Pular para o conteúdo
News

Sustentados pelas casas de apostas, clubes temem perder receita imediata em caso de proibição ou restrição do governo

Será mesmo o fim do futebol brasileiro? O temor dos clubes patrocinados por casas de apostas, após a informação de que o governo federal estuda adotar uma Medida Provisória sobre o tema, tem fundamento. Mas não a ponto de decretar a morte do esporte predileto dos brasileiros. Ainda não há um esboço concreto da MP, […]

Sustentados pelas casas de apostas, clubes temem perder receita imediata em caso de proibição ou restrição do governo


Será mesmo o fim do futebol brasileiro? O temor dos clubes patrocinados por casas de apostas, após a informação de que o governo federal estuda adotar uma Medida Provisória sobre o tema, tem fundamento. Mas não a ponto de decretar a morte do esporte predileto dos brasileiros.
Ainda não há um esboço concreto da MP, mas o que circula assustou os clubes e as casas de apostas, que saíram em defesa de seus negócios. Nesta sexta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a atacar as bets e criticou a postura dos times.
— Esse negócio de que se acabar com as bets acaba com o futebol é balela. […] Nós temos é que acabar com a pouca-vergonha no futebol — afirmou em comício em Guarulhos.
A possibilidade de banimento dos cassinos online reduziria drasticamente o lucro das bets. Em média, 70% do faturamento do setor vem dessa modalidade, que possui inúmeros jogos, como caça-níqueis (“Jogo do Tigrinho”), roleta e jogos de cartas, por exemplo. Os demais 30% são provenientes das apostas esportivas —palpites feitos em eventos esportivos variados, como resultado do jogo, número de cartões amarelos, escanteios e afins.
Ou seja, as principais patrocinadoras do futebol brasileiro teriam, de forma imediata, uma queda grande do faturamento. E, por consequência, seus contratos com os clubes poderiam ser revistos. É de praxe, por ser um mercado regulado pelo governo à mercê de mudanças, que constem nos acordos comerciais algum tipo de proteção às casas de apostas por “motivo de força maior”.
Inclusive, a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), alertou seus associados, em nota, “sobre a necessidade de revisão dos contratos de publicidade, marketing e patrocínio atualmente mantidos pelas empresas. A recomendação tem caráter estritamente preventivo e busca alertá-las, para que as empresas estejam preparadas para avaliar e administrar eventuais impactos financeiros”.

Arte
Aumento de ilegais
A MP visa ao combate do endividamento da população e o vício com jogos online. No entanto, os representantes das empresas discordam que uma proibição ou mais restrições sejam o caminho mais eficiente. Alertam que isso abriria caminho para os sites de apostas ilegais.
— O apostador ficaria mais exposto a riscos, enquanto o combate a práticas irregulares se tornaria ainda mais complexo. O caminho mais eficiente passa pelo fortalecimento da regulamentação, pela fiscalização rigorosa das empresas autorizadas, pelo combate ao mercado ilegal e pela ampliação das iniciativas de Jogo Responsável e educação dos apostadores — diz Marco Tulio Oliveira, CEO da Ana Gaming Brasil, que controla a marca 7k Bet, patrocinadora do Vitória.
É fato que o ecossistema do futebol atual se sustenta pelas bets, que entraram no mercado brasileiro a partir de 2018 pela brecha da legislação. O dinheiro das apostas jorrou ano a ano nos cofres dos clubes desde então. Em 2024, por exemplo, 18 dos 20 times da Séria A contavam com algum patrocínio do setor em seus uniformes. Naquele ano, a injeção de investimento foi de R$ 523 milhões, segundo estimativas.
Este ano, o valor ultrapassa a casa do bilhão, tendo 13 clubes com patrocínios máster de casas de apostas. Além dos principais campeonatos nacionais terem uma bet como naming rights. A dimensão fica clara quando comparada com a época das estatais como patrocinadoras do futebol brasileiro. Ao longo de sete anos, a Caixa Econômica Federal aportou R$ 663,7 milhões nos clubes das Séries A e B (o total de times patrocinados chegou a 25).
— O esporte tem sido muito beneficiado pelas bets. Por anos, as empresas que entravam eram meio aleatórias, sem ter real contrapartida do mercado, como as iniciativas do governo. Depois, vieram as fintechs, os bancos. As bets têm envolvimento direto com o jogo. Investem na própria lagoa que pescam. Por isso, faz sentido ter investimentos maiores — analisa Ricardo Magri, diretor-executivo da EBAC (Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo), que trabalha pelo jogo responsável.
Retração à vista
Após a regulamentação de janeiro de 2025, como era esperado, o mercado começou a se ajustar. Após o boom de empresas do setor investindo em clubes de todas as divisões do Brasil, a tendência é que haja alguma retração nos valores nos próximos anos. Principalmente, entre os clubes menores. O apetite das grandes casas de apostas será para poucos.
No fim de 2025, a Alfa, patrocinadora máster do Grêmio e do Internacional, sofreu com crise financeira e deixou de operar no Brasil. Deixou dívida de milhões — o tricolor fez um acordo para receber parte do dinheiro, enquanto o colorado cobra cerca de R$ 60 milhões na Justiça pelas parcelas que não foram pagas.
— Algumas grandes casas de apostas de fora do país não operam no Brasil após a regulamentação. Não é fácil se manter pela carga tributária e o valor de outorga. Poucas ficaram, com saúde financeira e com apetite — explica Macri.
Desde a mudança mais drástica, como o banimento do cassino online, ou restrições mais brandas, como proibições de publicidade, trará impacto para o setor. As receitas milionárias dos clubes teriam que ser reajustadas para uma nova realidade imediata.
Porém, não seria o fim na opinião de Ricardo Magri. Ele lembra que o mercado do esporte é cíclico. Vislumbra, inclusive, dois setores em franco crescimento que já começam a se movimentar nesse sentido: empresas de Inteligência Artificial e marcas de carros elétricos.
No mês passado, o Google fechou parceria com o Bayern de Munique. Em março, o Gemini, plataforma de inteligência artificial da empresa, se tornou patrocinador da seleção da Argentina, estampando a marca nos uniformes de treinos.
— Já tem uma guerra por mercado envolvendo as empresas de IA: Gemini, ChatGPT, Copilot, Claude. Elas têm mais força que as bets. As principais montadoras chinesas de carros elétricos vão começar a competir entre si. Vai ser bem forte a briga por grandes mercados e ligas, como foi com bebidas, bancos, empresas aéreas. Em dois anos, acredito que essa será a competição — profetiza Magri.

Sustentados pelas casas de apostas, clubes temem perder receita imediata em caso de proibição ou restrição do governo

Autor

BRCOM