O episódio de incontinência fecal sofrido pela atleta australiana Joanna Wietrzyk durante uma competição internacional de Hyrox, na China, que não impediu que ela vencesse a prova, trouxe à tona os problemas gastrointestinais sofridos por atletas no esporte de alto rendimento. E, embora o tema seja tratado como motivo de constrangimento, pesquisas mostram que sintomas como cólicas, diarreia, náuseas e urgência para evacuar fazem parte da rotina dos atletas que precisam fazer esforço físico extremo. Alguns jogadores de futebol, lutadores e atletas de marcha atlética já passaram por situações semelhantes à de Joanna.
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O que causa a incontinência fecal nos atletas?
O fenômeno é resultado de uma combinação de vários fatores. Durante os exercícios intensos e prolongados, o corpo redireciona grande parte do fluxo sanguíneo para os músculos que estão em atividade, reduzindo o fluxo nos órgãos do sistema digestivo. Sendo assim, com menos sangue, a digestão fica mais difícil e menos eficiente e podem ocorrer alterações no funcionamento intestinal.
Um estudo de 2017 conduzido por pesquisadores finlandeses constatou que 90 minutos de corrida intensa podem causar danos temporários ao intestino, afetando a transferência de seu conteúdo para a corrente sanguínea. Outras pesquisas sugerem que os níveis de bactérias e a absorção de nutrientes também são significativamente impactados.
O movimento da corrida e a digestão reduzida devido à menor circulação do sangue, faz com que substâncias atravessem os intestinos mais rapidamente. E, depois que o conteúdo passa pelos intestinos, acredita-se que o esfíncter anal também seja afetado pelo exercício intenso. O esfíncter é formado por dois anéis: um externo, controlado de forma voluntária e menos potente, e outro interno, involuntário e mais forte. Durante os esforços físicos extremos, o organismo passa a priorizar funções consideradas essenciais para o desempenho do atleta, o que pode comprometer a ação desses músculos, aumentando o risco de perda involuntária de fezes.
Alimentação também influencia
Refeições muito pesadas, alimentos e mudanças na dieta durante viagens antes dos exercícios podem aumentar o risco de desconforto intestinal. Além disso, o consumo de suplementos energéticos à base da cafeína, comuns em provas de longa duração, também é apontado por pesquisadores como um possível fator de risco, uma vez que pode acelerar o funcionamento do intestino de algumas pessoas.
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Um dos casos mais famosos de incontinência fecal em atletas é o da ex-recordista mundial britânica Paula Radcliffe, que defecou na rua no meio da Maratona de Londres de 2005, à vista do público e da mídia. A pausa de poucos segundos não a impediu de vencer a prova.
“Quando estou correndo, fico totalmente focada em vencer e correr o mais rápido possível. Eu estava perdendo tempo porque estava com fortes cólicas e pensei: ‘Eu só preciso ir, e depois ficarei bem'”, disse à época. Para os jornais, a atleta explicou que a causa poderia ter sido um salmão consumido na noite antes da prova.
Mulheres podem apresentar maior vulnerabilidade
Pesquisadores holandeses realizaram um estudo que apontou que as mulheres podem apresentar um risco maior de incontinência fecal durante as atividades mais intensas. Entre os motivos está a chamada de “disfunção do assoalho pélvico”, o conjunto de músculos do osso púbico ao cóccix e sustenta os órgãos da pelve. Diferenças anatômicas, gravidez, alterações hormonais relacionadas ao ciclo menstrual e à menopausa também estão entre os fatores que tornam as mulheres mais vulneráveis ao problema.
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Estudos também indicam que algumas fases do ciclo menstrual também podem ter relação com o aumento de sintomas gastrointestinais, o que aumenta o risco de incontinência fecal.
Como prevenir?
Especialistas recomendam que os atletas evitem alimentos que não fazem parte de sua dieta antes de competições importantes. Além de manterem a hidratação em dia, pois, sem água no sistema digestivo, os carboidratos podem ficar concentrados no estômago, aumentando o risco de desconforto gastrointestinal. Os sais perdidos na transpiração também são importantes para a absorção de energia pelo intestino.
Outra prática que tem sido realizada pelos atletas nas últimas décadas é o chamado “treinamento intestinal”. Há 20 anos, os ciclistas profissionais de elite conseguiam absorver cerca de 60 gramas de carboidratos antes de começarem a enfrentar problemas estomacais. Hoje em dia, entretanto, os atletas conseguem ingerir pelo menos o dobro dessa quantidade. O ciclista australiano Cameron Wurf revelou ter consumido 200 gramas de carboidratos por horas, em 2025, antes de quebrar o recorde do ciclismo no Memorial Hermann Ironman Texas North American Championship.
Quais atletas já sofreram de incontinência fecal?
Em 2020, durante os playoffs da Major League Baseball (MLB), enquanto jogava pelo Los Angeles Dodgers, o jogador de beisebol Kiké Hernández revelou ter soltado um pum ao rebater uma bola com força. Infelizmente, o pum foi além e fez com que ele sujasse as calças.
Anos antes, durante a Olímpiadas do Rio, em 2016, o atleta francês Yohann Diniz liderava a prova de 50 km da marcha atlética quando sofreu com problemas estomacais. Ele teve diarreia ao longo do trajeto e desmaiou devido à desidratação. Ainda assim, conseguiu acordar a tempo de terminar a prova em 8º lugar.
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Em 2017, durante o UFC Fight Night 112, a lutadora peso-palha Justine Kish acabou sujando o octógono ao tentar escapar de um mata-leão de Felice Herring. Nas rede sociais, Justine brincou com a situação e postou: “Sou uma guerreira e nunca vou desistir. #MerdasAcontecem kkkk voltarei em breve”.
A incontinência fecal também acontece com os jogadores de futebol. Durante a Copa do Mundo de 1990, o atacante da Seleção Inglesa Gary Lineker foi flagrado pelas câmeras da TV se arrastando pela grama para tentar se limpar após sofrer um carrinho no campo. Anos depois, ele confessou que “nunca encontrou tanto espaço em campo quanto naquele momento”, já que os adversários não queriam chegar perto.
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