
Bares e restaurantes
Passageiros fazem fila para garantir um lugar no Corazón, um dos dois restaurantes à la carte incluídos no pacote no navio Buenavista, da Corazul Cruceros
Eduardo Maia/O Globo
Nos dois primeiros dias houve filas no bar da piscina Riviera , o mais movimentado de todos. Ao longo do dia, bebidas acabavam e não eram repostas e foi registrada até mesmo falta de água potável na noite de 30 de outubro. O gelo também foi um problema no início da navegação.
As longas esperas marcaram também os dois restaurantes à la carte incluídos na diária, o Corazón e o Azul. Como na primeira noite muita gente não conseguiu vaga nos salões nos horários determinados para o jantar, a partir de então os mais precavidos começaram a chegar uma hora antes da abertura oficial, para garantir seu espaço.
Uma vez sentados, os passageiros precisaram ser pacientes, pois o serviço lento fazia que um jantar com entrada, prato principal e sobremesa, pudesse levar até três horas. Já no bufê self service, o Lido, o problema maior foi a falta de variedade e pouca quantidade de alimentos. A lentidão do serviço atingiu até a Churrascaria, o único restaurante pago à parte do navio, e a lanchonete, também na área da piscina Riviera, onde a muito custo poucos tripulantes conseguiam preparar hambúrgueres, pizza e batata frita.
Esses problemas foram sendo resolvidos ao longo do roteiro. Já no terceiro dia de navegação, soluções foram encontradas para agilizar o atendimento, como a instalação de um sistema self service nos restaurantes à la carte (mas sem suspender o serviço de menu), e a oferta de latas de cervejas em tinas com bastante gelo, localizadas ao redor da piscina Riviera.
— Estamos trabalhando com o feedback dos hóspedes para melhorar nossa operação e superar a expectativa do público. — diz Appledoorn. — Dentro desta revisão, estamos redistribuindo a disponibilidade de diversos itens e profissionais entre os bares e restaurantes parta atender ao perfil de consumo dos brasileiros. Durante a viagem percebemos que, dependendo do horário, houve concentração de demanda em locais pontuais (como o bar da piscina central ou o jantar nos restaurantes Corazón e Azul) enquanto outros, em que havia bebidas e comida, houve baixa procura. Também estamos ampliando e facilitando o acesso a água dentro e fora das cabines. 
Cabines
Nos dois primeiros dias, muitas cabines não abriam com os cartões magnéticos usados como chave porque a bateria da fechadura eletrônica havia descarregado. Outro problema frequente foi a falta de água quente saindo dos chuveiros, alguns com pressão muito fraca, e outros, forte demais. Houve ainda relatos de aparelhos de ar-condicionado que não gelavam o ambiente e, em alguns casos, chegavam a superaquecer o dormitório. As questões envolvendo as cabines formaram filas enormes na recepção do navio, no deck 5. Mas a partir do terceiro dia, essas queixas acabaram, porque o serviço de manutenção foi resolvendo todas essas questões.
— O navio chegou de uma longa trajetória intercontinental e houve mais intercorrências do que prevíamos nesta primeira saída. A maior parte das questões relatadas foram sanadas ainda durante o primeiro cruzeiro e nossa equipe trabalha para rapidamente para que todas as demais estejam oferecendo um nível de excelência que o exigente público brasileiro demanda — afirmou o diretor de operações da armadora.
Cassino
Mesa para carteado numa sala anexa ao lounge Monte Carlo, área que receberá o futuro cassino do navio Buenavista, da Corazul Cruceros
Eduardo Maia/O Globo
Antes de chegar ao Brasil, um dos atrativos do Buenavista, citado nos materiais de divulgação, era seu cassino. Mas, para a sorte de uns e azar de outros, ele ainda não está instalado no navio. Segundo informações, o cassino, com suas máquinas caça-níquel e roletas, funcionará numa área anexa ao lounge Monte Carlo, atualmente um dos ambientes mais tranquilos a bordo. Neste primeiro momento, havia apenas três mesas, que foram usadas para jogos de cartas.
De acordo com a companhia espanhola, a área destinada ao cassino passa pela etapa final de montagem e homologação de equipamentos.
— Por estar anteriormente dedicada ao mercado asiático, onde este tipo de entretenimento não costuma ser oferecido, o espaço está recebendo um projeto totalmente novo, adaptado aos padrões ocidentais. Este processo já está em desenvolvimento e os equipamentos necessários já foram adquiridos. Nossa previsão é de que em cerca de quatro semanas o cassino do Buenavista estará completo — promete o executivo

Piscinas vazias, filas e passageiros frustrados marcam a estreia do navio Buenavista no litoral brasileiro