Apresentando-se como a “resposta” à ascensão da extrema direita na Alemanha, a jurista de origem turca Elif Eralp pode se tornar a primeira prefeita de esquerda radical de Berlim. Aos 45 anos, ela construiu sua campanha em torno da crise da moradia e da defesa do controle dos aluguéis.
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O partido de esquerda radical Die Linke venceu as eleições regionais em Berlim, com 25% dos votos, à frente da União Democrata-Cristã (CDU, na sigla em alemão), que obteve 20%. A Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão), partido de extrema direita, também avançou na capital, com quase 15% dos votos. O resultado coloca o Die Linke em condições de assumir o comando da prefeitura, caso consiga formar uma coalizão com outras forças de esquerda.
Eralp não escondeu a emoção durante um evento do partido no moderno bairro berlinense de Kreuzberg. Ao agradecer aos pais, destacou os ensinamentos que recebeu deles, entre eles a importância de “nunca desistir, sempre se levantar e fazer sua voz ser ouvida”.
Caso consiga formar uma coalizão com outras forças de esquerda, Eralp se tornará também a primeira prefeita de Berlim de origem imigrante.
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Para isso, ela precisará convencer os Verdes, que receberam quase 15% dos votos, e o Partido Social-Democrata (SPD, na sigla em alemão), que governou Berlim durante anos, mas registrou seu pior resultado histórico, com 12% dos sufrágios.
Prioridade para moradias
A crise habitacional foi o tema central da campanha de Eralp. A jurista transformou a luta pelo controle dos aluguéis em uma de suas principais bandeiras e chegou a usar um pingente com o lema “Teto para os aluguéis”.
O Die Linke propõe expropriar imóveis de grandes grupos imobiliários e transferir quase 270 mil unidades para o setor público. A medida, no entanto, pode enfrentar resistência dentro de uma eventual coalizão. Os ecologistas são favoráveis à proposta, enquanto o candidato do SPD, Steffen Krach, afirmou na semana passada, durante o último debate, que esse não é o “caminho correto”.
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Na saída de uma seção eleitoral no domingo, Moritz Lembke-Özer, um “berlinense de nascimento”, disse à AFP que votou no Die Linke para enviar “um sinal forte” sobre a moradia, que considera “o principal desafio social de Berlim”.
Casada e mãe de dois filhos, Eralp também afirma que procura há anos um apartamento maior para sua família.
De filha de imigrantes a candidata
Desconhecida há alguns meses, Eralp nasceu em Munique e é filha de sindicalistas turcos que fugiram de seu país em 1980. Ela orientou sua carreira como jurista para a defesa dos direitos humanos, especialmente dos imigrantes, antes de entrar para o Die Linke, partido herdeiro da tradição política do antigo Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED na sigla em alemão), a legenda que governou a Alemanha Oriental.
O “período muito difícil” vivido por sua família nos primeiros anos na Alemanha influenciou sua entrada na política.
— Enfrentei muitas injustiças. Seria realmente um sinal forte que uma pessoa com uma história migratória se tornasse prefeita de Berlim — declarou.
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A notoriedade repentina de Eralp, suas origens imigrantes e seu perfil de esquerda renderam comparações com Zohran Mamdani, o “outsider” que se tornou prefeito de Nova York e a quem ela considera um “modelo”.
Assim como Mamdani, Eralp também teve que responder a acusações de antissemitismo dirigidas ao Die Linke devido às posições pró-palestinas do partido.
O episódio mais recente ocorreu durante um evento organizado pela seção do Die Linke no bairro berlinense de Neukölln. Segundo a imprensa, um rapper defendeu a intifada no palco e pediu a morte de integrantes das Forças Armadas israelenses.
Após o ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, o bairro, com uma importante população árabe, foi cenário de celebrações.
Eralp, que durante a campanha promoveu um plano para a “proteção da vida judaica em Berlim”, lamentou que uma “linha vermelha” tenha sido ultrapassada em Neukölln.
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O candidato do partido neste distrito multicultural, Ahmed Abed, afirmou à AFP que “não tolera nenhum antissemitismo” e criticou “essa equiparação constante entre Israel e judaísmo”.
Para Hans-Dieter Rieveler, de 55 anos, que votou no centro de Berlim, a presença de “antissemitas” no partido provocou “dor de estômago” em um país que segue profundamente marcado pelos crimes do nazismo. Ainda assim, ele explicou que votou no Die Linke, como tem feito nos últimos anos.
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