A polícia britânica temia que o ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsor, irmão do rei Charles 3º, tentasse usar o monarca para impedir oficiais de entrarem em sua casa em Sandringham, segundo documentos oficiais obtidos pela BBC na sexta (16).
A Thames Valley Police optou por acelerar a prisão preventiva de Andrew com o intuito de realizar as buscas de provas de seu envolvimento com Jeffrey Epstein na residência porque temia que o ex-príncipe alegasse que a casa não pertencia a ele, mas a seu irmão — o que exigiria uma permissão legal adicional antes da entrada de policiais.
A lentidão do processo poderia dar a Andrew o tempo necessário para destruir provas, acreditava a polícia, de acordo com documentos legais da investigação obtidos pela rede britânica.
Imagens divulgadas pela BBC mostram momento em que agentes chegam a uma das propriedades da família real onde ex-príncipe Andrew ficava após perder títulos reais
Reprodução/BBC
O ex-príncipe foi preso em 19 de fevereiro, depois que policiais pediram a um juiz mandados de busca e apreensão nas propriedades do irmão do rei. Na última semana, seus advogados alegaram que os mandados foram obtidos ilegalmente.
A base para o pedido foi a divulgação de material pelo Departamento de Justiça dos EUA que detalhava as conexões do filho da rainha Elizabeth 2ª com o criminoso sexual Jeffrey Epstein, morto na prisão em 2019 após ser acusado de estupro e tráfico sexual nos EUA.
Andrew nega que tenha participado de qualquer atividade criminosa em ligação com Epstein.
Em 18 de fevereiro, no dia anterior à sua prisão, a Thames Valley Police pediu permissão da Corte Criminal Central para obter os mandados de busca na Wood Farm, em Sandringham, e no Royal Lodge — propriedade da Coroa onde ele vivia em Windsor.
O ex-príncipe Andrew, expulso da coroa britânica, de quatro sobre uma menina menor de idade
Reprodução: Departamento de Justiça dos Estados Unidos
O pedido incluía os possíveis cenários em que policiais acreditavam que precisariam dos mandados, já que temiam que tanto o ex-príncipe quanto seus advogados exigiriam ver uma “autoridade judicial” antes de permitir a entrada da polícia.
O xis da questão era justamente a Wood Farm, já que advogados do ex-príncipe poderiam alegar que ela seria parte do Sandringham Estate, uma propriedade particular — e não pública — do rei e sua família, o que imporia a necessidade de burocracia adicional.
Além disso, policiais preocupavam-se com a possibilidade de que não houvesse ninguém em casa para recebê-los caso o elemento de surpresa da execução do mandado se perdesse e que a imprensa fosse atraída para o local, sem mesmo que as buscas pudessem ser completadas. Ambas as situações deveriam ser evitadas “devido à gravidade da investigação”, argumentou ao juiz a Thames Valley Police.
A equipe de advogado de Andrew classificou a justificativa policial, em sua apelação, como mera especulação.
Policiais buscavam “papeladas, diários, registros de negócios e outras provas documentais do tempo de Andrew Mountbatten-Windsor como Representate Especial de Comércio e Investimento da Coroa”, época em que ele teria se encontrado frequentemente com Epstein.
Comunicação via telefone celular, computador, tablets e quaisquer outros equipamentos eletrônicos também interessavam aos investigadores. As buscas duraram dias após a prisão de Andrew, até 24 de fevereiro, segundo a BBC.
Andrew ainda prestou depoimento na Aylesham Police Station a partir das 15h do dia 19 e foi liberado, ainda sob investigação, às 18h36, segundo os registros oficiais. Uma das acusações que pesam sobre o ex-príncipe é a de que ele teria enviado relatórios oficiais de suas visitas à Singapura, Vietnã, China e Hong Kong como enviado da Coroa para Jeffrey Epstein.
Ainda segundo e-mails obtidos pelo FBI, nos EUA, Andrew teria dado informações confidenciais de oportunidades de investimentos no Afeganistão a Epstein. Há a possibilidade de que ele tenha realizado reuniões com firmas de investimentos particulares e indicado a Epstein que poderia injetar fundos no negócio.
Em uma audiência no início do mês, a Thames Valley Police admitiu “que a decisão inicial da Corte de emitir os mandados sob a legislação específica foi incorreta”, depois que advogados do ex-príncipe questionaram os procedimentos da investigação que levaram à sua prisão.
O juiz do caso, Justice Hilliard, ressaltou que “o fato de que os mandados de busca foram anulados não finaliza a investigação ou significa que toda a investigação era ilegal”.
Os itens apreendidos continuam de posse da polícia e uma nova audiência deverá ser realizada em 2027 para decidir se o material poderá ser considerado prova em tribunal. Andrew continua, neste momento, a ser investigado.
Polícia prendeu ex-príncipe Andrew para impedir que ele usasse rei Charles para destruir provas de ligação com Epstein
