
A escritora americana R.F. Kuang ainda se recorda da inveja que sentia dos seus colegas de faculdade que, na hora de se inscrever nos cursos obrigatórios de língua estrangeira, podiam optar por italiano, alemão ou a língua que fosse sem se preocupar com a opinião dos parentes. Para ela, só havia uma opção: estudar chinês. Kuang nasceu em Guangzhou (ou Cantão), a 120 quilômetros de Hong Kong, e cresceu nos EUA. Ela falava mandarim na infância, mas só recuperou a fluência no idioma na faculdade.
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— Vários colegas iam fazer intercâmbio para descobrir novas culturas, e até pedir um croissant em francês num café parisiense parecia uma aventura romântica! Mas a experiência daqueles que, como eu, estavam redescobrindo o idioma de suas famílias, sua própria língua materna, era completamente diferente — diz ela, que se chama Rebecca, tem 30 anos e já publicou um punhado de best-sellers, como “Impostora” e “Katábasis”. — Em boa parte das comunidades sino-americanas, é motivo de vergonha as novas gerações não falarem chinês. Você é uma decepção. Quando viaja para visitar familiares na China, suas dificuldades com a língua viram motivo de piada.
Lily Chen, a protagonista de “História de Taipei”, o novo romance de Kuang, conhece bem esse drama. Tanto que decide passar as férias da faculdade em Taipei, capital de Taiwan, para aprender mandarim. “Eu queria me tornar chinesa ali, nos meus próprios termos”, diz ela, respondendo, à sua maneira, à pressão familiar. Aos poucos, Lily percebe que não estava internalizando apenas um novo idioma, mas uma nova personalidade, “dócil e incerta”, como descreveu uma amiga (de quem ela gostava em inglês, mas que não suportava em chinês). Kuang teve uma experiência parecida. Falando chinês, se sentia imatura e propensa a obedecer, sua voz ficava mais aguda, como se ela estivesse regredindo à infância.
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A autora também emprestou outros elementos autobiográficos à sua protagonista. Seu avô lutou no exército nacionalista de Chiang Kai-shek (1887-1975), que, após ser derrotado pela revolução comunista de 1949, estabeleceu seu governo (também autoritário) em Taiwan. Parte da família de Kuang foi parar no Camboja e acabou massacrada pelo regime comunista local, o Khmer Vermelho. A escritora sempre soube da tragédia familiar, mas sua personagem só descobre a verdade durante seu verão em Taipei, quando é avisada da morte do avô, que ainda vivia na China continental.
Durante seu intercâmbio, Lily se dá conta de que a história da China (e as relações entre o continente e Taiwan) é bem mais complicada do que sugere o senso comum americano. “Tudo isso era bom ou ruim dependendo de qual era a sua opinião quanto ao imperialismo estadunidense, ao autoritarismo chinês e à autodeterminação taiwanesa”, conclui a personagem.
— Todos queremos saber qual é o lado certo na guerra, quem é o vilão colonizador e quem é o mocinho colonizado. Mas Lily é obrigada a abandonar concepções binárias sobre o funcionamento do mundo. A história da relação entre China, Taiwan e EUA é brutal e complexa. Não há mocinhos, há apenas disputas pelo poder. Dos dois lados houve repressão política, inocentes assassinados e perda de liberdade — afirma Kuang. — Quero convidar o leitor a um exercício de humildade, lembrá-lo de que nada no mundo é preto ou branco.
Crítica ao mercado
Kuang transita com desenvoltura entre a ficção científica e a ficção literária. E a reflexão sobre a linguagem é recorrente em sua obra, independentemente do gênero. Na fantasia “Babel”, poderes coloniais tentam controlar a magia das palavras e tradutores se transformam em agentes da resistência. Já em “Impostora”, seu livro mais famoso, a crítica à imposição de identidades fixas (outro tema de “História de Taipei”) se soma à reflexão sobre os usos da linguagem.
A protagonista é June Hayward, escritora branca e fracassada que rouba o manuscrito de uma amiga asiático-americana recém-falecida e o publica como se fosse seu. O romance satiriza o mercado editorial, a transformação da diversidade em estratégia comercial e as disputas em torno da apropriação cultural e do cancelamento nas redes sociais.
— No fim da década passada, o mercado descobriu que diversidade vendia. Em vários casos, era uma versão mercantilizada e superficial de diversidade, que reduzia a identidade dos autores a rótulos comerciais. Em “Impostora”, June reclama que ninguém queria saber das histórias de uma branquela da Filadélfia como ela. Hoje, ela estaria fazendo um sucesso estrondoso — reflete Kuang. — Não acho que havia interesse verdadeiro em diversidade, as empresas só queriam lucrar. Agora que os ventos mudaram, e no caso dos EUA nem preciso explicar por quê, perderam o interesse.
Além de retomar um tema que perpassa toda a obra de Kuang, a linguagem, “História de Taipei” aprofunda um que havia aparecido de relance em “Katabásis” (fantasia na qual estudantes de pós-graduação descem literalmente ao inferno) e está ausente dos outros livros da autora: a sexualidade. No novo romance, Lily tem um encontro sexual extremamente constrangedor numa banheira com um rapaz presunçoso que gostava de exibir seu chinês fluente.
— Me interessa como experiências sexuais terrivelmente constrangedoras são parte do nosso amadurecimento. Vivemos várias delas na faculdade, quando às vezes até há algum prazer envolvido, mas é tudo muito bobo e vergonhoso — diz Kuang. — Sexo é engraçado. No livro, procuro transformar experiências difíceis, como luto e sexo ruim, em absurdo. Precisamos rir das dificuldades, senão a vida fica insuportável.
Serviço:
‘História de Taipei’
Autora: R.F. Kuang. Tradução: Ana Beatriz Omuro e Yonghui Qio. Editora: Intrínseca. Páginas: 336. Preço: R$ 79,90.