Há 18 anos, o luxuoso Hotel Glória fechava suas portas. Com uma das mais belas vistas da cidade, o imponente prédio em estilo neoclássico era o queridinho de celebridades e, principalmente, políticos. Foi palco de tradicionais desfiles de fantasias e hospedou de Albert Einstein a Fidel Castro. Após idas e vindas, reabre agora como um condomínio residencial, resultado de quatro anos de obras e um investimento de R$ 400 milhões. Duas famílias já se mudaram para o novo endereço.
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Na atual configuração, o suntuoso saguão da entrada principal foi ampliado, englobando uma área onde no passado existiu o Teatro Glória. A piscina, que no projeto original ficava no térreo, não existe mais. Duas novas, de borda infinita, foram construídas nos terraços, de onde é possível admirar o Pão de Açúcar, a Baía de Guanabara, o Aterro do Flamengo, a Ilha Fiscal e até Niterói.
Festas para 250 convidados
O salão nobre de 244 metros quadrados, no segundo piso, usado para convenções e coletivas de presidentes da República no passado, virou espaço para festas, com paredes revestidas de mármores. O recinto, com mesas, sofás e cadeiras estalando de novo, comporta até 250 pessoas e pode ser usado por moradores no sistema definido como “pay for use”. Também está disponível para ser alugado no rooftop o espaço com churrasqueira e duas cozinhas gourmet.
Ainda em fase de acabamento, o novo residencial tem 266 apartamentos com duas, três ou quatro suítes e até 214 metros quadrados. Eles ocupam três torres: Histórico I, Histórico II e Contemporâneo. Os dois primeiros têm elevador panorâmico, e o terceiro, entrada independente. O acesso ao estacionamento — com até três vagas por unidade — será por uma das laterais do condomínio. Na fase em que foi hotel, contava com 150 quartos.
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O mineiro Marco Aurélio e o canadense Louis-Jérôme
Marcia Foletto
A entrega das primeiras chaves pelo Opportunity Fundo de Investimento Imobiliário e pela construtora Sig Engenharia ocorreu há cerca de duas semanas. Proprietários de um apartamento de três quartos no Histórico I, o mineiro Marco Aurélio Doise-Barbosa, de 38 anos, e o marido, o canadense Louis-Jérôme Barbosa-Doise, de 39, pretendem se mudar em novembro, depois de executarem algumas mudanças no projeto para dar um toque mais pessoal ao imóvel.
Empolgados com a escolha, eles contam que um dos quartos será convertido em escritório, e o terceiro ficará para visitas. Os banheiros, por exemplo, estão sendo revestidos com pedras de quartzo azul macaúbas, extraídas da Chapada Diamantina (BA).
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Enquanto a reforma não termina, eles estão hospedados em um hotel e aproveitam, quase todo domingo, para conhecer a cidade. O casal, que comanda a Âmba, corretora internacional de imóveis de luxo, já tem planos para “inaugurar” o novo apartamento: farão um churrasco com os operários que trabalham na reforma. No Natal e no Ano Novo, os convidados serão os pais de Louis. A família de Marco Aurélio virá de Minas para aproveitar o carnaval carioca.
— Quando decidimos morar no Rio, vim do Canadá com uma lista de 15 imóveis que achávamos interessantes, inclusive em Copacabana, Ipanema e Leblon. Fui a todos, mas, no fundo do coração, já sabia que seria o Glória, justamente o primeiro que visitei. Comprei na planta — contou Marco.
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Louis endossou:
— Não há bairro na cidade com paisagem igual a essa.
Projetado pelo arquiteto francês Joseph Gire, o mesmo que assinou os projetos do Copacabana Palace e do Edifício A Noite, na Praça Mauá, o Glória foi inaugurado em 1922 para o centenário da Proclamação da Independência e a Exposição Internacional. Na época, o Aterro do Flamengo sequer existia — o parque só seria construído nos anos 1960 — e o prédio ficava à beira-mar. O saguão de entrada era bem menor, com dimensões semelhantes ao do Copacabana Palace, inaugurado um ano depois.
O Glória foi o primeiro cinco-estrelas do Brasil. Ao longo das décadas, recebeu personalidades como o astronauta americano Neil Armstrong, primeiro homem a pisar na Lua. Ficou conhecido por hospedar presidentes da República, devido à sua proximidade com o Palácio do Catete, sede do governo federal até 1960. Por 34 anos, seu salão principal foi passarela para Clóvis Bornay, Wilza Carla e Evandro de Castro, entre outros artistas que participavam do mais famoso concurso de fantasias de luxo do país. O hotel também recebeu bailes de carnaval e até escolha de miss.
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O antigo salão nobre foi transformado em espaço para festas
Marcia Foletto
Monograma dourado
O residencial mantém a fachada preservada, já que o prédio é protegido pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH). No acesso principal, na marquise branca, continuará o monograma dourado que identifica o endereço.
Por dentro, tudo é novo. Foi necessário reconstruir as áreas internas do zero, já que o empresário Eike Batista, que comprou o Glória e depois repassou o imóvel, demoliu tudo e se desfez da mobília. Em 2020, o Opportunity adquiriu o prédio do fundo árabe Mubadala, que também não levou qualquer projeto adiante.
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— A fachada não é a original de 1922. Nos anos 1970, o Glória ganhou dois andares, mas buscamos na restauração resgatar boa parte do projeto de Joseph Gire. Uma das intervenções foi reconstruir varandas nas laterais. Também restauramos as janelas e outros elementos externos — contou Rubens Biotto, que coordenou a reforma.
O arquiteto Afonso Kuenerz, da equipe que desenhou internamente a configuração do residencial, define o projeto como “A Fórmula 1 dos Retrofits”.
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— Há um contraste entre a arquitetura do Histórico I e os demais edifícios. No mesmo terreno, temos uma integração entre o que tem um grande valor histórico e imóveis mais contemporâneos. Isso influiu no desenho do projeto. Poderíamos ter feito um prédio com mais apartamentos. Mas concluímos que seria um ganho para a cidade reservar parte da área para o salão de festas, por exemplo — disse Kuenerz.
Outra novidade que não existia no Glória original foi a reserva de áreas para quatro lojas no térreo, sendo que duas já foram vendidas para o mesmo comprador, que ainda não divulgou o que planeja para o local.
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imóvel de até R$ 7 milhões
A construtora divulgou que 73% dos apartamentos foram vendidos, com preços que variam de R$ 1,8 milhão a R$ 7 milhões. Segundo Marcelo Naidich, diretor comercial e de novos negócios do Opportunity Imobiliário, dos compradores, 60% já são moradores do Rio, 30% vivem em outros estados e 10% são estrangeiros. Pela convenção do condomínio, os apartamentos podem ser alugados, mas não por curta permanência, como pelo Airbnb.
— Um dos compradores se envolveu tanto com o prédio que comprou móveis antigos leiloados pelo Hotel Copacabana Palace (que passa por uma reforma), para o apartamento dele ter referências históricas do prédio — contou Naidich.
A memória do lugar foi justamente uma das razões que atraíram a empresária Agatha Francisco, que se muda também no fim do ano com o marido e os três filhos para um apartamento no Histórico II. Proprietária da Imobiliária Irmãos Sant’Ana, ela conta que já morou em um imóvel vizinho na Rua do Russel e foi a eventos no Hotel Glória.
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— Ele faz parte da História do Rio. O mais curioso é que pelo menos 20 dos meus novos vizinhos também são meus clientes. Fui eu quem vendi os apartamentos para eles — contou.
Professora da UFRJ, Araceli Ferreira, de 68 anos, comprou um três quartos onde vai morar sozinha. Antes da mudança, faz alterações para integrar sala, biblioteca e escritório
— A felicidade é imensa, literalmente, morar aqui será uma glória. Já conheci outros compradores, são muito simpáticos. Por isso, vou tentar juntar o maior número possível de moradores e fazer uma festa de réveillon no salão — contou Araceli.
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Primeiros moradores fazem ‘check in’ no Glória renovado
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