Depois de receber o diagnóstico de TDAH, Isis Valverde passou a compreender sob outra perspectiva situações que fizeram parte de sua rotina durante anos. A atriz relatou uma mente constantemente ocupada por diferentes estímulos, dificuldade de concentração e cansaço mental. Com o tratamento, percebeu que era possível desacelerar esse fluxo e se concentrar em uma coisa de cada vez.
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O relato chama atenção para uma dimensão do TDAH que nem sempre aparece nas representações mais conhecidas do transtorno. Embora desatenção e hiperatividade estejam no próprio nome da condição, as manifestações na vida adulta são diversas e podem passar despercebidas, sobretudo quando não envolvem comportamentos de hiperatividade mais evidentes.
Isis também contou que enfrentou críticas e bullying por questões relacionadas à atenção antes de entender o que estava por trás dessas situações. Histórias como a dela ajudam a ilustrar por que alguns adultos chegam ao diagnóstico depois de anos interpretando dificuldades de organização, concentração ou desempenho como falta de disciplina ou esforço.
Para Damião Silva, psicólogo e neuropsicólogo, especialista em Superdotação, TDAH e Autismo, receber o diagnóstico na vida adulta pode levar a uma revisão de experiências acumuladas ao longo dos anos.
“Quando o diagnóstico acontece na vida adulta, muitas pessoas começam a revisitar episódios da infância, da escola, dos relacionamentos e da vida profissional com outra perspectiva. Aquilo que durante anos foi chamado de distração, desorganização, preguiça ou falta de interesse pode ganhar uma explicação diferente. Não significa justificar todas as dificuldades pelo TDAH, mas compreender que existe um funcionamento neurobiológico que precisa ser considerado”, diz.
Quando ‘minha cabeça não para’ ganha outro significado
A sensação descrita por Isis ajuda a entender por que o TDAH não pode ser reduzido à ideia de simplesmente não prestar atenção. Em muitos casos, a questão está na capacidade de regular e direcionar a atenção conforme a demanda.
Um adulto pode ter dificuldade para iniciar ou concluir tarefas, administrar o tempo, organizar compromissos ou controlar impulsos. Em outras situações, pode permanecer concentrado durante horas em uma atividade que desperte seu interesse. A hiperfocalização, embora não seja um critério diagnóstico isolado, é frequentemente relatada por pessoas com TDAH.
“Existe uma ideia equivocada de que a pessoa com TDAH simplesmente não consegue prestar atenção. Muitas vezes, a dificuldade está na regulação da atenção. Ela pode ter problemas para direcioná-la e sustentá-la em determinadas situações e, em outras, permanecer extremamente concentrada. Quando várias demandas internas e externas competem o tempo todo por essa atenção, isso também pode ser vivido como um enorme cansaço mental”, afirma.
A descoberta de que poderia ser diferente
Ao falar sobre o tratamento, Isis descreveu surpresa diante da possibilidade de concentrar os pensamentos de outra maneira. Esse tipo de percepção pode aparecer entre adultos que passam muitos anos entendendo determinado funcionamento como parte inevitável de quem são.
Isso não significa, porém, que uma mudança percebida após o início de um tratamento sirva como confirmação de um diagnóstico. A identificação do TDAH depende de uma avaliação clínica que considere a trajetória da pessoa e o impacto dos sintomas em diferentes áreas da vida.
“Todo mundo pode se distrair, procrastinar, esquecer alguma coisa ou passar por períodos em que a mente parece mais acelerada. Para falarmos em TDAH, precisamos analisar um conjunto de sintomas, a história daquela pessoa, a presença dessas características desde fases anteriores da vida e o impacto provocado em diferentes contextos”, ressalta o neuropsicólogo.
Por que tantas mulheres chegam ao diagnóstico mais tarde
A experiência de Isis também se conecta a uma discussão importante sobre o reconhecimento do TDAH entre mulheres. Quando os sinais aparecem principalmente como desatenção, desorganização ou dificuldade para administrar várias demandas, eles podem ser menos perceptíveis do que comportamentos associados à hiperatividade.
Antes de considerar a possibilidade de um transtorno, algumas mulheres passam anos recebendo explicações como falta de disciplina, desorganização ou pouca atenção. A repetição dessas críticas pode afetar a maneira como interpretam as próprias capacidades.
“Quando alguém passa anos sendo criticado por comportamentos que não consegue simplesmente modificar pela força de vontade, essas mensagens podem ser internalizadas. A pessoa deixa de pensar ‘eu tenho dificuldade com isso’ e começa a pensar ‘eu sou incapaz’. Por isso, compreender o próprio funcionamento pode ter um impacto que vai além dos sintomas. Também pode mudar a narrativa que aquela pessoa construiu sobre si mesma”, pondera Damião.
Informação ajuda, mas não substitui avaliação
A maior presença do TDAH nas redes sociais ampliou o acesso a informações sobre o transtorno, mas criou um efeito paralelo: conteúdos que transformam comportamentos comuns, como procrastinação, distração ou esquecimento, em possíveis sinais de diagnóstico.
Identificar-se com um relato pode ser o ponto de partida para buscar informação ou atendimento, mas não é suficiente para determinar a existência do transtorno.
“As redes podem funcionar como uma porta de entrada para a informação. O problema é quando um vídeo de poucos segundos passa a ocupar o lugar de uma avaliação. O TDAH precisa ser compreendido dentro da história completa daquela pessoa. Existem outras condições e situações que podem produzir dificuldades de concentração, organização ou memória, e diferenciar esses quadros é parte fundamental do processo”, destaca o especialista.
Ao compartilhar a própria experiência e falar sobre a busca por tratamento, Isis coloca em evidência uma questão que vai além da identificação com sintomas. Entender como a própria mente funciona pode ajudar a substituir julgamentos antigos por uma compreensão mais precisa das dificuldades — desde que a informação seja acompanhada de avaliação profissional.
“Foi muito importante entender que é possível, que tem tratamento”, declarou a atriz. Para Damião, esse é um dos aspectos que podem tornar o debate público sobre o TDAH mais útil. “O objetivo do diagnóstico não é colocar um rótulo, mas compreender necessidades e, a partir disso, construir estratégias e tratamentos que façam sentido para aquela pessoa”, finaliza.
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