Após sete anos marcados, mais recentemente, por ataques do governo do presidente americano, Donald Trump, Lonnie G. Bunch III anunciou nesta terça-feira que deixará o cargo de secretário do Smithsonian — o maior complexo de museus, educação e pesquisa dos Estados Unidos. A Casa Branca intensificou as críticas à forma como o Smithsonian apresenta a história e os valores americanos, provocando preocupação entre alguns, que veem o movimento como um ataque à autonomia da instituição, e elogios de outros, que defendem que a organização seja contida por considerá-la dominada por um viés liberal.
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Em entrevista, Bunch, de 73 anos, disse que não foram as pressões que o levaram a deixar o cargo.
— Foi realmente apenas dizer: agora é a hora — afirmou. — Eu sou um lutador.
Lonnie G. Bunch III, secretário do Smithsonian, em Washington, em 28 de maio de 2026
Caroline Gutman / The New York Times
Ao mesmo tempo, reconheceu o desgaste provocado pela função.
— Preciso ser honesto, tem sido estressante — contou. — E, em determinado momento, eu gostaria de acordar de manhã e não olhar para o celular.
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Em comunicado, o presidente da Suprema Corte dos EUA, John G. Roberts Jr., que atua como chanceler do Smithsonian, afirmou que Bunch “buscou a excelência ao contar a história de nossa nação” e que o Smithsonian “se beneficiou enormemente de sua sabedoria, visão e liderança”. O Smithsonian informou que Bunch deve deixar o cargo no fim do ano.
Por mais de um ano, Bunch tentou equilibrar diplomacia e abertura às críticas com a determinação de resistir à pressão da Casa Branca para apresentar o que Trump chama de história “patriótica”. Alguns admiram a maneira como Bunch conseguiu discretamente manter sua posição diante da Casa Branca. Outros acreditam que o Smithsonian demonstrou deferência excessiva ao republicano e chegou a praticar autocensura.
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No ano passado, a pintora Amy Sherald retirou sua exposição de grande sucesso na National Portrait Gallery após um desacordo sobre a forma como o museu exibiria seu retrato de uma Estátua da Liberdade transgênero. Bunch, porém, disse não ter arrependimentos.
— Meu objetivo tem sido vencer, não fazer com que eu me sinta bem — disse. — Vencer, proteger o Smithsonian. Houve momentos em que eu lutei, deixei claro quais eram as linhas vermelhas. E houve outros momentos em que deixei as coisas passarem.
Bunch, um historiador amplamente respeitado que anteriormente supervisionou a criação do National Museum of African American History and Culture, disse que seu próximo capítulo provavelmente incluirá dar aulas ou participar de algum programa de pesquisa.
Pressão sobre o Smithsonian
Criado pelo Congresso como uma instituição fiduciária em 1846, o Smithsonian há muito é considerado independente do Poder Executivo. Agora, seu Conselho de Regentes terá de nomear um novo líder diante dos ataques contundentes do governo.
O colegiado de 17 integrantes, liderado pelo presidente da Suprema Corte, John Roberts, inclui seis membros do Congresso, divididos entre os dois partidos; nove cidadãos independentes; e o vice-presidente JD Vance. Os mandatos de três dos membros civis expiraram recentemente, e os nomes dos substitutos indicados ainda não chegaram ao Congresso, em uma situação incomum que parece ser evidência da disputa nos bastidores pelo controle do Smithsonian.
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No curto prazo, Bunch parecia ter apoio suficiente do conselho para permanecer no cargo, mas indicou estar cansado da disputa e pronto para alguma forma de aposentadoria.
— Quando você é negro nos Estados Unidos, precisa descobrir como seguir em frente, certo? Você precisa descobrir como construir aliados, quando se manter firme, quando bater na mesa. Então, de certa forma, tudo isso me preparou para este momento — afirmou ao New York Times em maio. Referindo-se ao escrutínio do governo Trump, ele continuou: — Mas eu gostaria de estar passando por isso? Claro que não. Meu Deus, eu gostaria de estar fazendo minha turnê de despedida.
Ao longo de quase 40 anos em diferentes funções no Smithsonian, Bunch construiu uma reputação de diplomata de fala mansa, habilidoso em arrecadar recursos e lidar com autoridades públicas. Como primeiro secretário negro da instituição, ele foi, em alguns momentos, uma voz contundente em questões raciais, especialmente após a manifestação de nacionalistas brancos em Charlottesville, na Virgínia, em 2017, e após o assassinato de George Floyd, em Minneapolis, em 2020.
Trump não deu muita atenção às instituições culturais de Washington durante seu primeiro mandato, mas fez delas um foco de seu segundo governo, inclusive por meio de seus esforços para governar, fechar e reformar o John F. Kennedy Center for the Performing Arts. O Smithsonian foi obrigado a responder às exigências da Casa Branca ou correr o risco de sofrer possíveis cortes em seu orçamento de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,08 bilhões), em grande parte financiado pelo governo federal.
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No mês passado, em uma carta ao conselho, o secretário do Interior, Doug Burgum, e Vince Haley, um alto assessor da Casa Branca, deixaram claras as consequências.
“O Smithsonian conta com o apoio de departamentos e agências do Poder Executivo”, dizia a carta. “Esses departamentos e agências não podem, em sã consciência, continuar apoiando o Smithsonian sob a atual liderança.”
A tentativa do presidente de reformular o Smithsonian começou no ano passado com uma ordem executiva que acusava a instituição de promover “narrativas que retratam os valores americanos e ocidentais como inerentemente nocivos e opressivos” e pedia o fim de gastos com exposições ou programas que “degradem valores americanos compartilhados, dividam os americanos com base em raça ou promovam programas ou ideologias incompatíveis com a lei federal”.
Depois que a Casa Branca exigiu que o Smithsonian entregasse informações sobre o conteúdo de suas exposições, Bunch reafirmou a independência da instituição, embora tenha dito que os materiais foram enviados em um esforço para ser “transparente”.
O conselho aprovou uma resolução determinando que seus 21 museus revisassem o conteúdo em busca de partidarismo ou viés. Mas o governo iniciou sua própria análise de exposições, textos nas paredes e redes sociais para avaliar o “tom, o enquadramento histórico e o alinhamento com os ideais americanos”.
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Trump manteve suas críticas, publicando nas redes sociais que “o Smithsonian está FORA DE CONTROLE, onde tudo o que é discutido é o quão horrível é nosso país, o quanto a escravidão foi ruim e o quão pouco realizados foram os oprimidos — Nada sobre Sucesso, nada sobre Brilho, nada sobre o Futuro. Não vamos permitir que isso aconteça”.
O presidente também anunciou nas redes sociais que havia demitido a diretora da National Portrait Gallery, Kim Sajet, chamando-a de “uma pessoa altamente partidária e uma forte apoiadora de DEI”. O Smithsonian insistiu que tinha controle sobre questões de pessoal, mas Sajet renunciou, citando os melhores interesses da instituição.
A pressão da Casa Branca atingiu um novo patamar neste ano com um relatório divulgado em 4 de julho sobre o National Museum of American History, que acusou sua diretora de ter uma “ideologia de ativista radical” e o museu de minar a “confiança nas instituições americanas”.
Muitos historiadores expressaram séria preocupação com o relatório, mas alguns conservadores o aplaudiram, juntando-se a Trump no argumento de que as exposições haviam se concentrado excessivamente em raça, identidade e injustiça.
“Americanos trabalhadores não querem que seus impostos sejam destinados à doutrinação marxista”, escreveu nas redes sociais o senador republicano Mike Lee, de Utah.
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Após o relatório, Anthea M. Hartig, diretora do museu, foi alvo de críticas em duas audiências no Congresso. Em seguida, Trump ordenou a instalação de placas de advertência e exposições para transmitir sua visão de que o museu não refletia com precisão a história americana. As placas ainda não foram instaladas.
Bunch disse que foi difícil ver seus colegas serem atacados pelo governo.
— Sempre tentei proteger as pessoas — relatou. — Então sempre disse: “Deixem que o peso recaia sobre mim. Eles não merecem isso.” Estamos em uma época em que as pessoas estão sendo prejudicadas.
— Como faço para garantir que sempre coloquemos o Smithsonian na posição mais forte possível? — questionou Bunch, apontando essa como sua prioridade. — Que expressemos claramente no que acreditamos, a importância da imparcialidade e da pesquisa acadêmica?
Legado de Bunch
Quando Bunch se tornou líder do museu de história afro-americana, em 2005, aquela instituição ainda era um sonho distante.
Ele trabalhou com o Congresso para obter financiamento e atraiu grandes doadores, como Oprah Winfrey. Nomeou republicanos como Laura Bush e Colin L. Powell para o conselho e conquistou apoio ao defender que o museu deveria reconhecer os horrores da escravidão e a luta pelos direitos civis, ao mesmo tempo em que celebrava as conquistas históricas dos negros. Bunch afirmou que o museu precisava contar “a história essencialmente americana” do progresso.
Lonnie Bunch, primeiro dirigente negro do prestigiado Instituto Smithsonian dos Estados Unidos
Robert Stewart/ Instituto Smithsonian/ 8-7-2021
O museu foi inaugurado com grande repercussão em 2016 e se tornou o quarto destino mais visitado do Smithsonian no ano passado, com 1,6 milhão de visitantes. Bunch chegou ao cargo máximo do Smithsonian em 2019.
No primeiro semestre deste ano, Bunch disse estar orgulhoso do que o Smithsonian havia alcançado sob sua liderança, apesar da onda de ataques de Trump.
— Nada pode tirar isso de mim — afirmou. — Então estou tentando garantir que não deixe este momento roubar minha alegria.
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Nesta semana, ele falou sobre a importância de o Smithsonian continuar explorando o passado do país em toda a sua complexidade.
— Os americanos são um povo incrivelmente corajoso, que realizou tantas coisas. Eles precisam ser corajosos o suficiente para enfrentar a própria história — ressaltou. — Para mim, isso é essencial. Vou resistir contra o vento e a maré para impedir que a história seja apagada, suavizada e tornada palatável. Isso é errado.
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