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novembro 4, 2026
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Vitória histórica de árabe-americano no Michigan reforça guinada à esquerda entre democratas nos EUA

Por · novembro 4, 2026
Vitória histórica de árabe-americano no Michigan reforça guinada à esquerda entre democratas nos EUA


Michigan fez história nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Filho de imigrantes egípcios, o médico epidemiologista Abdul el-Sayed se tornou o primeiro senador de origem árabe e muçulmano do país. Ao chegar à frente do deputado republicano Mike Rogers, que em sua campanha atacou o adversário por sua etnia, pela fé que professa e até pelo trabalho voluntário de sua mãe nos anos 1970 para o movimento político islâmico Irmandade Muçulmana, El-Sayed aumentou consideravelmente as chances de Donald Trump perder a maioria na Câmara Alta do Capitólio. Também provou que o movimento à esquerda no Partido Democrata não se restringe às grandes metrópoles e pode conquistar a maioria dos eleitores em um estado decisivo para o Colégio Eleitoral. E, não menos importante, reforçou o sinal de que as ruas pedem mudança no realinhamento automático de Washington com Israel. Não é pouco.
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Aparentemente alheios a tanto peso, legiões de eleitores americanos com famílias que vieram de Iêmen, Líbano, Egito, Jordânia e Palestina nas últimas cinco décadas rumaram para as urnas em massa na cidade de Dearborn, localizada no subúrbio de Detroit e que reúne percentualmente a maior população de origem árabe no país. Com temperatura muito mais alta do que o normal para esta época do ano na região dos Grandes Lagos, céu azul e sol agradável entre 22C e 24C, ir às urnas era quase mais um passeio no meio do dia normal de trabalho. Quase.
— Sim, pois há um enorme porém: as pessoas aqui sabem que podem estar fazendo algo extraordinário. Especialmente os jovens. Há a percepção, já tateada ano passado com Zohran Mamdani em Nova York, um muçulmano ugandense de origem indiana, da conquista de representação real neste país, para além dos estereótipos. De que este estrato também chegou lá — afirmou ao GLOBO Granae Mosley, de 55 anos.
A funcionária de um plano de saúde privado que nada tem de árabe votou cedo ao lado de casa e dirigiu uma hora na direção sul para “testemunhar o fato em seu lugar de direito” e “não deixar as pessoas esquecerem de votar”. Em Dearborn, ao menos, não foi tarefa das mais difíceis, como atesta o estudante Jeriq Dabb, de 27 anos, que passou o dia batendo de porta em porta “por Abdul”. Até o meio da tarde, contava 328 eleitores em sua lista preenchida a caneta.
Contexto: Democrata Abdul El-Sayed é eleito como primeiro muçulmano ao Senado dos EUA
Aos 42 anos, Abdul El-Sayed se tornou uma das maiores novidades deste ciclo eleitoral nos EUA, mas está na vida dos eleitores do Michigan há tempos. Especialista em saúde pública, é casado com a psiquiatra Sarah Jukuku, de origem indiana, primeira de sua turma na Universidade de Columbia e mãe de suas duas filhas. Ele ganhou notoriedade ao comandar o equivalente à Secretaria Municipal de Saúde de Detroit e perdeu por pouco as primárias democratas de 2018 para a popular governadora Gretchen Whitmer. Na campanha, foi castigado internamente por defender um sistema de saúde pública para o estado, criticado por ser uma “ideia socialista”.
A decisão do senador democrata Gary Peters de não disputar a reeleição, o movimento popular de denúncia ao apoio militar de Washington às ações militares de Israel em Gaza e o fortalecimento da esquerda no Trump 2.0 fizeram com que o médico decidisse encarar mais uma prévia este ano. Venceu, por pouco, a deputada federal Haley Stevens, uma centrista que representa distrito eleitoral com grande número de eleitores judeus.
Há dois dias ela anunciou que apoiaria Rogers e acusou o adversário de antissemitismo após uma peça de propaganda de um grupo independente pró-El-Sayed afirmar que os moradores do Michigan pagam mais no supermercado pela “taxa Israel”, uma referência indireta ao financiamento militar de Tel-Aviv por Washington. Os aparentes resultados imediatos foram o isolamento interno da congressista, o recorde em doações à campanha do democrata e a promessa, pela Casa Branca, na manhã de ontem, de não renovar em janeiro o pacote de ajuda de US$ 4 bilhões para Israel, “pois eles não precisam mais”.
Nova coalizão
No lado republicano, Mike Rogers é um ex-deputado trumpista de 63 anos que perdeu, por pouco, a disputa pelo senado há dois anos, para a democrata centrista Elissa Slotkin. Sem a oratória refinada de El-Sayed, foi castigado na campanha tanto pelo apoio à guerra conjunta dos EUA e de Israel contra o Irã, motivadora do aumento nos preços da gasolina, do diesel e da alta no custo de vida, quanto pelo fato de passar, de acordo com dados apresentados pela campanha adversária, mais tempo na Flórida, em sua casa de verão, do que no muito mais gélido Michigan.
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A cadeira no Senado é estratégica para os dois lados em um estado com 15 votos no Colégio Eleitoral, dados a Barack Obama em 2008 e 2012, a Donald Trump em 2016 e 2024, e a Joe Biden em 2020. Um voto à esquerda sinaliza o sucesso de uma nova coalizão democrata, formada por árabe-americanos, negros, estudantes, sindicatos e profissionais liberais progressistas dos centros urbanos.
Obama na campanha
Um dos pontos altos da campanha de El-Sayed foi trazer Barack Obama para fazer campanha para aquele que o ex-presidente vê como “um dos exemplos do futuro do Partido Democrata”. O paralelo entre os dois incluiu o que seria o sex appeal dos personagens, com o médico invariavelmente aparecendo em atos de campanha com camisas pretas cavadas que acentuam a boa pinta do ex-capitão de futebol americano e craque local do críquete.
— Há uma ponte óbvia entre os dois. Obama rompeu com o padrão, e Abdul também não aceita bullying. Ao ser chamado criminosamente de apoiador do terrorismo por Trump, ele reagiu classificando, sem medo, o presidente de idiota. Ele cresceu na cultura do caubói americano e não tem vergonha alguma disso, assim como se orgulha de sua fé, de não beber e não tolerar discriminação étnica e de gênero — afirmou Emad Sabbah, que saiu da Geórgia para apoiar a caça a votos na comunidade árabe do Michigan em favor de El-Sayed.
O GLOBO encontrou o empresário e filantropo de origem palestina em uma rápida parada de alguns minutos para comer um lanche rápido na Haraz, que serve o melhor café iemenita de Dearborn e se tornou quartel-general informal da campanha de El-Sayed. Lá também estava uma das mentoras políticas do prefeito Zohran Mamdani, a estrategista Linda Saraour, voz central da causa palestina nos EUA.
— Os paralelos entre Abdul e Mamdani são muitos e os mais claros são a seriedade com que os dois lidam com a coisa pública e a naturalidade com que se veem protagonistas da História. Os EUA terem seu primeiro senador de origem árabe será significativo não só para nós, árabe-americanos, mas para todo o país, com reflexos mundo afora. O que está acontecendo aqui hoje, e pelo voto, é imenso — afirmou ao GLOBO.

Vitória histórica de árabe-americano no Michigan reforça guinada à esquerda entre democratas nos EUA