Quem vê a estudante Maria Giulia Fantin Cesso, de 13 anos, em ação nas quadras de vôlei não imagina que, aos 10, ela estava com sobrepeso e taxas de insulina e colesterol altas. A família ficou assustada ao receber o resultado dos exames pedidos pela pediatra, e não demorou a buscar mudanças na alimentação e na rotina da menina — que praticava natação, mas sem entusiasmo.
Foi nessa época que Maria Giulia acabou encontrando seu esporte do coração. O vôlei hoje domina grande parte de seus dias: são duas horas de treino diárias, quatro vezes por semana, afora as competições aos sábados e domingos.
— Eu não costumava praticar quase nenhuma atividade física. O esporte não foi bom só pra minha saúde, foi também para socializar, fazer amizades e trabalhar mais em equipe — conta a adolescente, que faz acompanhamento nutricional, e, com a combinação da alimentação mais saudável e a intensidade dos treinos, conseguiu eliminar cinco quilos.
A mãe, a advogada Elaine Fantin, comemora:
— Nós, da família, nos sentimos vitoriosos. É maravilhoso saber que ela gosta do esporte, que sabe o que tem que comer. É uma adolescente e conseguiu ter uma vida regrada, coisa que muita gente passa a vida inteira tentando e não consegue— diz.
“A atividade física precisa ser prazerosa”. A máxima que repetimos à exaustão quando procuramos a melhor forma de mexer o corpo se justifica mais ainda se o praticante é um jovem sedentário. Quando o objetivo é combater o sobrepeso, a procura pelos exercícios mais adequados pode ser um desafio ainda maior. Afinal, qual a prática ideal?
Não existe uma resposta universal, explica o educador físico e nutricionista Tiago Rigaud. É preciso, de fato, recorrer ao lugar comum: seja corrida, ciclismo, esportes coletivos, malhação em academia, dança, natação ou artes marciais, se a prática não trouxer satisfação, e for imposta, a probabilidade de desistência rápida é grande.
— Existe um sedentarismo estrutural. Cerca de 80% dos adolescentes não atendem à recomendação da Organização Mundial de Saúde de manter atividade diária. Esse comportamento está ligado a uma maior gordura corporal, pior saúde cardiometabólica e menor aptidão física — explica Rigaud, que é professor de futsal de crianças e adolescentes. — O adolescente só vai aderir quando sentir prazer. Então a atividade ideal é a que ele gostar.
Dados do SUS mostram que um em cada três brasileiros de 10 a 19 anos têm excesso de peso, quadro que, no longo prazo, aumenta os riscos de se ter doenças cardíacas, diabetes e acidente vascular cerebral (AVC). Com 20 anos de experiência e especialista em diabetes e obesidade infantil, a nutricionista de Maria Giulia, Melina Cortegoso, enfatiza que práticas como parkour, patinação, aulas de circo e jazz podem ser bons pontos de partida para quem ainda não se mexe como deveria:
— A atividade física tem que ser divertida. A família vai ajustando de acordo com as preferências de cada um. Tem que respeitar o ritmo e o condicionamento, para que eles comecem e queiram continuar praticando e aumentando a intensidade, o que é essencial para a perda de peso — considera.
Ela lembra que a criança com sobrepeso pode se tornar um adolescente obeso, e que é preciso consertar a rota o quanto antes, ajustando o dieta e os exercícios. Melina acredita que muita gente ainda crê no mito de que o estirão puberal, a fase de crescimento rápido do adolescente, vá “corrigir” o sobrepeso.
Em tempos de mais inatividade e de uso excessivo de telas, a recomendação da OMS segue a mesma: dos 5 aos 17 anos as crianças e os adolescentes devem realizar pelo menos uma hora por dia de atividade física de intensidade moderada a vigorosa.
Mas não basta focar no gasto calórico. O educador físico e especialista em natação Fabio Iskandarian ressalta o benefício da socialização por meio do esporte:
— É uma grande ferramenta de integração. É muito benéfico e indicado para o adolescente começar a conhecer o próprio corpo. Nesse sentido, esportes coletivos, como o futebol, são muito recomendados — aponta.
Outro alerta é em relação às diferenças entre as faixas etárias. No começo da puberdade, aos 12 ou 13 anos, o exercício deve ser mais leve, com propostas mais lúdicas. Já aos 16 e 17, com o desenvolvimento físico e hormonal, é possível intensificar mais. Mas sempre observando o condicionamento individual e mantendo a supervisão.
Não se pode perder de vista que as atividades devem estar presentes no cotidiano de toda a família, e não só na agenda do adolescente. Incluir programas que misturem diversão e movimento, como caminhadas em parques e jogos com bola, é importante mesmo nas férias. Cuidar do sono é outro ponto relevante.
A cultura do exercício físico deve vir da primeira infância, e a atividade do corpo deve ser mantida ao longo de toda a vida, defende o pediatra Daniel Becker, colunista do GLOBO.
— As crianças estão brincando pouco, ficam mais paradas e grudadas nas telas. Na primeira infância, o mais importante é a brincadeira movimentada na natureza. Depois, o esporte. É preciso aumentar o incentivo à atividade física nas escolas. É uma vergonha que só sejam uma ou duas aulas de educação física semanais — diz Becker. — É necessária a criação de espaços para as crianças se exercitarem ao ar livre, correrem atrás de bola, subirem em árvore. É o que traz felicidade e habilidades físicas e emocionais.
Preferência pessoal deve ser critério para escolher o exercício de jovem que quer perder peso
Quem vê a estudante Maria Giulia Fantin Cesso, de 13 anos, em ação nas quadras de vôlei não imagina que, aos 10, ela estava com sobrepeso e taxas de insulina e colesterol altas. A família ficou assustada ao receber o resultado dos exames pedidos pela pediatra, e não demorou a buscar mudanças na alimentação e […]