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'Realizei um sonho', diz Guga Chacra em relato sobre desafio aquático de 48km ao redor de Manhattan: 'Altos e baixos até o fim'

Olhando para a Estátua da Liberdade, mergulhei na água no Battery Park na ponta de Manhattan às 6h30 da manhã de uma quarta-feira de setembro aqui em Nova York com o magistral skyline da cidade. Começaria ali uma longa jornada nadando crawl pelas próximas 8 horas e 35 minutos por cerca de 48 quilômetros. Era […]

'Realizei um sonho', diz Guga Chacra em relato sobre desafio aquático de 48km ao redor de Manhattan: 'Altos e baixos até o fim'


Olhando para a Estátua da Liberdade, mergulhei na água no Battery Park na ponta de Manhattan às 6h30 da manhã de uma quarta-feira de setembro aqui em Nova York com o magistral skyline da cidade. Começaria ali uma longa jornada nadando crawl pelas próximas 8 horas e 35 minutos por cerca de 48 quilômetros. Era um sonho que este ex-jogador de polo aquático e nadador de águas abertas, embora mais conhecido por ser correspondente internacional, tinha desde que me mudei para os EUA em 2005.
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Queria dar a volta completa a nado em Manhattan, em um dos desafios aquáticos integrantes da Tríplice Coroa. Os outros dois são a travessia do Canal da Mancha, entre a Inglaterra e a França, e do Canal de Catalina, na Califórnia, perto de Los Angeles. Treinei centenas de quilômetros no último ano, com uma média de 6 mil metros por dia na piscina ou nas praias nova-iorquinas de Brighton Beach e Coney Island, além de maratonas aquáticas no Mar Adriático em Montenegro, no Litoral Norte de São Paulo e em treinos na Praia de Copacabana e no Clube Paulistano em viagens ao Brasil.
Guga Chacra: ‘Nadei 48km ao redor de Manhattan’
A primeira parte da volta começa pelo East River, que na verdade é um estuário. A maré estava forte a meu favor. Nadei com um caiaque ao meu lado e um barco na minha retaguarda com uma equipe para me dar assistência, incluindo meu técnico, Samir Barel, um dos maiores ultramaratonistas aquáticos da História do Brasil. Não podia tocar no barco ou no caiaque no percurso para não ser desclassificado. O sol nascia quando passei sob a Brooklyn Bridge, que talvez seja a mais famosa do mundo, e a sua gêmea Manhattan Bridge, menos conhecida, mas a minha preferida.
Casei com a minha mulher, Ana Maria, naquela parte da orla em 2014, no lado do Brooklyn, no icônico restaurante River Café. Foram ao todo 20 pontes durante percurso. Em todas, nadei de costas para ouvir o barulho dos trens do metrô e dos carros, para me sentir como se estivesse dentro de uma artéria de Nova York. Mais adiante, outra ponte, a Williamsburg Bridge, que liga o famoso bairro do Brooklyn a Chinatown e ao Lower East Side. Segui nadando pelo rio e comecei a ver o Empire State Building e o Chrysler Building em Midtown à minha esquerda. Em seguida, o prédio das Nações Unidas, onde em duas semanas estarei na cobertura da Assembleia Geral.
O jornalista Guga Chacra na maratona aquática que percorreu 48km ao redor de Manhattan
Divulgação/Renato Tizzi
O rio se estreita quando passei entre o elegante Upper East Side e a Roosevelt Island. Ao redor da Rua 100 de Manhattan, após a Gracie Mansion, onde vive o prefeito Zohran Mamdani, caí no Hell’s Gate, ou portão do inferno. “A parte mais difícil do desafio”, sempre me alertou a Capri Djatiasmoro, uma amiga minha da natação de inverno em Brighton Beach, quando nadamos com água a até 2C e neve na areia. Aos 75 anos, é uma espécie de matriarca das águas abertas e geladas de Nova York. Assim como meu técnico, já fez a volta de Manhattan a nado. Nesse trecho, a maré é contra. Comecei ço a ficar nauseado por causa da fumaça do barco. Quando paramos para a hidratação, combinamos que o barco ficaria um pouco mais trás e meu técnico, o Samir, assumiu o caiaque ao meu lado.
‘Realizei um sonho’
Entrei no Harlem River, que me deu tantos pesadelos nos últimos meses. As águas podem ficar impróprias depois de tempestade, mas não choveu na semana anterior. Este “rio” na verdade é um canal, que separa o Harlem, em Manhattan, do Bronx. Ao contrário do que imaginava, a água é limpa e calma. Parece uma piscina. A maré voltou a me ajudar. Com quatro horas, senti cansaço físico e mental pela primeira vez. Pensei que, se estava assim com quatro horas, imagine dali a cinco, já que minha previsão era terminar em nove horas…
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Na hidratação, avisei meu técnico. O Samir me explicou que em alguns momentos ficaria cansado e em outros, me sentindo forte, com energia. Foi o que aconteceu. Altos e baixos até o fim. Com cinco horas e dez minutos de prova, passei diante do C pintado numa rocha para marcar o campus esportivo da Universidade Columbia e sob a última ponte antes de entrar no gigantesco Rio Hudson, que separa Nova York de Nova Jersey. Vi aí a ponte George Washington, a mais movimentada do mundo. A adrenalina subiu. Fiquei empolgado. Mas durou pouco. Apesar de ter a corrente a favor, o vento estava contra, fazendo ondas. Essa ondulação iria durar até o fim do desafio.
O jornalista Guga Chacra na maratona aquática que percorreu 48km ao redor de Manhattan
Divulgação/Renato Tizzi
Depois de passar sob a George Washington, passei por uma série de lugares importantes para mim ao longo dos últimos 21 anos morando em Nova York. Primeiro, o Columbia Presbyterian Hospital, onde nasceram meus filhos Antonio, de 8 anos, e Julia, de 10. Mais adiante, o campus acadêmico da Universidade Columbia, onde fiz mestrado. Segui margeando o Riverside Park, onde passeio com meus cachorros Messi e Sicília, ao longo do Upper West Side, onde moro. A partir da Rua 72, vinha uma sequência de prédios. Notei na 42 que estava na altura da Times Square. Depois, as torres de vidro do Hudson Yards e a Little Island. Vinham o Chelsea, o West Village e Tribeca. Do outro lado, Hoboken e Jersey City. A Freedom Tower, do World Trade Center, crescia cada vez mais na minha frente.
Meu técnico, na hidratação de oito horas, me avisa que foi a última. Segui nadando. Finalmente vi a chegada no Battery Park. Nos metros finais, comecei a nadar borboleta numa tradição pessoal em maratonas aquáticas que aprendi com uma treinadora minha da infância no Paulistano, a tia Bia (Beatriz Bertani). Os organizadores da Urban Swim tocaram a buzina. Terminei.
Nadei 48km em 8 horas e 35 minutos. Vi meus filhos e minha mulher celebrando. Realizei um sonho. Como diz Frank Sinatra, “if I can make it there, you can make anywhere”. Se você nadar aqui, pode nadar em qualquer lugar. Depois de terminar, liguei para minha mãe, Isabel, campeã sul-americana de natação na juventude, para contar que completei o desafio. Ela que me colocou para nadar desde pequeno.

'Realizei um sonho', diz Guga Chacra em relato sobre desafio aquático de 48km ao redor de Manhattan: 'Altos e baixos até o fim'

Autor

BRCOM