No enterro de Paul Auster, que morreu em 30 de abril de 2024, aos 77 anos, vítima de um câncer de pulmão, o rabino disse que o espírito do escritor americano viveria enquanto se lembrassem dele. Siri Hustvedt, a viúva, que também é escritora, anotou em seu diário que teve “vontade de gritar” diante de “toda aquela bobagem do corpo como mero ‘receptáculo”. Ela estava com “raiva da morte”. Mais tarde, sozinha em casa, teve a “certeza absoluta de que Paul estava subindo os últimos degraus do terceiro andar, ao lado da porta aberta”. A presença dele no quarto era “palpável”. Imediatamente, ela se lembrou do que Paul havia dito três dias antes de morrer: “Quero ser um fantasma”. Em seu recém-lançado livro de memórias, intitulado “Histórias de fantasma” (Companhia das Letras), Siri conta que sentiu a presença do marido outras vezes. Houve dias em que, de repente, o cheiro das cigarrilhas que ele fumou por décadas invadia a casa.
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Siri começou a escrever “Histórias de fantasma” poucos dias após a morte de Paul. Mais do que um diário do luto, o livro é um testemunho dos 43 anos que os dois escritores viveram juntos. Eles se conheceram em 1981, quando Siri dava os primeiros passos na carreira literária e Paul, separado da escritora Lydia Davis e pai de um menino pequeno, trabalhava em “A invenção da solidão”, misto de ensaio e memória que o catapultou para o sucesso. Pensando no filho, Paul até tentou se reconciliar com a esposa, mas foi dissuadido por três cartas apaixonadas de Siri. A correspondência foi incluída em “Histórias de fantasma”.
A escritora americana Siri Hustvedt, viúva de Paul Auster
Spencer Ostrander/Divulgação
O livro também reproduz e-mails que, nos últimos anos, Siri enviava periodicamente a amigos para atualizá-los do tratamento de saúde do autor da “Trilogia de Nova York”, o diário que ela manteve durante os últimos meses de vida do marido, reflexões sobre o luto e as cartas que Paul, ciente da proximidade no fim, escreveu para o neto recém-nascido, Miles, contando histórias da família.
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O escritor Salman Rushdie disse ao New York Times que Paul está “muito presente” no livro. “Os dois eram muito unidos, e Paul era o maior incentivador de Siri. Eles se envolviam profundamente com o trabalho um do outro”, afirmou o autor de “Os versos satânicos”.
A forma fragmentada do livro, cheia de interrupções e idas e vindas, espelha a turbulência do luto — que estraçalhou a experiência do tempo da autora. “O que eu não imaginava era que, depois da morte do Paul, o tempo ficaria tão desorganizado que ser tornaria irreconhecível. Eu lembro e logo depois esqueço que dia é hoje”, escreve Siri em “Histórias de fantasma”.
— Eu sabia que o Paul estava doente e poderia morrer, mas perder a presença dele no meu cotidiano foi um choque enorme. O luto também é corporal. Tive dores terríveis nas costelas, o que não é incomum no luto. Meu corpo tem se habituado a viver sozinho. O tempo não cura. O buraco continua aqui, mas a gente se adapta — diz a escritora, que vive em Nova York e conversou por vídeo com o GLOBO.
De olho na ia
Siri descobriu que os enlutados às vezes sofrem de “dor intercostal” porque, depois da morte de Paul, leu tudo o que pôde sobre perda e luto: de artigos acadêmicos a memórias como “A anatomia de uma dor”, de C.S. Lewis. Ela sempre foi assim: quando enfrenta um problema, se põe a estudar — Paul ria desse hábito da esposa. Não à toa, Siri acumulou um repertório assombroso de filosofia, psicanálise e até neurociência. Ela desconfia que esse hábito seja herança de sua formação protestante, que a valoriza o estudo, a disciplina e a leitura sem mediação. A escritora de 71 anos nasceu em Minnesota, no Meio-Oeste americano, numa família de imigrantes noruegueses luteranos. Ultimamente, ela anda lendo sobre inteligência artificial para uma palestra que dará em Stuttgart, na Alemanha — ela quer entender por que o “pessoal da IA” age como se não tivesse controle sobre as ferramentas que eles próprios programaram.
Ao comentar “Histórias de fantasma”, um crítico do New York Times disse que, quando jovem, Siri parecia saída de um filme de Ingmar Bergman. Autora de romances elogiados, como “Um verão sem homens”, ela sempre foi ofuscada pelo sucesso do marido, celebrado como um dos maiores escritores americanos das últimas décadas por explorar a memória e a perda em obras que subverteram as narrativas de mistério.
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Em “Histórias de fantasma”, ela conta que era comum jornalistas lhe perguntarem “como é ser casada com Paul Auster?”. O marido, é claro, nunca foi questionado sobre como era ter Siri como esposa. O casal, no entanto, não deixou que o machismo de jornalistas e do meio editorial respingasse no relacionamento. A vida toda, um editou os livros do outro. Às vezes havia algum “combate intelectual”, Siri admite. Porque ela preferia ler sobre Ciência e ele, sobre História. Conversavam tanto sobre suas leituras que, no fim, tinham as mesmas referências — a ponto de pensarem que Paul era um “profundo conhecedor da obra de Lacan”, embora tenha sido Siri quem estudou o psicanalista francês.
— Paul se irritava quando me diminuíam, e me apoiava muito. Ele foi ficando mais feminista ao longo do tempo e eu sei que era por minha causa — conta a autora de “O mundo em chamas”, romance protagonizado por uma pintora que só conhece o sucesso quando começa a atribuir suas obras a homens. — Aos olhos do Paul, eu era melhor do que realmente sou, ele me achava um gênio (risos)! Tive muita sorte, ser amada assim me deu força.
No livro, Siri também fala com honestidade de tragédias familiares que, ela desconfia, talvez tenham abalado a saúde de Paul. Em abril de 2026, Daniel, filho do escritor com Lydia Davis, sofreu uma overdose fatal horas depois de sair da prisão. Ele fora responsabilizado pela morte da filha, Ruby, um bebê de 10 meses que estava aos seus cuidados e teria sido exposta a heroína e fentanil. Os problemas de Daniel apareceram cedo. Na adolescência, roubou US$ 13 mil da conta bancária da madrasta. Anos depois, embolsou o dinheiro que o pai lhe dera para pagar a faculdade, abandonou o curso e forjou os boletins que encobrir suas mentiras.
— A morte de Daniel e Ruby foi coberta por jornais do mundo todo com muito sensacionalismo. Eu não deixava Paul ver o que escreviam. A morte de Ruby nos traumatizou, é uma dor que nunca vai passar. Ao mesmo tempo, quis que o livro registrasse a humanidade dessa tragédia e o quanto amávamos Daniel. Ele sempre foi muito inteligente e talentoso, desde criança. Nós tentamos de tudo.
Paul e Siri tiveram uma filha, a cantora Sophie Auster, mãe de Miles, para quem o escritor redigia cartas. Na última, ele lamentou: “Você vai viver sua vida sem nenhuma lembrança consciente de mim”. Miles tem2 anos e 9 meses e Siri tomou como “missão” contar ao neto as histórias que o avô não pôde. Ela sorri ao revelar que o menino, como o avô, adora beisebol.
— É como se Miles tivesse sido feito sob metida para ser neto do Paul!
Quando ficar mais velho, talvez Miles consiga enxergar na avó o avô que partiu antes da hora. Depois da morte do marido, sem se dar conta, Siri foi incorporando características dele, como sua proverbial honestidade, que às vezes beirava à falta de noção. Uma vez, um leitor lhe mostrou a foto de seu filho e Paul, quase automaticamente, reagiu: “Que bebê mais feio”. Ele também reclamava de ganhar presentes (“Por que você me deu isso?”) e, uma vez, quando Siri surgiu vestida com uma calça e uma blusa brancas que ela considerava “o ápice da elegância”, disse que ela parecia “um entregador de leite”. Hoje, é ela que teme “ter ficado mal-educada”.
— Ver alguém que você ama morrer é uma experiência tão profunda que depois disso você não tem mais paciência para besteiras superficiais, não quer mais perder tempo com isso. Acho que essa minha honestidade radical depois da morte do Paul é um jeito de incorporá-lo a mim. Acredite se quiser: agora, eu não perco mais minhas chaves.
Antes, era ele que tinha sempre as chaves ao alcance das mãos, inclusive no hospital, durante as fases mais duras do tratamento do câncer. Em suas leituras pós-luto, a estudiosa Siri aprendeu que algumas viúvas não apenas sentem a presença dos maridos, como aconteceu com ela depois do velório, mas também adotam seus gestos, hábitos e manias. “Eu estou só, mas ele está aqui dentro de mim”, escreve Siri no livro que reúne as histórias do homem que ela amava e que lhe prometeu voltar como fantasma.
Siri Hustvedt: em livro sobre luto, viúva de Paul Auster fala de traumas familiares e machismo no meio literário
No enterro de Paul Auster, que morreu em 30 de abril de 2024, aos 77 anos, vítima de um câncer de pulmão, o rabino disse que o espírito do escritor americano viveria enquanto se lembrassem dele. Siri Hustvedt, a viúva, que também é escritora, anotou em seu diário que teve “vontade de gritar” diante de […]